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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

A decisão

                                                                 

Por: Antonio Mata

Tem gente que tem medo de iguana. Acham que tem cara de bicho perigoso. Os pombos, com suas fezes carregadas de fungos e bactérias nocivas, os ratos que voam, como andam sendo chamados, acabaram ganhando a antipatia de muita gente. Já os tracajás, há quem os prefira no sarapatel, ou mesmo assados.

Só os tracajás é que realmente se atreviam a chamar aquela lagoa suja de lar. Circulavam por entre o lodo em uma água verde, que nem tinta. Tamanha a quantidade de matéria orgânica em decomposição.

O lugar era uma das várias lagoas urbanas da cidade, e aberta à população por conta de um parque que nunca foi concluído. Não ficava distante nem escondida. O parque era espaçoso, ainda que incompleto e malcuidado.

— Anísio, você viu o Chico por aí?

— Não, aliás, faz tempo que não vejo o Chico.

— Viu Tiaguinho nadando em algum canto dessa lagoa?

— Esse eu vi na semana passada. De lá para cá, não vi mais.

— E o Julinho veloz, apareceu?

— Aquele que faz tudo devagar, igual jabuti? Também não apareceu.

Tião ficou pensativo com aquela situação. Era um dos mais velhos do bando da lagoa, e estava se referindo aos mais novos, que até bem pouco tempo, brincavam alegremente naquela mesma lagoa de água suja. As crianças estavam desaparecendo.

— Anísio avise para reunir o bando, e logo. Vamos todos nós dar uma busca em toda a lagoa. Até naquela água podre que fica do outro lado. Eles podem ter se perdido por ali, e o que é pior, podem ter morrido naquela podridão.— Ordenava Tião, preocupado com o bando da lagoa.

Logo pela manhã, o bando se reuniu na extremidade mais limpa, e tendo Tião como guia, iniciaram a busca lentamente por toda a extensão das águas, desde o trecho menos poluído até as águas  estagnadas, putrefatas, na outra ponta do lugar.

Reviraram cada palmo daquela lagoa, sem encontrar as tartaruguinhas menores. Lá pelo final da busca, que parecia não dar nenhum resultado, alguém trouxe, não os pequeninos, mas algo bem mais preocupante.

Nea se aproximou de Tião e Anísio, que estavam sobre um tronco na lagoa, e lhes mostrou o seu achado.

— Vejam, é por isso que estão desaparecendo. Isso é o que sobrou deles. Estava ali na beirada, junto da água estagnada.

Outros integrantes do bando começaram a chegar trazendo nas bocas aquele mesmo material.

 

O problema todo se deu quando o popular “do nada”, se manifestou, e surgiu um novo inquilino. Por sinal, e até certo ponto, pertencente às paisagens  urbanas, normalmente onde se tem água degradada, como nos igarapés poluídos, e nas galerias de esgotos, onde sempre contavam com farta alimentação em uma multidão de ratos.

Não é de hoje que habitam estes lugares. Muito resilientes, se adaptam fácil à sujeira e escuridão, desde que consigam alimento, e minimamente esconder-se da população humana.

Com facilidade poderiam se enquadrar na categoria dos “invisíveis” que a cidade produz. Quando se dará a saturação de seus ambientes, ante o aumento da população destes inquilinos? Sabe Deus.

 

 

Ao final da busca, Tião e Anísio reconheceram fácil os pequenos pedaços de carapaça de tracajá. Toda a parte macia havia sido devorada. Em um espaço tão restrito, o desaparecimento dos pequeninos despertava para algo bem aterrador.

— Como pode isso Tião? Aqui só tem iguanas, insetos, pombos e passarinhos. Está pegando só os tracajás menores.— Dizia Anísio, antigo morador da lagoa, que muito pouco sabia da vida lá fora, assim como todo o resto do bando.

Todo o resto, menos um.

Tião não era cria da lagoa, e nem havia chegado ali, ainda filhote. Tinha sido resgatado de um lote de tracajás capturados nos rios da região para serem vendidos no mercado da cidade.

Tião foi o único que sobreviveu aos frequentadores do mercado. Foi assim, por conta de uma apreensão de animais silvestres postos à venda clandestinamente, que as autoridades locais o levaram para a lagoa.

— Há um bicho no rio que vive perto dos areais e dos barrancos. Junto das águas rasas e nos lagos. É cheio de dentes, come carne, é forte o suficiente para quebrar a carapaça de um tracajá. É rápido, e gosta de fazer tocaia.

 

— Que monstro é esse, isso existe? Come tudo o que aparece?— Indagava Anísio, meio apavorado.

— Come sim, e muito. São jacarés, e que se pode fazer é se afastar deles. Não há como ficarmos juntos na mesma lagoa.

— Precisamos fazer alguma coisa, antes que seja tarde.— Dizia Anísio.

— Precisamos sim, e a primeira providência é encontrá-lo.— Respondeu Tião.

— Avise a todos que a busca mudou. Agora estamos procurando um bicho comprido, perigoso e cheio de dentes. Vamos procurar por jacarés. Tenham cuidado!

Em meio a água poluída, surgiu mais um agravante para os quelônios e mais uma vantagem para o predador da lagoa, a cor da água. Repleta de folhas e gramíneas em decomposição, a água da lagoa se tornara verde e opaca.

Dessa forma somente uma pequena parte da cabeça do jacaré estaria visível. Seu corpo se tornaria oculto naquelas águas. Para visualizar seu corpo, teriam que se aproximar mais, e perigosamente.

Não demorou muito para que encontrassem aquela cabeça com os olhos salientes. E um fato que explicava uma parte dos últimos acontecimentos. Ele era ainda relativamente pequeno. Por isso, só era capaz de devorar os filhotes, bem mais macios, com sua carapaça ainda em formação.

O bando de tracajás mais uma vez reunido, discutia o que se fazer para enfrentar aquela difícil situação.

Tião, por conta da sua experiência fora da lagoa, era a participação mais aguardada, diante daquela sucessão de falas apavoradas que não acrescentavam mais nada ao que já se sabia.

— Só temos uma certeza, ele vai crescer. E quanto mais ele crescer, mais perigoso vai ficar.— A plateia ouvia sem dar um pio. E Tião prosseguiu.

— Certa vez ouvi a história dos ratos que, reunidos em assembleia, teriam de decidir como evitar os ataques de um gato, que estava matando todos os ratos daquele lugar. Pensaram muito a respeito, e chegaram à conclusão de que seria preciso colocar um guiso no pescoço do gato.— Sob a atenção de todos, então concluiu.

— Então se viram diante da questão fundamental. Quem vai colocar o guiso no pescoço do gato? Como ninguém se manifestasse, a assembleia terminou sem a resposta. E o gato continuou solto. Percebem o grande perigo?

Anísio, cheio de autoridade, esticou o pescoço e se dirigiu a todos os presentes.

— Vocês prestaram bem atenção no que o Tião, com toda a sua experiência nos falou? Isso é tudo muito importante, pois nossas vidas dependem das decisões que tomarmos aqui. Todos entenderam?

Ainda que timidamente, porém foi o suficiente para se ouvir um “simmm”. Afinal todos entenderam o que estava acontecendo, e a expectativa era pela conclusão da assembleia, e com ela, finalmente as respostas. Foi Anísio quem se apressou e ofereceu a indagação final.

— Sendo assim, na defesa da vida de todos, para que não ocorra novas matanças por aqui, faço aqui a convocação!

— Quem vai colocar o guiso no pescoço do jacaré?

                                                                                 FIM

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