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histórias, crônicas e contos

A guerra dos esquecidos

                                                              

                                                                                                                               Foto: Lynn Greyling by Public Domain Pictures

Por: Antonio Mata

Lá pelo alto curso, nas barrancas do velho Madeira, contam essas coisas. Os mais antigos, gente do tempo de se caçar com arco e flecha. Onde uma espingarda de carregar pela boca era luxo para poucos. Só nas mãos de gente branca, de tão rara de se ver.

Foi lá pelos confins da terra e dos rios, por dentro das matas, nas noites iluminadas na luz de fogo. Contavam sobre a vida dos homens; dos peixes; dos bichos do mato e dos seres fantásticos.

Aqueles que não se sabe de onde vêm. Só se acha, se mistura com o que se viu, ou se imagina o que fazem e para onde vão. Muito menos se sabe se é vivo, se é morto. Se é assombração, só se sabe que estão lá. Vieram com a mata e só vivem com ela.

Diziam que se começou a juntar gente. Gente de todo lado que aparecia, que chegava. Chegando e se amontoando. O caboco olhava e não sabia de onde vinha tanta gente. Gente preta, gente branca, no meio de índio. Gente com uma fala diferente, que não se entendia nada. Tinha que se passar de um para o outro, e o outro explicava.

Meu avô era menino novo ainda. Escutava aquelas conversas no meio da noite, querendo saber o que acontecia. O motivo de haver tanta gente chegando ali. Foi pelas picadas perto do rio que retiravam dos barcos aquelas peças. Uns ferros enormes, compridos e muito, muito pesados. Assim precisavam de muitos homens para carregar e trabalhar com tanto material. Fizeram uma clareira grande na beira do rio, que nem um arraial. Foram se ajeitando por ali, até parecer uma vila.

Aquele ajuntamento cresceu muito. Chegou a mais de 1200 pessoas, além de grupos em uma cidade própria. A ordem era obter muito pescado em quantidade para se atender tanta gente.

As canoas subiram o Madeira e adentraram o Jutuarana, à direita, subindo o rio. Era pescada, surubim, carapari e pirarara. Foi assim que aquele movimento, que em um primeiro momento parecia não ser grande coisa, depois se avolumou levando o desespero aos animais. Primeiro os do rio, depois os de terra.

— Você tem visto como estão pescando cada vez mais? Estão subindo o rio, estendendo a rede por cima de todos. O rio ali não é muito fundo. Assim ficou muito fácil. E quanto mais sobe, mais fácil fica. Estão prendendo a todos.

Pirarara velho abanou a cabeça, afirmativamente.

— E se aumentar mais ainda? Quem garante que não estão querendo pegar os surubins daqui? Por que só surubim? Perguntava outro peixe velho preocupado.

— Desde de quando rede escolhe peixe? Estão levando tudo o que aparece. Não fique tão preocupado, não é só um problema seu. É de todos que vivem no rio. — Outro carapari velho, deixava claro que o problema era bem maior do que o velho surubim pudesse imaginar. Evidente que não era apenas naquele rio. Parecia ser só o começo.

— Se aumentar, eu não vejo outro jeito a não ser ir embora.

O Piratininga, outro gigante do rio, sabia que de tempos em tempos, às vezes os peixes precisavam ir embora para escapar dos pescadores mais vorazes. Entretanto, nunca tinha visto movimento tão grande como aquele.

Foi proposta então, uma vigília. Ficariam atentos a todos os movimentos, tanto na saída da vila, quanto na chegada aos rios. Os peixes, sendo avisados com antecedência, poderiam escapar com mais facilidade. De mais a mais, havia ainda os seres outros que habitavam os rios e que poderiam ajuda-los nas ações de alerta. Era um trabalho conjunto, quando se fazia necessário.

Os dias avançavam, com o aglomerado humano trabalhando freneticamente, sem dar mostrar de querer parar ou acabar. Receavam que aquilo pudesse se estabelecer de vez.

Em certo dia ouviu-se um estrondo medonho, parecendo trovoada em meio a tempestade. Mas o céu estava claro e sem chuva. Em seguida veio outro, e mais outro. As explosões prosseguiam, em meio a momentos de silêncio. Seria um aviso?

Não houve quem soubesse interpretar aquele estrondo. Nem os peixes, nem as tartarugas, nem os botos, nem as sucuris, ou qualquer outro bicho que houvesse por ali. Enquanto isso, as redes continuavam sendo estendidas por sobre o rio. O que por si só já trazia grande problema. Aquilo não dava mostras de que pararia por ali, e não parou.

Certo dia, os alertas estavam funcionando e com isso muitos peixes escapavam. Passaram a investir nas margens do rio e nas matas. Queriam caça, queriam grandes animais. A anta, o veado campeiro e o porco do mato se tornaram visados. Estrondos menores, aqui e ali avisavam da presença de caçadores. Já não era mais o silencioso arco e a flecha.

O velho e enorme pirarara, foi o primeiro e ligar tais ocorrências e trazer um pensamento, uma conclusão assustadora.

— Estão explodindo as rochas, as tartarugas e jacarés contam. Já disparam contra os veados, antas e porcos. Logo vão querer fazer o mesmo dentro do rio.

A conclusão era apavorante demais para ser real. A primeira reação foi de descrença. Só não seguiu adiante por ser expressa por um dos gigantes. Se até ele se assustava com aquilo, o melhor a se fazer era tomar cuidado.

O tempo seguiu seu curso. No rio havia a água que passa, não sem antes atender a todos. Só não passavam as apreensões. Mal o dia havia clareado, quando uma canoa apareceu.

Aquele dia foi tão diferente quanto estranho. Não se atirou a rede como de costume. O que se fez e o que se ouviu, foi um som medonho, desconhecido e perturbador. Dentro do rio, uma vibração forte, pesada, destruía os peixes por dentro. Demolia os seus sentidos. Já não sabiam mais o que era em cima, o que era embaixo. Os peixes se perderam, se debateram e se contorceram, até morrer.

A bomba havia chegado.

O som brutal matava peixes, tartarugas, serpentes, botos, matava tudo o que houvesse nas imediações. Depois, em meio a muita matança, com os corpos flutuando sobre o rio, escolhiam o que queriam levar. Para todo o resto, agora era lixo. Para apodrecer e envenenar o canal.

Não fosse a neutralidade do rio que passa, era só isso que existiria dali para frente. O rio passava, pois ainda podia passar.

Para as aves pescadoras e demais animais em terra que se utilizavam do rio para buscar alimento, aquilo era perturbador. Muitos já se preparavam para ir embora. Seria isto ou a fome. Já haviam entendido que onde tais coisas acontecem, elas não desaparecem de repente. Sempre prosseguem, sempre crescem, sempre querem e buscam por mais.

Estavam todos aturdidos e pesarosos com os últimos acontecimentos. Seu modo de vida nas imensidões da floresta parecia ter chegado ao fim. Era partir ou ficar e morrer.

Os velhos conhecedores dos rios se reuniram para confabular. Antigos inimigos mortais estavam ali, lado a lado para entender e buscar o que fazer. Pirararas, pirarucus, mas também sucuris, tartarugas, jacarés e botos. Até o peixe elétrico quis comparecer.

Foi Pirarara velho quem falou primeiro:

Muitos pensam que é para partir, ou ficar e morrer. Eu lhes digo que estamos aqui há muito tempo. Chegamos aqui antes dos homens sequer pensarem em viver na floresta e remar nestes rios. Aqui é a nossa casa. Não somos obrigados a ficar e morrer, se entendermos que podemos ficar e lutar.

As palavras do peixe gigante invadiram as carapaças, as escamas e o couro de todos. Pela primeira vez alguém falava de sua casa e de seu próprio valor, ao invés de querer fugir.

— Vamos ficar e lutar! Gritava um.

— Vamos nos unir e botá-los para correr! Gritava outro.

— Vamos expulsá-los daqui, custe o que custar! Bradava mais um terceiro.

A tartaruga, que até então apenas escutava, se manifestou:

— Entendi, que belos sentimentos estes. Falam de proteção, de luta, de retomar o que é nosso. Só tem um problema. Como nós faremos isto?

Seguiu-se uma surpresa, marcada pelo silêncio. Dava para ouvir o borbulhar das águas que passavam ao longe.

Foi a sucuri que rompeu com aquele silêncio:

— O que você sugere cascuda? Tem alguma ideia interessante que possa nos ajudar?

Ideias, sempre as ideias. Ainda bem que elas existem. Não sou nenhum estrategista, mas de algumas coisas importantes eu sei.

O quelônio aguardou um pouco e então prosseguiu.

— Veja você sucuri. É dotada de grande força e da paciência daqueles que precisam vigiar e emboscar. Já as piraras são capazes de ataques rápidos e ferozes. Os botos são fortes e velozes, nadando e saltando por grandes extensões de rio. Além do sorrateiro e perigoso peixe elétrico. Os jacarés são ágeis e fortes guardiões, podendo levar sua força até a terra.

Parou mais uma vez.

— Pois bem, organizem tudo isso em uma estratégia de defesa e ataque. Façam isso e os homens ficarão confusos. Serão obrigados a rever seus próprios planos.

Foi o peixe elétrico quem completou.

— O que quer que se queira fazer terá que ser rápido. Porcos do mato já contam que chegou um monstro do outro lado do rio. É grande de dar medo. Disseram que está parado. O que poderá acontecer quando puder se movimentar?

— Também já soube dessa história. É o perigo novo, o monstro de ferro. É por causa dele que estão explodindo as rochas lá do outro lado, e colocando trilhos no chão. Dizia o boto.

— Pois bem, quem irá preparar a resistência e planejar tudo. Com quem poderemos contar para dar cobertura nos ares? Indagava a tartaruga.

— Eu mesmo chamarei as corujas, os gaviões, os falcões e os pássaros menores. Também vou chamar as onças na beira do rio. Acrescentou o boto.

Assim, caraparis, piratiningas e pirararas, além da velha tartaruga se reuniram para traçar uma estratégia eficiente que detivesse o avanço dos homens.

A guerra do meio do mato, e dos rios, estava prestes a começar.

Na vila novos equipamentos e mais gente continuavam chegando. Rasgavam as rochas com dinamite para dar passagem ao trem de ferro, o motivo daquele reboliço todo. Fazer passar o trem de ferro levando toda sorte de quinquilharias que os homens pudessem recolher das terras no alto curso. Principalmente aquela que mais procuravam, o látex de borracha.

Intrigados com a sanha dos homens, buscaram saber o motivo de tanto interesse naquela seiva esbranquiçada, meio gosmenta que escorria de certas árvores. Um grupo de macacos guariba, aqueles vermelhos, foi enviado para investigar aquela seiva que tanto buscavam nas matas.

Dias depois retornaram com as respostas.

— Os homens encontram aquelas árvores que mais escorrem a seiva branca. Só servem aquelas que escorrem muito. Assim, acabam fazendo cortes sempre no mesmo tipo de árvore. Aquecem aquilo até fazer umas pelotas grandes.

Outro guariba prosseguiu.

— Depois que fazem os cortes, têm que voltar para recolher a seiva que caiu dentro das cuias. Peguei uma cuia e cheirei aquele negócio. Não tem cheiro muito forte, mas se ficar muito tempo na cuia, fica podre e começa a ficar fedorento. Se deixar secar em cima do pelo ela gruda.

Outro continuou.

— Peguei naquele líquido. Depois que escorre, ele vai ficando elástico. Coloquei na boca e mastiguei um pouco daquilo. Não presta para comer. Cuspi tudo depois. Fiquei com medo daquilo grudar por dentro do estômago.

Mais um guariba vermelho comentou o seu experimento.

— Juntei um bocado daquele troço e quando secava, colocava sempre mais um pouco. Consegui fazer uma bola, que quando arremessada, ela fica pulando!

O guariba, considerou o seu brinquedo, uma descoberta fantástica. Todo sorridente e aos gritos, apresentava os resultados.

Ninguém entendeu nada.

Foi o jacaré-açu que entrou na conversa.

— Afinal macacada, esse negócio serve para quê? Por que os homens querem tanto isso, a ponto de explodirem a terra e os rios? O que mais vocês descobriram?

— Para que recolhem tanta seiva? Bem, pensamos muito nisso e chegamos a uma conclusão.

Todos os presentes arregalaram os olhos, esperando a resposta.

— Estudamos muito a questão e concluímos que não sabemos. Não fazemos a menor ideia.

Um bicho-preguiça revoltado, esqueceu momentaneamente sua condição de preguiçoso.

— Me deixe ver essa bola guariba.

O macaco jogou a bola para o bicho-preguiça. Que rapidamente arremessou de volta.

— Seus fracassados! Seus inúteis! Vocês foram até lá para quê então? Para brincar de fazer bolinhas?

Gritava o bicho-preguiça, enquanto atirava a bola que saltitava por sobre os guaribas. Foi mais uma vez a tartaruga que colocou as coisas em ordem.

— Tá bom, já chega! Já chega de confusão! Parem com isso. Já sabemos o que estão fazendo e isso basta. Agora temos que montar o nosso plano de enfrentamento dos canoeiros. São eles que estão trazendo aquelas pelotas grandes.

— Não é só isso. — Dizia o jacaré-açu.

— Já identificamos três ações diferentes. Os canoeiros que trazem as pelotas; os canoeiros que atiram bombas e os caçadores que adentram a mata para obter carne.

— Você tem razão. Ações no rio e em terra. Teremos que fazer planos diferentes. Pois vamos tratar de fazê-los. — Era a vez da tartaruga conduzir as coisas. E prosseguiu.

— Sucuri, você fará a guarda na beira do rio. Ao ser avisada da presença dos canoeiros, você os enlaça e vira as canoas.

A sucuri dirigiu à tartaruga seu olhar de poucos amigos.

— Eu cuido do meu próprio plano. Guarde o seu para você, e não torne a me dizer o que fazer.

— Está bem, está bem. Mas, pode nos dizer o que pretende fazer?

A sucuri enrolou-se toda e pensou por alguns instantes.

— Vou me agarrar em algum tronco no fundo, na beira do rio. Quando a canoa passar, eu enfio o meu laço e viro a canoa.

— Grande plano sucuri. Ainda bem que contamos com você do nosso lado. — Era mais um guariba, abusando daquela trégua momentânea e do seu direito de estar vivo.

De volta a razão, prosseguiram na organização de um plano eficiente. A guerra do meio do mato estava prestes a começar, e com ela, a sorte dos animais da floresta estaria lançada.

Foi observado que as canoas circulavam sempre próximas à margem do rio quando traziam as pelotas. Já os pescadores atiravam suas bombas no Jatuarana e do outro lado do Madeira. Já a caça ocorria ao redor da vila, se afastando cada vez mais.

Assim, quando os pescadores com suas bombas aparecessem, todos seriam avisados pelos jacarés que faziam a vigilância. Dessa forma teriam tempo para se afastar dali, se deslocando para longe das ondas de choque. Os guaribas ficariam encarregados de gritar ante a chegada de caçadores.

Por vez, o alerta antecipado seria feito pelo silêncio das aves. Dessa forma, não disporiam mais de animais para caçar. Os botos tratariam de avisar as sucuris e aos demais, quando da chegada das canoas com as pelotas.

Os homens se veriam sem peixes, sem caça e sem pelotas. Xeque-mate no monstro de ferro. Teriam que abandonar tudo. O plano era perfeito. Não teriam escapatória.

Contudo, os homens são astutos e atentos a tudo o que se passa. Acostumados a dominar, não iriam se deixar enganar tão facilmente assim. Dominaram os campos; as vastas pastagens; as florestas abertas; os desertos; as montanhas e até os campos de neve. Dessa vez queriam as matas, as grandes florestas densas, repletas de bichos e cheias de látex de borracha. Se não fosse o látex, seria outra coisa.

As matas ao redor da vila e do outro lado do Madeira se tornaram silenciosas e vazias. Apenas alguns guaribas desavisados, acabavam recebendo chumbo dos caçadores. Os grandes mamíferos haviam desaparecido.

Logo perceberam que os guaribas avisavam os demais. Pois bem, passaram a caçar os indefesos e solitários guaribas. A primeira linha de alerta estava por um fio. Faltava os pássaros. Estes denunciavam a presença de caçadores com o seu silêncio.

Trataram de se camuflar em meio a folhagem. Também sabiam fazer silêncio. Então, aguardavam o tempo que fosse preciso para que os porcos-do-mato, antas e veados retornassem. Logo os animais começaram a ser emboscados mais uma vez. Desse mesmo modo, emboscaram e mataram as onças.

Nos rios o cenário se mostrou exigente. Os embates mais encarniçados e perigosos para ambos os lados.

Nas extremidades do rio, as sucuris viravam as canoas fossem de pescadores fossem de transportadores de pelotas. Dentro as águas, eram puxados para o fundo. Logo o tráfego se transferiu para o meio do rio.

Os pescadores ao se aproximarem munidos de bombas, tinham suas canoas abalroadas pelos botos que as viravam com frequência. Quando os botos não estavam presentes, pescadores desavisados eram abocanhados por piraras e piratiningas enormes, que saltavam e depois mergulhavam, conduzindo uma das mãos, ou um braço. Quando não, até mesmo uma cabeça. Pior era se ver cercado por jacarés furiosos.

Assustados, os pescadores adotaram a detonação antecipada. Ao primeiro sinal de perigo, de torvelinho das águas, lançavam suas bombas. Sem tempo para poderem escapar, os botos da primeira linha de alerta começaram a morrer. Os jacarés entenderam logo o perigo e trataram de se afastar.

Após as primeiras mortes, estava claro para as piraras e piratiningas que o perigo havia dobrado. Logo os pescadores receberam ordens de avançar rio acima, subindo por terra. Vários quilômetros acima, devolviam as canoas ao rio e desciam lançando suas temidas bombas.

Do ar, gaviões e falcões atacavam os canoeiros ferozmente. Após as primeiras vitórias, quase interromperam a descida de canoas e o trabalho dos pescadores, no esforço combinado com os demais animais. Entretanto, passaram a oferecer espingardas aos canoeiros. Cada comboio trazendo pelotas passou a ter uma espingarda e dois ou mais arcos e flechas. Pescadores passaram a conduzir arcos e flechas. Gaviões e falcões, sempre em menor número, começaram a ser fuzilados e expulsos dos céus. Se viram obrigados a abandonar o intenso da refrega, sob risco de serem rapidamente exterminados.

Corujas rasga-mortalha, aguardavam os últimos raios de sol e se precipitavam por sobre as canoas, em movimentos de cruz, com seu piado tão original quanto funesto. Assustavam os homens e estes, apavorados, detinham suas embarcações.

Atirar em uma rasga-mortalha estava fora de questão. Atrairia os fantasmas da floresta com certeza.  Preferiam aguardar a manhã seguinte para prosseguir viagem. Mas isto era tudo. Só fazia sentido como parte integrante do plano.

Só para não se dizer que o plano de guerra era falho. O felizardo que primeiro aparecesse procurando subir na sua canoa, na frente dos demais, para retomar a viagem, poderia ser surpreendido pelo poraquê, ou enguia-elétrica. Este já não voltava mais para a vila.

O problema se tornou tão sério que passaram a montar guarda junto às canoas para se antecipar ao perigo. Bastou matar os primeiros peixes, e logo o lugar acabou se tornando hostil para os poraquês também.

No Jutuarana, os peixes estavam sendo perseguidos rio acima, até quase desaparecerem por completo. Peixes menores se escondiam por entre igarapés e folhagens na esperança de escaparem do cerco, ainda vivos.

Então era verdade. Estavam perdendo a batalha dos rios.

Em conversa com o jacaré-açu, a tartaruga comentava:

— Entramos em guerra para não sermos obrigados a abandonar nossa terra e nossos rios. Olhe ao redor. Os animais da terra estão sendo mortos e foram obrigados a fugir em definitivo, com os homens no seu encalço. Perdemos a batalha em terra. Olhe para os rios e todo o resto. Estão ficando despovoados. Botos; peixes; onças; jacarés; sucuris; veados; porcos e pássaros. Caçam de tudo, comem de tudo. Nós perdemos a guerra do mato. Avise a todos, vamos sair daqui de uma vez.

Desolados, esgotados e derrotados os últimos animais deixaram aquelas imediações do Madeira e do Jatuarana. Partiam em silêncio. O espírito guerreiro das semanas anteriores havia se perdido. Os homens continuavam a chegar. Eram os habitantes da floresta que teriam de partir, e para longe, pois não iriam se deter. A guerra acabara.

Desconhece-se completamente a existência de algum registro relativo às batalhas da guerra do mato. Os ataques dos animais da floresta. Os pescadores atirados no rio e mutilados, quando não mortos. Os choques elétricos ou as canoas abalroadas pelos botos, ou ainda postas a pique pelas sucuris.

Tudo ingressou no folclore. No domínio das lendas, que absorveram também o piado sinistro da rasga-mortalha, a vigília dos jacarés e o alerta dos guaribas. Tudo virou conversa de cabocos na beira da fogueira nas noites do lugar.

Sem história, sem registro e sem vida, o trem de ferro prosseguiu sem ninguém para impedi-lo.

Na vila, entrementes, surgiu mais um reboliço. Depois de tantos esforços para abrir a estrada e plantar os trilhos, os homens estavam adoecendo. A malária estava infestando a vila, que de tão insalubre começou a ser abandonada. As cruzes feitas às pressas com pedaços de paus, contavam a história lúgubre e miserável do lugar que recebera nome de santo.

Depois de combates encarniçados nos rios e nas matas, os invasores estavam sendo derrotados por um pequeno mosquito. Um anônimo inseto, que sequer lembraram de chamar. Anônimo até ali. Anófeles era o nome dele. Dele não, dela. Era uma fêmea que inoculava o Plasmodium no sangue daquela gente. Aqueles pobres coitados, que agora se apresentavam mais perdidos e mais esquecidos que os próprios animais.

Ninguém contou aos bichos se foi exatamente por isso. Mas o fato é que logo a seguir, abandonaram todo o material. O trem de ferro, o monstro que um dia aterrorizou a floresta, pelo simples fato de existir, ficou esquecido no meio do mato. Que, aos poucos tomou conta de tudo.

Contam os mais antigos que os guaribas, curiosos que são, foram até o monstro. Era só para ter certeza se ainda estava vivo e avisar os demais se havia perigo ou não.

Passaram por debaixo do monstro olhando suas muitas patas em forma de rodas. Tudo muito duro, até para os dentes. Pensa que não? Deram umas mordidas no ferro, só para saber. Se malandro é o gato, guariba é um investigador nato.

Entraram na sala do maquinista. Viram aquele monte de coisas. Tudo duro, tudo parado e sem gosto. Subiram até a janela, de onde não dava para ver nada que se pudesse chamar de interessante. Não naquele entorno desolado, de terra revolta e planada, coberta de mato.

Prosseguiram para o vagão de carga. Alguém devia ter saído com pressa e esqueceu algumas pelotas no canto do vagão. Devia estar lá a um bom tempo, pois nem fedia mais. Depois de verificar tudo retornaram para oferecer aos demais o resultado da missão.

Os outros animais se acercaram dos guaribas de olhos arregalados, ávidos por notícias sobre o temível monstro de ferro.

— E então, o que foi que vocês encontraram contem tudo, contem tudo. Não deixem passar nada. — Era a tartaruga buscando saber se ainda havia risco ao retorno dos animais. Estavam todos desejosos de voltar para casa.

— Pois bem, serei breve, porém claro e objetivo nesta exposição.

Olhou ao redor, sem dizer o que procurava.

— Continue guariba, continue logo!

— Está bem então. Adentramos as entranhas do monstro com destemor e coragem. Somos guaribas vermelhos e não macaquinhos quaisquer. Verificamos tudo. Tudo o que vocês possam imaginar. Senhores, lá não havia nada. Nada de nada.

O bicho-preguiça, carregando um pau de maçaranduba de quase um metro, aproximou-se. Olhou aquele macaco vermelho bem de perto, e finalmente, levantou os braços e gritou.

— Vamos para casa! Vamos para casa! Vamos para casa!

Corria o ano de 1879.

                                            Fim

 

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