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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

A ilha

                                                  

                                                                                                                           Foto: Gorjeta Kevin em Public Domain

Por: Antonio Mata

Paciente e conciliador, sabia das dificuldades de todos e de suas mínimas possibilidades. Então, aconselhava e acalentava, principalmente os mais moços, com as visões simples e profundas de um mundo melhor.

Construía em suas mentes saturadas, deprimidas e exaustas, as imagens campestres, das terras tomadas pela relva úmida das manhãs. As flores simples que coloriam o campo em profusão, sob a moldura do azul profundo, que sempre esteve sob suas cabeças. Era sua esperança, seu amor e sua fé.

Escravos rebelados, apenados de dívida, ladrões, opositores por opinião, traficantes, golpistas e degredados por sua fé. A mina de sal, de ferro, de estanho, a pedreira e o remo das galés. O destino de quem não podia mais ficar em contato com os demais. Aos escravos comuns, os trabalhos comuns, nos campos, nas florestas e os ofícios das cidades.

Na ilha, impunha-se a lei do silêncio, contudo aquele homem, sempre que possível, confortava os desvalidos, ainda que ao seu redor, os cativos só enxergassem a miséria indigente e o trabalho interminável onde se encontravam. Assim, adentravam penosamente o lugar. A pedreira era o último cenário, onde se entrava para nunca mais sair.

Comida que poderia ser oferecida aos porcos. Ainda pouca, a ponto de comerem insetos. Trabalho exaustivo, doenças intestinais, frio e o chicote do feitor. Tudo se apresentava para subtraí-los daquele inferno, através da morte. A única porta que se abria. Tudo era sinônimo de uma estadia angustiante e curta.

A ilha pertencia ao imperador. Integrava seus domínios. Seu único papel era fornecer blocos de rocha. Granito para as construções das cidades.

O velho havia sido banido por ter sido considerado perigoso e sedicioso. Valia-se de sua eloquência para enganar os homens. Assim diziam, assim fora condenado.

Por conta de seu papel conciliador, o que ajudava a controlar os escravos, não implicavam com o velho. Era apenas mais um detento. Velho demais para manejar uma picareta, punção ou uma talhadeira.

Por sua retidão moral, angariou o respeito das autoridades locais, que apenas não queriam maiores manifestações, pois teriam que matá-lo. Já bastava ser considerado o portador de ideias que poderiam insuflar o povo contra o imperador.

Ideias apoiadas nas palavras de um carpinteiro, que deveriam ser silenciadas. Este então, foi o erro criminoso do velho alquebrado, enfiado no canto da gruta.

Mortal, deprimente e desprovida de beleza. Isolada e distante de outras terras. A ilha-pedreira-prisão, sem nada ao horizonte, a não ser o mar, foi pensada assim.

 A ilha era o lugar derradeiro de indesejáveis, de modo a fazer jus ao se nome. Pedregulho rochoso, cheio de cavernas e grutas que nada tinha para mostrar.

Permitiu-se que se acomodasse junto a uma gruta. Ali, recebeu a benesse de poder escrever. Assim passava seus dias, absorto em seus próprios pensamentos. Os escravos esperavam pela morte, que não se demorava. O velho, misturando momentos de aflição e serenidade, aguardava a vida eterna.

Há tempos que já não via mais ninguém. Antigos companheiros de jornada dos tempos difíceis, porém gloriosos de pregação da Verdade e do fim da maldade, estavam mortos, como seu irmão. Maria, também já havia partido há muitos anos.

Já não ouvia mais as falas de seu Mestre, que acalentava suas melhores esperanças, desde a juventude. De tudo somente ficou a solidão na ilha mortal. Sem compreensão, sem forças, sem liberdade. A selvageria cruel da pedreira, devoradora de homens. A crueza e insanidade de um império, pareciam se elevar triunfantes e imbatíveis.

Contudo, as lições simples e gloriosas que aprendera na juventude, ainda as compartilhava, discretamente, mas cheias de vida e esperança, aos degredados da ilha prisão.

Afinal, todos iriam morrer ali, de qualquer jeito. Por que se importar com o aquele velho?

Assim, mesmo com restrições e a idade avançada, nunca parou de pregar, nem se isolou dos indigentes trazidos e esquecidos para morrer em Patmos.

Saudades e lembranças de outros tempos, de vigor e juventude, quando partia, sem temor, para missões quase suicidas. Sempre perseguido por ser interpretado como um agitador. Por falar de coisas que afrontavam o império.

Por sorte, ou mais propriamente, pela vontade de seu Mestre, acabou apenas preso. Pouco importando, pois que àquela altura, vivia mais do outro lado da vida, do que entre os homens deste mundo. Era seu alento, seu repouso e sua fé.

Acostumou-se a este alento. Apreciava acordar na quietude da noite, com as impressões das lutas da juventude. Como se nunca tivessem passado. As prisões e sucessivas torturas daqueles idos, não foram suficientes para destruí-lo.

Bastava a noite estrelada e silenciosa chegar para deitar-se. Esperar então a fuga radiante, para onde nem soldados, nem feitores, nem mesmo o imperador poderiam chegar.

O velho que convertera os centuriões da ilha,  assim como os seus substitutos,  ao acreditarem que os comamdantes da guarda estavam amolecendo. Não era isso. É que foram convertidos por João ao evangelho do Divino carpinteiro. Não eram homens acovardados, mas soldados que descobriam a verdadeira coragem.

Nem o menor sentimento de medo ou frustração. Apenas o som das ondas do mar ao longe.

Recolheu-se sem nada a perturbá-lo. O semblante tranquilo de quem confia na noite, na viagem e no guia. Adormeceu entre estrelas, terras, mares e homens.

— João, vem comigo...

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