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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

A mangueira

Por: Antonio Mata. 

Como pudesse apreciar em 360 graus, por entre telhados, postes, ruas e vielas, sentia e vivia do muito que se passava em um raio de pelo menos mil metros.
 
Isto, já que a cidade não é nenhuma floresta. Fragmentadas por entre quintais, algumas ruas e terrenos muito íngremes sem maior serventia, lá estavam elas. 
 
Goiabeiras, jambeiros, mangueiras, tamarindeiros, para citar algumas. Viviam seu isolamento temporário, enquanto aqueles outros lá embaixo, aqueles que podiam caminhar, decidiam um tanto quanto atabalhoadamente, o que fazer de suas vidas.
Se reuniam no vale pequeno e estreito que havia sido poupado, por se entender não ter serventia. Nada mal, sua faixa verde ficou dentro da visada e no raio de percepção daquela mangueira de quintal. Assim, aumentava a companhia e já não fica mais sozinha. Não dava nem 300 metros até o vale estreito.
 
Depois de muito pensar, a mangueira chegou então, às suas próprias conclusões.
 
— É isso mesmo, mangueira vai ser planta nativa.
 
— Não vai não. Mangueira não é daqui e é árvore de quintal. Você nunca estudou história? — A goiabeira expunha, muito confiante, o seu ponto de vista.
 
— Não é disso que estou falando. Quintal é lugar de passagem.
 
— Pois é, até que alguém resolva lhe cortar, porque teve de fazer uma puxada para o filho que se casou.
 
— Não se preocupe, não somos únicas. Como explicar os quintais abandonados? O filho do dono da casa ainda não se casou?
 
— É acho que o filho resolveu ir embora. Você não está entendendo nada. Está presa em um quintal e nem percebe.
 
— Não estou presa.
 
— Está sim, você não pode sair daí.
 
— Pare com isso e trate de olhar ao redor que você entende.
Estendeu o olhar, podendo assim divisar diversas outras árvores ao redor, nas proximidades e mais além. Até aonde a vista alcançava. Cada uma mais frondosa do que a outra. As copas podiam ser avistadas com facilidade por entre os telhados.
Sem nenhuma dúvida, poderiam existir milhares delas.
 
— Entendeu agora? Tanto quem vive nos vales como quem vive nos quintais ou nas ruas. Estamos sempre em contato. O isolamento é apenas aparente. Existe sim, só que nem todos o compreendem ou pensam a respeito. — Então prosseguiu.
 
— Aqui se faz aquilo que nos foi proposto fazer e no qual somos grandes e antigas mestras. A arte de esperar. Observar, crescer, sentir e registrar. Enquanto tudo isso acontece, a gente espera.
 
A goiabeira se perdeu.
 
— Eu hein, não entendi mais nada.
 
— Ora, isto é simples de entender. Sequer se davam conta da nossa existência, das nossas vidas. O que importava era o uso dos nossos corpos. Lenho de boa qualidade, sem imperfeições. Para as moradias, fortalezas, pontes e embarcações. A parte ruim seguia para o fogo. Isso era tudo, destino manifesto por milênios. 
 
Parou por um instante.
 
— Até que um dia se descobriu a condição de um ser vivo. Um vegetal avançado. Um vegetal superior, diriam. Descobriram que nos movimentamos por multiplicação. Ainda vão entender que a árvore que morre aqui, renasce mais adiante e mais superior ainda. Não se trata apenas de outra árvore, mas daquela anterior que voltou. Tudo é vida, tudo é evolução na vida.
Entusiasmada a mangueira prosseguia.
 
— Não se pode esquecer que também existem os pássaros. Sempre dispostos a oferecer uma carona. Estamos esperando. É só mais um pouco. Nossa casa agora é aqui, por entre as florestas do lugar. O tempo vai passar, a cidade vai passar. Quanto às mangueiras, serão plantas nativas, tanto quanto as outras que já estavam por aqui. Vamos nos juntar mais uma vez.
 
— É demais para mim. Você está delirando.
 
— Não se preocupe. Apenas espere e verá.

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