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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

A mochila

Por: Antonio Mata.

Fazia menção de chover. Foi assim pela madrugada, até o amanhecer. A despeito do céu ainda cinzento, era hora de sair e retomar as atividades do dia. Segunda-feira, aquela mesma do início da semana. 

Rua cheia de gente com cara de quem tinha acabado de sair da cama. Pouco se falava. As circunstâncias pareciam reforçar o cinzento do início do dia. Guarda-chuvas, capas e capuzes já aguardavam o aguaceiro anunciado. Sozinho, aquele pingo caiu só para lembrar. 

Visto que o movimento diminuía, com as pessoas tomando seu rumo, detalhes outros começaram a surgir. Seria tudo muito igual e comum, não fosse por alguém que, parecia não despertar maior atenção. Mas, estava lá.

Meio que diluído pela rua, um homem de cabelos grisalhos passava carregando uma mochila preta, dessas comuns. Não haveria nada a se notar, em se tratando de pessoas comuns na rua. Porém, de tanto repetir, deixou passar duas coisas. 

A mochila, ao invés de colocá-la nas costas ou no ombro, andava com ela debaixo do braço. Ficava com aquela mochila para cima e para baixo. Além disso, subia a rua e meia hora depois estava de volta. Sempre com a mochila debaixo do braço. 

Naqueles dias de chuva, bastava sentir a primeira gota, tratava de abrir seu guarda-chuva, prosseguindo seu caminho. Várias pessoas e no meio deles, um homem de cabelos grisalhos. Com um guarda-chuva em uma das mãos e uma mochila preta debaixo do outro braço. 

Aquela cena, do homem subindo e depois descendo a rua, sempre com a mochila do mesmo jeito, se repetiria por vários dias. Assim a semana se passou.

Até que um fato novo se deu. Uma mulher que trabalhava em uma loja ali, próximo a uma esquina, prestou atenção naquele homem. Sempre a mesma pessoa e com aquela forma pouco usual de carregar suas coisas. A segunda semana também terminou. 

Logo notou outra curiosidade. As alças da mochila ficavam sempre dependuradas. Não colocava nas costas, por quê? Começou a ficar intrigada com aquele comportamento. Então, decidiu saber do que se tratava. 

No dia seguinte, aguardou por sua passagem. Quando pôde avistá-lo, se adiantou se pondo à sua frente. Ainda assim, o homem, de traços asiáticos e de cabeça baixa, simplesmente desviou e prosseguiu em seu caminho.

A despeito da atitude inesperada, não se deixou abater. Ela se adiantou novamente. Alcançou o homem, andando ao seu lado. Prestava atenção e aguardava para ver sua reação. Como a ignorasse, resolveu lhe perguntar.

— Senhor, senhor, está tudo bem? Eu o vejo passar por aqui, sempre pela manhã, carregando suas coisas e depois voltando. Teria perdido alguma coisa, estaria procurando?

O homem apressou-se sem lhe dar atenção. Então, enquanto ele se afastava, ela gritou.

— Essa sua mochila, pelo menos coloque nas costas!

Ao ouvir isto, o homem estancou, sem se virar e sem nada dizer. 

Foi a oportunidade para alcançá-lo mais uma vez. 

— Está tudo bem, posso ajudar? Não estaria precisando de um médico, ou talvez descansar? — Manteve-se em silêncio. Mas, olhava para o lado, parecia pensar. Como quem deseja lembrar algo. Finalmente falou. 

— Estou procurando alguém. 

— Sabe o nome da pessoa? Onde mora, isso ajuda, sabe?

— Não sei, procuro encontrar o dono dessa mochila. Como não sabia de quem era..., mas encontrei nesta rua. Então fiquei andando por aqui. 

Ela achou singular, muito embora entendesse que havia se decidido por uma missão complicada. Se fosse um documento, bastaria entregar nos correios. Mas, era uma mochila. Teria coisas de valor, seria por isso?

Pela primeira vez prestou atenção na mochila. 

— Poderia me dizer uma coisa? Por acaso a mochila tem um pequeno desenho, feito à caneta? É uma baleia e um leão. Faço estes rabiscos desde criança. 

De senho franzido, olhava desconfiado para a mulher na sua frente. E se fosse verdade? Se estivesse apenas querendo pegar algo que não lhe pertencesse? Então, virou a mochila e lá estava os dois bichos desenhados. Olhou para ela, agora surpreso.

— Então é sua?

— É, sim, eu perdi semanas atrás. Como só tinha roupa suja, não liguei para o ocorrido.

— Sim, abri procurando algum documento ou algo que pudesse identificar o dono. Mas, só tinha roupa suja. Pois bem, então, sendo assim, pegue de volta. 

Entregou a mochila à sua dona. Virou de costas e foi embora. A mulher, vendo aquilo, ainda procurou agradecer, enquanto o homem se afastava. 

— Obrigada, muito obrigada!

Sem nem ao menos gesticular, ele prosseguiu se afastando. Da mesma forma como esteve diante dela. Sem nenhuma emoção, nenhum traço de satisfação ou mesmo um sorriso, ou um trejeito no canto da boca. 

Foi embora dobrando a esquina, sem um aceno e sem nada dizer. Fez aquilo tudo por mais de duas semanas, só para devolver uma mochila cheia de roupa suja. 

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