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A Pirâmide

                                                                      

                                                                                                                                             Foto: Shahid Abdullah por Pixabay

Por: Antonio Mata

No térreo, ao som da música ao vivo, a festa oferecida aos “chegados”, prosseguia animada. Reuniram o seu elenco de seguidores, que compareceram para usufruir da empreitada, que a pelo menos dez meses acumulava o absoluto sucesso na comercialização de artigos de tecnologia de ponta.

A extensa área de lazer reunia, pelo menos duzentas pessoas. Um pelotão de garçons e demais serviçais atendiam os convivas para que nada lhes faltassem. Muita gente bonita, na realidade modelos de ambos os sexos, contratados às dezenas para  assegurar a presença de caras novas e jovens.

Um punhado de coroas, cerca de uma dúzia, circulava por entre os convidados com ar de gente importante. Também eram convidados, e na expectativa de capturar aqueles ou aquelas, que quisessem se oferecer com mais facilidade.

O dinheiro comprava as consciências de homens e mulheres, para os negócios; para o lazer; para mentir e corromper. Entre outras coisas, para obter também, o fator tempo, de importância primordial. Também comprava as orgias e o sexo indiscriminado. Viagens e os melhores hotéis, faziam parte do plano.

Ofereciam aquilo que as pessoas queriam. Uma grande quantidade de smartphones; consoles para games de última geração; smart tvs; computadores; e toda sorte de periféricos que faziam a alegria, e enchiam os lares de seus milhares de consumidores.

Os produtos eram por demais procurados. Uma política agressiva de descontos apoiada em crédito facilitado, minava a resistência do mais seguro dos consumidores. Ninguém queria ficar para trás, e posar de “desavisado”, perdendo as ótimas oportunidades apresentadas.

Ofereciam produtos de qualidade por preços que espantavam qualquer concorrente. As vendas a partir de um site na Internet, exigira inicialmente, a disponibilidade de capital para a aquisição e estocagem de mercadorias, de modo a atender as exigências das autoridades, e fazer as entregas iniciais em prazo hábil. Era negócio para quem já tinha muito dinheiro.

A empreitada consistia na comercialização de produtos, somente de marcas famosas junto ao público, oferecendo a sonhada imersão no universo digital.

Aparelhos diversos oferecidos sob a forma de combo, com descontos especiais, faziam grande sucesso, o que aumentava as vendas. Instruções precisas, no estilo “plug and play”, eram repassadas em manuais disponíveis na rede pela própria loja virtual, além de gravações em vídeo, mostrando como instalar e auferir o máximo proveito do seu aparelho e de seu combo tecnológico.

A disponibilidade de crédito rápido, completava o cenário de facilidades, além de um “call center”, acessível por telefone ou pela Internet, para tirar todas as dúvidas, atender novos pedidos, e receber eventuais reclamações. Tudo parecia funcionar com a precisão de um relógio suíço. Comerciais veiculados nas mídias sociais, salientavam o grande movimento de vendas, e o sucesso alcançado pela empresa, atendendo milhares de clientes espalhados por todo país.

Há um aspecto digno de monta. A empresa, e é claro, todas as campanhas promocionais, as pontas de lança do processo, surgiram em um momento em que o mundo enfrentava dificuldades econômicas e de saúde pública, por conta de uma pandemia que já havia ceifado milhões de vidas pelo mundo.

Já se caminhava para dois anos de isolamentos sucessivos, com discussões e acusações mútuas entre autoridades por todo o planeta, já que ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo.

Porém, a despeito do cenário negativo mundial, o país adentrou um momento de crescimento econômico, com a retomada do emprego, gerando milhões de postos de trabalho.

Por vez, os produtos oferecidos, favoreciam o uso doméstico, disponibilizando comunicação em todos os níveis. Desde a mera diversão e lazer, até o estudo, encontros virtuais e a operacionalização de toda sorte de pequenos negócios, que estavam surgindo na Web, contribuindo para a recuperação econômica do país.

O “home office” crescia, sustentando ou gerando emprego e valor. A informação, por vez, se tornara distribuída e descentralizada. Enquanto isso, a empresa atuando no mundo virtual, se agigantava cada vez mais.

Tudo isso delineou um cenário de excelência na Web, que enganaria milhares de pessoas por todo país. Era a cópia mal feita do mundo físico, com todas as suas doenças e perturbações; o materialismo; a falta de moral; o deboche e o cinismo disfarçado entre brincadeiras e  sorrisos.

O lobo estava ali de modo sutil, e silenciosamente enfiado debaixo da pele do cordeiro. Estava mascarado, escondido dentro de fenômenos, que não foram criados por ele, mas que foram utilizados para esconder suas reais intenções. Foi isto o que aconteceu ao longo dos dez meses da breve existência do negócio.

Muitos consumidores começaram a recorrer aos sites de reclamações, por conta dos atrasos nas entregas de mercadorias.  Ante as reclamações, era importante o trabalho do serviço de atendimento ao cliente, instruído para oferecer o máximo de argumentos embasados, porém em situações verdadeiras.

A morosidade das operações na Internet, por conta do público adicional e repentino. As dificuldades no manuseio e execução da remessa, tendo em vista as restrições da pandemia, modificou a disposição física das equipes para o trabalho, além de turnos adicionais. As sabidas agruras, por parte das transportadoras em dar conta do grande volume de encomendas, e dentro do mesmo cenário pandêmico, de restrições para a execução das entregas.

O número significativo de funcionários indisponíveis para o trabalho, por conta de doenças, em um momento crítico de grande movimento econômico. Tudo isso era verdade, e foi amplamente utilizado para conquistar a simpatia dos clientes para a causa comum, que era fazer tudo funcionar. Possuíam um álibi e tanto.      

Ao longo do quarto mês, tudo se deu dentro do planejamento que estava sendo conduzido. Os atrasos na entrega das mercadorias se fizeram salientes, e em grande quantidade, mas o rol de justificativas era bastante convincente. As entregas eram executadas com atraso, mas tão logo realizadas, os clientes se mostravam satisfeitos.

Foi no transcurso do décimo mês que a grande pirâmide ficou evidenciada. Analisando demonstrativos de fluxos de mercadorias e créditos recebidos, aliados ao aumento contínuo do número de reclamações, com clientes se mostrando lesados com os atrasos, que só aumentavam, mês a mês, que as autoridades perceberam a existência de um esquema fraudulento, uma pirâmide comercial.

Com as autorizações judiciais de busca e apreensão em mãos, autoridades federais deflagraram uma operação policial, com a prisão provisória de pessoas envolvidas e a busca por documentos. Os cabeças de todo o esquema, avisados, haviam se evadido e deixado o país, dois dias antes da operação, tomando rumo ignorado.

Na mansão, onde ocorrera uma grande comemoração, só encontraram, uma empregada doméstica que dormia no local, e um jardineiro,  que chegara bem cedo para o trabalho. O local fora alugado valendo-se de nomes e documentos falsos.

Dois homens e duas mulheres, deixaram o país em aviões diferentes e fretados. Um casal rumou para o Peru, e o outro seguiu para a Colômbia. Cada casal conduzindo na bagagem, de forma dissimulada, milhões em cédulas de euro e dólares. A maior parte do butim, havia sido depositada gradativamente, em paraísos fiscais.

As autoridades do país, estimaram que os golpistas teriam acumulado pelo menos, algo entre 150 e 200 milhões de reais. O caso teve uma certa repercussão na mídia, por conta dos valores envolvidos, e pelas milhares de vítimas que provocou.

Cada casal, após tomarem rumo diferente e, conforme planejado, perderam contato um com o outro. Após assumirem diversos destinos, um dos casais chegava na Itália, depois Grécia, como turistas, até se encontrarem sobrevoando os céus da Turquia, a caminho de Dalaman, no sul daquele país.

As mentes dominadas por aquilo que sempre buscaram, dinheiro, viagens, nada para fazer, esnobes às custas daqueles que enganaram. O mundo estremecia, queimava; cuspia rocha derretida; transbordava em chuvas torrenciais; soprava redemoinhos destruidores; empurrava ondas avassaladoras.

Estava nas telas de todo o globo. Não nos olhos dos escroques e vigaristas de todos os lugares, figuras sombrias de todos os tempos. Seres submetidos por demais, à parelha mental que elegeram para suas vidas.

O mundo convulsionava e muito, como se atendendo a um planejamento medonho, diriam os homens. Mais exatamente, atendia a leis tão naturais quanto a própria vida. Os golpistas apenas não enxergavam. Por simples franqueza, certamente não eram, e nunca foram, os únicos a não ter olhos de ver.

Após o pernoite em Dalaman, ganharam a estrada em um carro alugado, rumo à cidade turística de Marmaris. As terras antigas da Turquia, que em outros tempos indicava as terras dos Hatitas, sendo esta a primeira civilização da Anatólia. Sucedeu-se a Frígia e a Lídia, sendo estes últimos, um povo que assumiu o controle das costas do mar Egeu, entre 700 e 600 a.C. A região viria a ser ocupada pelos persas em 546 a.C. A república da Turquia somente surgiria em 1923, com a derrota do Império Otomano, ao fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918.

A apenas 95km de Dalaman, se hospedariam em Marmaris, que se tornaria a base para futuras turnês pela região. Queriam conhecer as ruínas de Hierápolis, uma antiga cidade romana, próxima a Pamukkale.

Em Ephesus, pretendiam adentrar a casa da Virgem Maria, uma pequena habitação construída com blocos maciços de rocha, para onde foi levada no ano 37d.C., já idosa por João Evangelista. Em que pese a contradição, era verdade. Queriam agradecer a Nossa Senhora, pelo sucesso do golpe, recentemente perpetrado. É verdade, o mundo é habitado por loucos.

Percorriam estradas secundárias na região, fazendo um prévio reconhecimento do terreno. Importante também para conhecer sutilezas da cultura local. Adentraram uma faixa de florestas extensas, cortadas pela estrada. O homem pôde observar os grossos rolos de fumaça se elevando. Como a estrada prosseguia, porém se afastando da área de incêndio, não viu nada demais em prosseguir.

Na verdade, quando os bombeiros e autoridades locais decidiram bloquear a estrada, eles já estavam nela e adentrando cada vez mais, sem saber que ela tornaria a se aproximar das chamas. Desavisados do que pudesse estar acontecendo, não sabiam estar no lugar, e ao tempo em que a Turquia seria tomada por intensos incêndios, enquanto a outra parte do país padecia com grandes enchentes.

A estrada, que em um primeiro momento parecia se afastar,  tornou a se aproximar da floresta, já tomada pelas chamas. Já convencidos do risco, decidiram retornar por onde vieram. Porém, àquela hora, a mudança se mostrou inútil. Ao retornarem para o mesmo lugar, encontraram o caminho já invadido pelo incêndio de grandes proporções.

Agora estavam irremediavelmente presos. Não havia como avançar, nem recuar. Em poucos minutos, as chamas alcançaram o veículo, que principiou a estourar os vidros. O ar aquecido a mais de 200 graus, tornou-se irrespirável.

As peças de roupa, feitas em fio sintético, grudavam na pele. Era o fim. Ainda puderam avistar seres inacreditavelmente formados por chamas, a agarrá-los pelas mãos e arrastá-los para fora do veículo, já destruído. Entre o calor; o pavor; os gritos; e as gargalhadas fantasmagóricas, abandonaram esta vida, sem completar o ciclo de viagens tão sonhado.

Somente dois dias depois, é que o trecho de estrada foi liberado. O veículo, e os corpos calcinados, como que submetidos a um forno crematório, estavam irreconhecíveis. Apenas quando o hotel, em Marmaris, comunicou à polícia local a ausência de um casal de estrangeiros, é que se iniciaram as diligências buscando identificar aqueles corpos.

Com os dias avançando, e como o casal não retornasse ao hotel, foi então solicitada a abertura do quarto, e a seguir do cofre do hotel, de modo a se realizar a identificação dos corpos. Também ajudou, o fato de terem alugado um veículo na cidade. Os números de chassis e motor seriam úteis.

Dentro de um fundo falso de uma das malas, foi encontrado na ocasião, maços de cédulas, no total de 253 mil euros. No cofre, entre vários documentos, que se mostraram ser falsificados, uma caixa com mais 275 mil euros.

Com o tempo, as investigações trariam à tona, não somente a confirmação da identidade dos corpos, assim como o fato de que haviam entrado na Turquia com nomes falsos e documentos falsificados.  Evidenciou-se também, a suspeita de que se tratava dos golpistas, organizadores de uma pirâmide no Brasil, ou parte dessa mesma quadrilha.

O segundo casal, após deixar o país, passou pouco tempo na Colômbia, Panamá, e na Jamaica, onde permaneceram por cerca de três meses. Posteriormente, seguiram para a Guatemala, onde permaneceram por um mês, antes de seguirem para Paris, na França, em voo direto. De lá, adentraram a fronteira da Alemanha, viajando de trem.

A Alemanha é um país belíssimo. Repleto de histórias, paisagens encantadoras, e muito o que viajar e se visitar, caso se disponha de tempo e dinheiro para fazê-lo. Havia disposição dos dois, e com muita fartura. Compraram um Mercedes GLC e se puseram no caminho da aventura.

Em Berlim, o World Balloon, vista da cidade e arredores a partir de balões. O riquixá elétrico, com o guia local, a percorrer os bairros populares de Berlim e locais históricos. Em Nuremberg, o centro histórico; a excursão medieval. Em Colônia, o museu do Chocolate; um tour pela cervejaria; a cidade velha; excursão gastronômica. Em Estrasburgo, o Parque Nacional da Floresta Negra; trilhas na floresta; a rota do vinho pelas aldeias da Alsácia. A lista era enorme.

Deslocavam-se felizes e satisfeitos pelas estradas da Renânia-Palatinado, um dos estados mais populosos da Alemanha. Por conta da posição geográfica, a região atrai muitos turistas. A cidade de Koblenz é muito conhecida pela cultura do vinho, desde os tempos do império romano. O dinheiro farto convidava a jornadas, itinerários imaginados por eles mesmos, sobre o mapa.

Haviam deixado o castelo de Cochem. A ideia original, era visitar também o castelo de Eltz, perto de Muden, deixando a rodovia 416, já que não era longe dali. Como não houvesse acordo, quanto a se visitar mais um castelo, dirigiram-se à  pequena localidade de Löf, às margens do rio Mosela, a meio caminho de Koblenz, mantendo-se na 416, rodovia esta, que margeia o rio Mosela até chegar em Koblenz.

Pararam no local para comer alguma coisa e esticar as pernas. Pretendiam se hospedar somente quando chegassem em Koblenz, pouco mais adiante, a cerca de 15km.

Julho é um mês de chuvas intensas na região. O dia estava  úmido, algo normal para a época. Os comunicados do serviço de meteorologia estava nas mídias, de um modo geral, o que também é bastante usual. Não se deu maior importância à questão, já que em breve, estariam no destino, onde poderiam descansar.

Estavam a poucos minutos do hotel, já dentro da cidade, quando tudo aconteceu. O céu escureceu rapidamente, enquanto nuvens carregadas despejavam um aguaceiro sobre Koblenz e a região da Renânia-Palatinado. É nesta cidade que o rio Mosela se encontra com o rio Reno. Muitos carros ficaram presos no mesmo lugar, quando o conjunto Mosela-Reno, que são rios de planície, começou a transbordar, sem conseguir dar vazão a tanta água.

Onde pouco antes, as pessoas circulavam tranquilamente, agora em meio a uma terrível tempestade, famílias inteiras lutavam pela própria vida, subindo para os andares superiores das casas, e torcendo para que a força das corredeiras, que surgiram rapidamente, não solapassem as construções. Antes que o dia terminasse, mais de 150 pessoas estariam mortas, e outras 180 desaparecidas, na maior enchente da Renânia-Palatinado em muitos anos.

Os veículos, antes presos nas ruas interditadas, agora eram arrastados pela enxurrada e amontoados, como se fossem de brinquedo. Um morador, do alto do prédio, pôde registrar a luta de um casal tentando sair de dentro do carro e subir no teto do veículo. Ao passar próximo de uma árvore, o homem conseguiu agarrar-se a um galho. O veículo prosseguiu sendo arrastado, até que a mulher caiu nas águas da enxurrada, se perdendo por entre o aguaceiro.

Dois dos integrantes de uma trama que se iniciou no Brasil, agora se encontravam afastados, em meio a água, lama e detritos trazidos pela tempestade. O homem, perplexo, por ter conseguido escapar, acabou sendo socorrido por bombeiros. Indagado se havia mais alguém no carro, afirmou que viajava sozinho. Dizia estar preocupado em encontrar o carro que descera a rua nas águas da enchente.

Foi então recolhido a um abrigo provisório, enquanto aguardava as águas baixarem, para poder procurar pelo seu veículo. Seria preciso mais um dia, antes que fosse encontrado, e pudesse obter socorro para retirá-lo do local. O veículo foi encontrado debaixo de dois metros de lama e entulho das diversas casas que haviam desabado. Estava por demais danificado.

O inglês falado por aquele homem era no mínimo, muito ruim, e o seu alemão, inexistente. Um policial presente ao local, depois de observar a situação do carro, e do volume de serviço que os bombeiros e voluntários da defesa civil tinham pela frente, sacou o tradutor em seu celular e lhe passou explicações em português. Esclareceu então, que  o carro havia se perdido.

O cofre do motor sofrera um afundamento, o que era um péssimo sinal, e a estrutura em monobloco, estava toda retorcida pelo peso do entulho. Explicou que não lhe dariam preferência. Pararam de desenterrar o carro, ante a situação em que ele se encontrava, e foram atender veículos em melhores condições. Aquele ali, parecia sucata, explicou o policial.

O turista brasileiro se viu atônito e sem fala. O policial lhe  acrescentou uma fala a pedido dos socorristas. Pelo tradutor escreveu:

“Amigo, estão dizendo que você deveria estar contente, pois afinal só teve perda material. Pôde preservar a sua vida, enquanto muitos moradores perderam suas casas, e outros tantos, a própria vida. Estão dizendo que você é um cara de sorte.”

O homem prosseguiu calado, com um olhar de decepção. Ficou nas imediações acompanhando o resgate dos outros veículos, que ficaram engavetados na enxurrada. De quando em vez, ia encher a paciência dos socorristas pedindo para recolherem o seu carro, sendo que a resposta ele já sabia.

Com o restabelecimento do fornecimento de energia elétrica, os cartões de crédito e débito se tornaram úteis, mais uma vez, com o sistema já em funcionamento. Foi tratar de obter um carro guincho, e pessoas que pudessem ajudá-lo a retirar seu veículo, que ainda se encontrava parcialmente soterrado.

Com a ajuda da equipe por ele contratada, finalmente conseguiu retirar o carro do lugar de ocorrência. O veículo foi levado para uma oficina, pois não poderia ser deixado na rua.

No local, enquanto verificavam a situação do carro achatado, notaram que o forro da porta do motorista havia se arrebentado, e aparecia em sua borda, vários maços de dinheiro. Eram cédulas de euros, na realidade, 25 maços de 20 mil euros cada um.

O homem arranjou um saco plástico e começou a recolher os maços de dinheiro. O dono do carro guincho, achou tudo por demais suspeito. Pegou o celular e deu ciência à polícia do que estava acontecendo naquela oficina. Em questão de minutos, uma viatura policial estava no local.

Diante do saco plástico cheio de cédulas que foi logo verificado, a dupla de policiais decidiu recolher o veículo, e deteve o turista para esclarecimentos. O passeio pela velha Europa havia terminado.

Já no departamento de polícia, uma busca minuciosa localizaram pacotes de euros, em um fundo falso, debaixo do estepe; no forro da porta do lado direito; entre o teto metálico e o subcéu do veículo; e debaixo do banco do motorista. No total, haviam encontrado 870 mil euros. Encontraram ainda um arco feminino, utilizado para prender os cabelos, e uma nécessaire com artigos femininos de higiene.

Um policial, então lhe mostrou uma gravação em vídeo, relativa ao dia da enchente, e que estava sendo exibida na Internet. Nela um homem consegue sair de um veículo agarrando-se nos galhos de uma árvore, enquanto uma mulher não teve a mesma sorte e se perdeu na enchente.

Com um intérprete presente no departamento de polícia, indagavam do turista detido.

— Você reconhece este homem, esta mulher e este veículo?

Não havia mais o que negar. É evidente que o passo seguinte seria ter de explicar de onde veio tanto dinheiro.

Como o crime havia ocorrido no Brasil, acabou sendo extraditado de volta para o país de origem. Condenado pela justiça brasileira, por ser um dos mentores da pirâmide comercial que lesou multidões, foi conduzido a um presídio para cumprimento de doze anos de prisão. De fato, o golpe arrecadara o equivalente a 44 milhões de dólares. Algo como 235 milhões de reais.

Estava liso, completamente liso. Com a ajuda das autoridades europeias, acabou tendo de devolver, às autoridades brasileiras, e àqueles que havia lesado, o que havia em contas na Suíça.

No presídio, ninguém acreditou que tivesse entregado tudo, e passou a ser pressionado para indicar a localização do restante. Acabou afirmando certas coisas, só queria parar de apanhar. Cada informação era rapidamente verificada por pessoas fora do presídio. Como nunca se obtinha nada positivo, depois de muitos dias debaixo de tortura, terminou assassinado por asfixia.

Perturbado e desesperado, pôde observar o seu corpo estendido no chão. O ambiente foi gradativamente tomado pela escuridão. Não sem antes vislumbrar a presença de várias pessoas. Na realidade, seres horripilantes que se acercavam de outros três, presos em correntes, firmemente em suas mãos, tal e qual animais. Na realidade eram escravos.

Fixou o olhar mais um pouco, a ponto de identificar seus antigos sócios, condutores do golpe de mestre. A dupla que se perdera no incêndio na Turquia, a caminho de Marmaris, e a sua companheira, que desencarnara na enchente, em Koblenz, na Alemanha. Em expressões cadavéricas, o olhar sem vida, com correntes atreladas ao pescoço, pareciam verdadeiros zumbis.

— Viemos lhe buscar, só faltava você, meu novo escravo. Lhe dizia uma voz fantasmagórica.

Queria desmaiar, sumir dali e morrer. Já não era mais possível, pois já se encontrava do outro lado da vida. Descobriu da maneira mais trágica, que a vida é um fenômeno sem fim. É um presente de Deus, sob qualquer circunstância.

Aferrados ao materialismo que condena muitos homens a uma sorte vil, teriam agora de sorver o resultado da mentira, da ganância, da falta de moral, e de respeito para com os demais, na companhia de outros que pensavam e agiam exatamente como eles próprios. Construíram um enorme cenário, onde a miséria humana aparece com todo o seu negrume, até que um dia, arrependidos, possam ser merecedores de misericórdia.

Toda maldade praticada terá como efeito final, a atração de mais maldade contra quem a cometeu. Todo efeito possui uma causa que o explique e lhe dê origem. Tal é a Lei.

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