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A ponte

                                                                                

                                                                                                                                                           Foto: Tim Swaan

Por: Antonio Mata

Lá pelas sete horas da manhã, ainda estava chacoalhando dentro de um ônibus rumo ao centro da cidade. Levava no colo um recipiente contendo 50 trufas. Ao longo daquela manhã era preciso vender todas.

Mãe solteira, foi a forma que encontrou para prover seu único filho, já com 14 anos. Foi diarista em casas de família, trabalhou com costura, artesanato, venda de carnês. Foi sacoleira vendendo peças de vestuário.

Foi ainda uma vendedora de cosméticos. A despeito dos impedimentos; ajustou-se com as trufas. Recebia o pagamento à vista. O nome disso é liquidez.

Até a hora do almoço já teria vendido todas as suas trufas; e assim teria a tarde livre para fazer o que achasse melhor. O nome disso é disponibilidade.

Só com o certificado do antigo curso primário, a dificuldade para se obter emprego se tornava maior. Com o tempo desistiu de tal possibilidade, e partiu para o subemprego.

Foi justamente o subemprego que criou as condições necessárias para que pudesse retomar a escola esquecida de outros tempos. Soube aproveitar as oportunidades que surgiam pelo caminho.

Por volta do meio-dia, normalmente, já estava com seu recipiente plástico vazio. Era hora de retornar para casa e preparar tudo para o dia seguinte.

Distribuiu o serviço de modo a deixar pelo menos uma centena de trufas na geladeira, por vez, assim não precisava cuidar da confecção dos chocolates todos os dias.

Havia se tornado hábil. O tempo adicional obtido dedicava a outra coisa que vislumbrava desenvolver, em complemento às trufas. Era o pudim de leite.

A iguaria era bastante apreciada, preferencialmente, após às onze horas por conta do horário de almoço. Ainda que permanecesse uma hora a mais para fazer sua experiência, estava disposta a levar adiante seu intento.

Luiz Gustavo, o Dito, seu filho de 13 anos chegava da escola também por volta das 12 horas. Ficava na companhia da dona Leninha, sua avó até a mãe chegar em casa.

— Já tem outro bilhete da escola do Dito. Dessa vez a diretora avisou que quer falar contigo. Não quer que eu vá, tem que ser você, ela disse. Comunicava dona Leninha à sua filha, que Dito estava mais uma vez na iminência de ser suspenso por conta do mau comportamento, e por brigar na escola.

— Não tô aguentando isso mais não mãe. Dito tá ficando insuportável. Desde o início do ano já é a terceira vez que isso acontece. Não sei pra quê, mas amanhã eu volto mais cedo e passo na escola.

Dito não era mal, mas como muitos outros garotos, era inconsequente e não media seus atos. Não era ingrato; amoroso com a mãe, na sua presença faria tudo o que ela mandasse e gostava de agradá-la com os pequenos mimos de um filho gentil.

Como ambos precisavam levantar cedo, tão logo aprendeu a fazer café; preparava tudo e deixava o café de sua mãe, servido. Café, leite e pão com manteiga.

Não pedia coisas que de antemão sabia que ela não iria poder comprar. Um par de tênis, usava ele até o calçado pedir arrego. De fato, não ligava muito. Queria ajudar sua mãe com as vendas, mas ela mesma o impedia.

— Meu filho, fique na escola. Meu esforço é para você não ter de parar. Continue, não faça nada do qual você tenha que se arrepender depois.

— Tá mamãe, eu já entendi. A briga na escola foi porque mexeram comigo, e eu não gosto. Eu tava quieto jogando bola. Dizia Dito à sua mãe.

— Dito, você tá prestando atenção no que você tá dizendo? Na escola, você tava quieto, jogando bola. A aula Dito, você fez o quê com ela?

Desconcertado, Dito tentava explicar o inexplicável. Buscando um jeito, para o que não tem jeito. Na ausência da mãe, era fujão. Vivia correndo, tudo era desculpa para mais uma corridinha.

Desde entregar uma atividade à sua professora, descer para o intervalo do recreio, ou chegar até o banheiro. No intervalo fazia bola com qualquer coisa que estivesse à mão.

Seria capaz de chutar pedras junto dos outros garotos, caso a diretora não mandasse dar sumiço em tudo que pudesse ter um formato ligeiramente redondo.

Além das infindáveis recomendações para que não permitissem ao Luiz Gustavo, ficar fora da sala de aula, sob circunstância alguma.

Finalmente Neuza compareceu à escola, no dia seguinte para ouvir tudo aquilo que, no fundo ela já sabia.

— Neuzinha meu amor, que bom que você veio. Lamento ter que ficar te chamando, mas o Luiz não consegue parar no lugar. Mas independente disso, eu queria lhe fazer uma sugestão.

— Tá bom, dona Íris, eu tô numa situação em que ando aceitando qualquer coisa. Quem sabe a gente consegue melhorar isso.

— Estive pensando no comportamento de seu filho e queria propor algo, mas não sem antes falar contigo. Como ele não consegue sossegar, vamos fazer o contrário. O Luiz está cheio de energia para gastar. Prosseguiu a diretora.

— Como fico na escola até mais tarde, vou separar uns quarenta minutos e os meninos poderão brincar de bola na quadra da escola. Surgiu oportunidade para pôr o garoto em movimento, a gente faz isso. Desde pequenos mandados, até gincanas, torneios. Também valorizar sua presença na educação física. Neuza ouvia tudo, e gostou da proposta.

— Ele pode ter notas ruins, mas não é repetente, só está estudando para passar, porque quer. Ele pode fazer coisa melhor. Vou conversar com os professores e pedir para que nos ajudem nessa iniciativa. Pode muito bem dar certo; concluiu.

Neuza dessa vez deixou a escola com um semblante diferente no rosto. É evidente que seria um esforço no sentido de aproveitar as características latentes do garoto. Porém, isso exige atenção e acompanhamento.

O arsenal da diretora Íris era realmente pequeno, se considerar que a escola tinha bem mais de quinhentos alunos. Luiz Augusto era só mais um.

Certas decisões que chegam quando menos se espera, às vezes trazem o tijolo que faltava para a construção avançar, ao invés de desmoronar de vez.

É bem verdade que Luiz não mudou da água para o vinho, e que nem sempre dava as indicações esperadas por sua diretora e demais professores. Não, realmente não se deu desse jeito.

Entretanto, aquilo que possa significar um sentido de mudança, um oportunidade de aprimoramento, é, e sempre será bem-vindo.

Dito prosseguiu na escola, e brevemente pôde ingressar no Ensino Médio. Nunca esteve entre os melhores da turma, entretanto parou de ser apontado entre os piores. Para a alegria e satisfação de sua mãe.

Não sei dizer direito como foi o desenvolvimento da história como um todo. O que posso acrescentar, é que Dito, ao concluir o curso básico, me contou certa vez que queria estudar Educação Física.

Corria o ano de 1995. Confesso que não levei muita fé no garoto. Pensei que seria muita areia para o caminhão dele. Só não iria lhe contar isso. De fato, incentivei; já que queria tanto.

Era um aluno mediano para menos, ainda que em duas ou três disciplinas fosse possível afirmar que era um estudante na média. É claro que a rainha das disciplinas, na cabeça do Dito era educação física.

No rolar dos anos me aposentei e perdi contato com a área de ensino. Em certa ocasião, estava no saguão do aeroporto aguardando o momento de entrar e pegar um voo para Brasília. Então alguém me tocou no ombro.

Quando me virei, em um primeiro momento, não reconheci direito. Só que tem uma coisa; certos alunos, seja porque eram muito bons, ou eram particularmente ruins, melhor dizendo, eram diferentes. Estes, você não esquece tão fácil. Era ele mesmo, Luiz Augusto, todo sorridente; só que doze anos depois. Tinha vindo deixar alguém.

Para resumir a história toda, Luiz Augusto graduou em educação física. Chegou a trabalhar como professor da disciplina. Na ocasião as academias onde se trabalhava o corpo ao ritmo de música, já existiam e continuavam crescendo.

Luiz aproveitou a onda e foi trabalhar na área. Começou ainda a fazer pequenas aparições em eventos públicos patrocinados pela prefeitura, onde divulgava o valor da prática de exercícios físicos. Obteve assim pequenos e eventuais espaços na mídia televisiva.

Muito comunicativo, soube amealhar seu público, e passou a escrever sobre este tema em um jornal da cidade. Aproveitou a carona e escreveu seu próprio livro ilustrado, com orientações e aconselhamento técnico.  

Outra força estava se delineando na mídia; a internet e as redes sociais. Luiz Augusto já tinha planos a respeito. Então foi isso, o garoto soube aproveitar a maré do seu tempo.

Perguntei por sua mãe, e ele acrescentou que tão logo se firmou na academia, passou a vender os chocolates, além de sanduíches naturais feitos por ela no próprio local, para lhe dar um pouco mais de sossego, como dizia.

É meio estranho, mas foi assim mesmo que aconteceu. A garotada malhava primeiro, e depois comia trufas, pudins e sanduíches feitos pela dona Neuza, mãe do Luiz Gustavo.

Naqueles tempos, cheguei a ver, uma vez ou outra, Neuza sua mãe no centro da cidade com as trufas no recipiente plástico para vender. E foi assim; às vezes é preciso que alguém assuma o ônus do sacrifício e do esforço.

Então, abdique de si mesmo em prol de outra pessoa. Neuza com dona Íris, elas fizeram a ponte para que Luiz Gustavo, o Dito; aquele garoto que não sabia sentar o facho no lugar; pudesse passar.

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