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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

A praga

Por: Antonio Mata

Azul anil, inconfundível céu de passagem de uma linha de frente fria. Todavia, pode surgir por conta de outros fatores climáticos. No início das chuvas, quando o céu escurece, às vezes pode trazer mais que chuva. O céu pode escurecer de dia por outras razões.

Primeiro, o tempo estava seco. Em seguida, com a chegada das chuvas, a campina e as matas próximas, foram transformadas em um grande berçário.

A partir da segunda semana a enorme quantidade de ovos começou a eclodir. As ninfas saíam dos ovos, como se fossem cópias diminutas de seus pais. De embocadura resistente, os bichos já nasciam com vontade de comer.

Principalmente as folhagens que aparecessem pela frente. Comem folhas em profusão. É bem verdade que os lagartos procuravam dar conta daquele horror de ninfas. Bobagem, nem com a ajuda dos sapos, dos roedores, aves, dos agressivos e também famintos louva-a-deus.

Muitos dessa tropa de combate, já chegavam debilitados. Era o efeito do desmatamento que acabava com o ambiente natural desses bichos. Assim, ficavam poucos para dar conta de tantas ninfas. Tempo bom de comida farta. Mas, acabar com tudo era simplesmente impossível.

Foi assim que a confusão começou.

— Onde será que estão os nossos? Você viu? Isso aqui tem ovos e ninfas para tudo quanto é lado. Como vou encontrar os meus? Tenho certeza que os deixei por aqui.

— Ah, vi sim. Agora, experimente olhar para aquele lado. — Dizia o macho enquanto apontava para sua direita.

— Aah, ... Hum?

Quando achou que iria encontrar seus 300 ovos, o que viu foram milhares de ovos eclodindo e ninfas em profusão. Tomavam conta do lugar e, ao mesmo tempo. Sem tirar nem pôr, era de fato, tudo muito igual. Acabou por desistir de encontrá-los.

Seja pela enorme quantidade, seja pela impossibilidade de tornar a encontrá-los, talvez seja por isso que as fêmeas põem seus ovos e depois vão embora.

O monte de filhotes, tão logo se livravam dos restos do ovo, passavam a comer tudo que fosse verde, lembrasse uma folha e estivesse por perto. Aquela gana fenomenal liquidava a massa verde do lugar com enorme rapidez.

E assim foi feito.

— Não ligue tanto para isso. Afinal, veja pelo lado positivo. Não terá que cuidar de filho nenhum. Veja, eles se cuidam sozinhos. Com todos aqueles dentes, acho que você deveria ficar de fora.

— Isso é o que você pensa! Talvez eu encontre pelo menos metade desses ovos.

— Entendi, você diz encontrar 150 ovos no meio dessa confusão. Relaxa, só vão pedir mais quando acabarem com tudo. Aí vão tratar de voar.

O macho prestou atenção em uma cena. E mais que depressa tratou de desviar a atenção da mãezona para outra coisa.

— Vamos procurar ali daquele lado. Tenho um palpite de que talvez sejam eles. Não custa nada verificar.

Entrementes, uns poucos lagartos e sapos adentravam o campo e comiam ninfas a se fartar. Fariam isso pelos próximos 30 dias. Era uma relação onde ninguém conhecia ninguém. Gafanhotos vivem só oito meses. Não dá tempo para explorar muito e conhecer os perigos dos caminhos.

Contudo, dito e feito. Aos 45 dias de vida, começaram a bater as asas já secas e alçar voo. Ao longe era possível visualizar a mancha escura contra um céu pouco nublado.

Logo, alguns lagartos puseram-se a gritar:

— Estão indo embora! Estão indo embora!

— Agarrem esses bichos, antes que desapareçam daqui! Vocês, sapos, façam alguma coisa!

— Fazer alguma coisa? Comemos feito bois. Estamos chumbados aqui no chão. Esqueça!

— Sapo gordo chumbado no chão. Deixe os ratos e gaviões saberem disso!

— É mesmo. As cobras vão adorar lagartos roliços! Deve haver uma gordurinha diferente que elas adoram!

Bem, discussões à parte, é a lógica da vida. Ninfas apetitosas, fazem seus predadores ficarem chumbados no chão, roliços, vistosos e mais apetitosos ainda.

— Isso não é justo! O mar de comida vai embora! O que faremos depois? — Continuavam a reclamar os lagartos.

— Parem de reclamar e comecem a correr atrás deles enquanto vocês podem. Devem aparecer alguns pelo caminho.

O problema é que bastava um filhote fazer algo e todos queriam fazer igual. Foi assim que acabaram criando aquela mancha escura, cheia de gafanhotos no ar.

Os lagartos tentavam alcançá-los, correndo e olhando para o alto. Quando algo, uma sombra mais escura que a mancha de gafanhotos, parecia subir bem na frente dos lagartos espantados, boquiabertos e roliços.

— Ksss, ksss. Vocês são gostosinhos, não é?

Aquela cascavel não estava para brincadeira. Muito menos preocupada em perseguir pelo campo afora, lagartos roliços e cansados de tanto correr. Sendo assim, xeque-mate.

Com os sapos não foi diferente. Logo estavam sendo encurralados por mucuras, aves de rapina e até por gatos domésticos. Os gafanhotos, não só comiam tudo pela frente, como condenavam os poucos que poderiam detê-los. Só pelo acinte.

De repente, em meio a mancha enorme que avançava em voo raso, alguém gritou: milho!

Foi a conta. Aquilo envolveu a mancha inteira e aos gritos.

— Milho, milho, é milho! Miiiilho!

Ninguém sabia do que se tratava, já que nunca tinham visto uma espiga de milho na vida. Entretanto, era o tipo da coisa que interessava muito pouco. O que importava mesmo, estava logo ali embaixo e na frente de todos. Um campo todo verde e cheio de muitas espigas de milho.

Verde é a cor da vida, da gula e do pecado. Aos olhos de um gafanhoto, pelo menos.

Logo se apossavam do milharal com uma voracidade impensável. As plantas eram consumidas até o talo. Os grãos de milho fresco desapareceram todos de um dia para o outro. Passaram o dia e a noite inteira mastigando.

Por mais que houvesse um desequilíbrio, a praga de gafanhotos prosseguia amparada nas leis da vida. Comiam tudo vorazmente e tinham suas razões. Tanto eram prolíficos como possuíam uma vida muito curta.

Tinham de dar conta de tudo em muito pouco tempo. Afinal, aquela nuvem só duraria até oito meses, às vezes um pouco mais. De qualquer modo, a morte de todos eles, no espaço de poucos dias, traria a tranquilidade ao campo mais uma vez.

Além de um monte de insetos que abandonariam a vida e seus incontáveis corpos que retornariam ao seio da terra, adubando-a, mais uma vez, para a aplicação em outros intentos. O ciclo da vida se cumpriria.

Tão rápido quanto a chegada daquela nuvem cinzenta, a paisagem de calamidade, finalmente cessou. Os lagartos e sapos gordos chamavam muito a atenção.

Até sumirem da paisagem, devorados que foram. Outros animais puderam se alimentar deles. Assim, a terra ficava, ao menos em parte, salvaguardada para o caso daquela praga de gafanhotos acontecer de novo.

Pois é, foi assim que aconteceu.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

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