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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

A raposa sem as uvas

Por: Antonio Mata

No abrigo do ponto de ônibus, estava sentado. Até o momento em que chegou outra pessoa. O recém-chegado notou que, vez por outra, o outro homem gesticulava e falava sozinho.

Apontava para cima, afirmando algo. Espalmava as duas mãos, como quem duvida. Olhava para o alto, pensando, relembrando. Teria sido realmente assim, teria dado certo? Se fosse de outro modo, não teria sido melhor?

Vagava pelos episódios passados, sempre falando sozinho. Gostava de esclarecer as coisas. Opinar, identificar os conflitos. Também não se permitia ser subjugado pelos reveses da vida. Tudo tinha um propósito.

— É isso mesmo, é mesmo assim. Tudo tem propósito, a sua razão de ser.

Parecia pensar alto. Até que a outra pessoa quis saber e então perguntou.

— Mas, com tantas experiências, qual é a sua profissão? Do que você vive?

— Ah, fiz de tudo um pouco. 

— O que exatamente?

— Fui bancário, no tempo em que não tinha computador nem caixa eletrônico.

— É mesmo, então você foi bancário?

— Sim, era todo mundo na fila. A primeira e a última semana do mês, um pavor. Encheu meu saco e saí daquela vida. Nem era grande coisa. Fui atrás de algo melhor.

— E achou?

— Vida de bancário não presta. Banco é bom para o dono do banco. O resto só perde. Dei o fora. 

— Perguntei se você achou. 

— Ah, sim, claro que achei. Como não? Oportunidade não faltava. 

— Sim, e aí, o que você foi fazer?

— Queria apagar as lembranças ruins do banco. Queria descobrir algo novo.

— Descobriu?

— Foi uma busca. Às vezes a gente precisa procurar mais um pouco. 

— Perguntei se você descobriu. 

— Descobri, claro que descobri. 

— E então?

— Descobri algo que todos gostam, todos procuram e todos compram. 

O interlocutor achou engraçado. 

— Sério mesmo, o que foi?

— Banana. 

O interlocutor riu de vez. 

— Que coisa, hein? Como foi a experiência da banana? 

— Nossa! Vendia muito, vendia tudo. Quanto mais tivesse, mais se podia vender. 

— Aí, você deu um jeito na vida. 

— Sim e não 

— Ora, não foi a boa oportunidade?

— Foi, mas tive que parar. Tinha que levantar de madrugada para preparar tudo. Tem que buscar cedo, encher a camioneta e distribuir todo dia. Eu ajudava a carregar o carro e depois, ficava no primeiro ponto, que era o meu. Uma esquina de muito movimento. Um ponto ótimo. Tinha dinheiro, mas não tinha sossego. Dormia pouco, vivia debaixo de sol. Quando chovia, perdia o dia. Não era bem o que eu queria.

— Mas, se era rentável, poderia descansar depois.

— É, mas, era muito cansativo. Achei melhor sair. Ainda tinha patrão. Queria ser meu próprio patrão.

— Então, o que você fez?

— Saí desse ramo.

— Assim, sem mais nem menos? Na cara dura?

— É, saí de uma vez.

— E depois, o que você fez?

— Soube de um garimpo que estava crescendo lá pelas bandas do Purus. Me bati para lá e fui atrás de ouro.

— Poxa, você é um cara de coragem. Conseguiu, achou o ouro?

— Quase.

— Ué, como é quase ouro? Tinha ouro ou não tinha? Achou ou não achou ouro?

— Achei quase, mas tinha que continuar cavando.

— Ah, entendi. Você passou quanto tempo cavando?

— Uns oito meses, pelo menos.

— Não foi suficiente?

— Foi não, tinha que cavar mais. Cansei daquela vida. Ficava engordando a galinha dos outros. Só ganhava alguma coisa quem achasse ouro. Eu nem ligava muito para isso. Muito trabalho para quase nada de ouro.

— Mas, afinal, e agora, o que você tem feito da sua vida?

— Bom, eu faço um biscate aqui, outro ali. Sabe como é, né? A gente não pode parar.

— Ah, eu entendi. Está certo, não pode mesmo não. Agora preciso ir, meu ônibus está chegando.

Ao ver o outro se levantar, se adiantou.

— Você não teria um trocado? É que estou sem nenhum.

 

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