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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

A toca

Por: Antonio Mata 

 

Não era a primeira vez que cruzava aquela encosta, que terminava em um pequeno platô, quase um degrau inclinado levemente na direção de um paredão.

Foi rápido que compreendeu e desenhou mentalmente a disposição do terreno. Vasculhando o lugar em meio a muitos arbustos e cipós, deparou-se com pequena gruta, estreita, pouco mais de um metro de largura, tendo de fundo não mais que metro e meio. Possuía um olho, dir-se-ia clínico para aqueles propósitos.

Olhou ao redor e só enxergava plantas encobrindo tudo com seu manto verde e seu trançado de cipós. Achou e cortou ligeiro uma estaca pontiaguda. Então, começou a perfurar o solo próximo em diversos pontos ao redor.

Foi assim dessa forma, que descobriu que o solo que se inclinava negativamente na direção do paredão, era de fato uma laje, um terreno antigo petrificado que havia se deslocado com o tempo, ligeiramente, em função do seu peso.

Continuou socando e batendo na terra procurando localizar a extremidade do outro lado. Foi sorte, foi astúcia, obra do acaso? O mais provável e correto seria atribuir ao sucesso de quem sabe o que está procurando. Assim era uma das diversas visões de mundo daqueles que viviam na floresta. Um deles era Chekren Maí. Dedicado a seu povo e a sobrevivência de sua gente.

O conhecimento das plantas e suas aplicações, das árvores para  corte, até a sumaúma, utilizada para comunicação batendo em suas enormes raízes, é complementado pelo conhecimento dos animais e dos cursos dos rios.

Há de se imaginar que uma relativa geografia do lugar fizesse parte deste aparato de conhecimentos tão necessário às interações entre os homens e seu meio. Pois bem, esta foi a parte que mais prendeu a atenção para o aprendizado de Maí.

Reunir as aplicações em madeira, cipós, folhagens, pedras, cerâmica e frutos, ao relevo existente nos arredores, extraindo daí novas aplicações voltadas para a caça. Para estabelecer o fator tempo, definiu áreas a um dia e a dois dias de viagem.

Existia um fator determinante da principal preocupação de Maí. E ele possuía grande relevância nos hábitos alimentares de seu povo. Algo como 70% da alimentação de sua gente era constituída por carne moqueada ou assada. Daí o valor de seu trabalho, voltado para a especialização de algo tão necessário.

Outra questão crítica percebida por Maí e alguns de seus companheiros era a presença de grupos hostis na mesma região. Uma expansão muito grande da população poderia significar a ocupação de mais terras, e com ela o conflito.

Habilidoso, paciente, astuto e criativo. Os adjetivos cabiam bem na personalidade singular de Chekren Maí. Homem feito, mostrou-se o melhor caçador dentre os integrantes daquela nação. Respeitado pelos demais, rapidamente organizou seu grupo de trabalho, com os quais buscava colocar em execução seu projetos originais e pioneiros.

A presença de Maí e seu grupo na caçada era sinônimo de comida farta para todos. A confiança no homem não era por mera simpatia, nem era à toa.

Capaz de intuir a presença de determinada caça, diziam que gozava da companhia dos deuses caçadores, que o orientavam em suas empreitadas na mata.

Habilidoso na identificação das trilhas e rastros dos animais, fezes e a altura dos galhos partidos em meio às matas da região. As fezes podem ajudar a identificar o que um animal herbívoro está comendo, e assim identificar o local onde se alimenta. Sabia reconhecer de qual animal se tratava, se era jovem ou adulto, fêmea com cria, se o rastro era recente ou antigo.

Pela direção do rastro, já possuía uma certa definição do que o animal estaria fazendo ou procurando. Se estava sendo perseguido, se estava ferido ou não. Animais não andam a esmo.

Percorria as matas em longas caminhadas observando tudo, desde os hábitos dos animais aos vestígios de sua passagem. Construía assim o seu mapa mental.

Certo dia, tomando por base o que havia aprendido sobre os animais e o seu meio, encontrou uma canoa velha, já sem uso. Normalmente só servem para fazer fogo. Pegou a parte central da canoa, separou do restante, obtendo assim uma superfície abaulada de aproximadamente 70 cm de lado e 90 cm de altura.

Foi nesta placa abaulada que desenhou com sumo de jenipapo e carvão, um mapa mental, indicativo das áreas utilizadas para caçadas ao redor de sua aldeia, tendo esta assumido uma posição central no mapa. As distâncias foram medidas em dias de viagem. Um, dois, ou três dias, caminhando a pé, a partir do centro do aldeamento.

Afinal, o que constava neste mapa concebido por Maí, há mais de 800 anos atrás? Todo o seu repertório de localizações, técnicas e percursos necessários para se localizar eficientemente os animais ao tempo certo, ao longo do ano. Dessa forma sabia onde encontrar animais adultos, sem ter de explorar em excesso.

Maí, de forma muito conscienciosa buscava sair de uma armadilha. Se seu povo consumia muita carne e a população crescia, em algum momento haveria um desequilíbrio. Decidir pela redução do consumo de carne, aumentando o consumo de mandioca e milho seria providencial. O mapeamento de Maí indicaria a diminuição sucessiva de animais nos pontos indicados. Este seria o primeiro alerta.

O caçador e seu grupo era querido e respeitado por todos, porém esbarraram no estômago, uma questão fundamental. Toda vez que o assunto era levantado nas reuniões noturnas à beira do fogo, de modo a se decidir a vida de todos, ninguém estava disposto a abandonar seus hábitos alimentares, por mais que Maí argumentasse que isto era importante, pois a população crescia sem parar.

Todos achavam natural que tivessem que deixar o lugar em algum momento. Maí, fazia uma linha de pensamento diferente. Queria que aprendessem a explorar o lugar sem saturação, e assim poderem permanecer na mesma região, controlando o consumo de caça.

Não menos importante era deixar o suficiente para atender as onças e outros predadores como sucuris e jacarés. As ideias de Maí, apoiadas no seu instrumental de trabalho e controle por ele criado, não deixou passar esta parte.

Finalmente seu voto foi vencido com as aldeias da região tendo que abandonar o lugar como de costume, em favor de matas mais intocadas e por isso mais ricas de alimentos. Deixariam o lugar por pelo menos três anos.

O caçador guardou seu mapa e nas novas aldeias, tratou de preparar outro com novas referências. Longe de desanimar, teria o mapeamento das aldeias originais e do aldeamento seguinte, por conta do nomadismo do seu povo. Nada que outro pedaço de canoa invertido não contribuísse mais uma vez oferecendo um uso mais nobre e decisivo.

As indicações e localizações de armadilhas se multiplicavam. Era importante que houvesse uma forma simbólica de registro, para que os próprios aldeões não se vissem em apuros, cruzando trilhas repletas de armadilhas. Algumas dessas trilhas foram criadas com este propósito, atraindo os animais com o cheiro de fezes ou esfregando seus corpos nos arbustos da trilha.

Idealizara formas de fazer os animais correrem em trilhas específicas, onde as armadilhas já os esperava. O número de técnicas aumentou ao longo dos anos, enquanto os mapas recebiam novas informações.

Pelo caminho e tirando proveito do relevo do lugar, idealizava arapucas e armações das mais diversas formas. Havia o fosso com pontas de bambu viradas para cima, muito bem camuflada no meio da trilha.

O laço camuflado, preso em um galho extenso e flexível. A rede, inspirada nas redes utilizadas para dormir. Esta servia para prender e levantar animais enredados e vivos. A tora,  tirando proveito do movimento de pêndulo, pesada e repleta de hastes pontiagudas.

Uma estrutura lembrando um portão cheio de pontas que se fechava violentamente ao se tensionar um cipó rente ao chão. Em futuro distante chamariam tal armação de portão malaio.

Os arcos e flechas tensionados, armas igualmente acionadas mecanicamente pelo movimento do animal cruzando o local de disparo, utilizando normalmente três arcos e flechas, um ao lado do outro.

A toca, havia sido concebida a partir de uma abertura natural em um paredão. Idealizou ainda as combinações de armadilhas, colocando fossos nas laterais da toca, e novamente o fosso logo adiante de uma sequência de flechas.

Após verificar o terreno, construiu dois fossos camuflados, um à direita e outro à esquerda da gruta transformada em armadilha. Agora bastava esperar que algum animal mais distraído aparecesse.

De certo modo deu a lógica. Os porcos do mato, se permitiam capturar com um pouco mais de facilidade, seguido por macacos e veados mateiro. A onça, esperta e arguta, não se permitia capturar tão fácil.

Um homem inteligente e sagaz, orgulhoso de seus feitos, pode tudo, menos permitir que a vaidade lhe suba à cabeça, pois é neste momento que os riscos aparecem como que para avisar que a floresta é de todos. Dos mais capazes, mas também dos mais atentos e ariscos.

A população crescia e a caça era suficiente para todos. Os mapas de localização e controle cumpriam adequadamente seu papel, ainda que não os compreendessem direito, dependendo do próprio Maí para interpretá-los e traduzir aos demais as informações contidas nele. O caçador por experiente e arguto que fosse, não conhecia a escrita. Seu povo era ágrafo, e assim seus mapas não possuíam escritas, nada nem parecido com legendas e instruções.

Espreitava uma onça e decidiu conduzi-la na direção do paredão, e se possível, da toca. A operação foi exaustiva, porém depois de toda uma manhã, viu o animal se deslocar e assumir a direção da toca, se aproximando da entrada. Bastaria um único toque no mecanismo logo após a entrada para que caísse na armadilha.

Procurou se aproximar silenciosamente. Qual não foi sua surpresa ao constatar que o animal já não estava mais no mesmo lugar. De súbito desaparecera de suas vistas. Aproximou-se mais ainda da armadilha e não identificava o rumo tomado pelo animal.

Ao virar-se de costas para a toca, lá estava ele, o felino caçador, tão arguto e destemido quanto ele mesmo. Havia contornado o local e se colocado silenciosamente na antiga posição de Maí. Os papéis estavam completamente invertidos.

O caçador sentiu que não teria muito tempo para pensar no que fazer, antes que o animal saltasse sobre ele e liquidasse a história de uma vez. Repentinamente lhe ocorreu aquela que acreditava ser a sua única saída. Correu e se atirou dentro da toca, fazendo desabar o portão camuflado sobre a entrada. Assim acreditava que estaria em segurança, pelo menos temporariamente.

Foi quando, submetido à tensão do momento, sua memória falhou, comprometendo todo o desenvolvimento daquela que seria sua fuga.

Ao tornar a se virar e correr na direção da gruta, atirou-se dentro do buraco acionando o portão. Ato contínuo, a onça saltou na sua direção enquanto o portão tombava, o que, na mente de Maí o colocaria em segurança. Entretanto, esqueceu-se de um detalhe.

Quando o portão cai, aciona uma trava que impedia que ele fosse aberto de dentro para fora, mas de fora para dentro, ele poderia ser aberto, precisando ser travado manualmente.

O que se sucedeu é que o animal, ao saltar, colidiu com o portão enquanto este descia e se fechava, como consequência disso, acabou adentrando a gruta logo após o caçador. Entrou no impulso e no susto, sem ter tempo dele próprio de ensaiar uma fuga. Quando se deu conta estava preso dentro da toca trancado com o caçador bem ao seu lado.

O que se deu a seguir foi sinistro. Chekren Maí foi esquartejado ali mesmo, por um animal que não queria devorá-lo, de tão assustado que estava.

Inteligente e sagaz, no momento de seu único e fatal erro. A onça, retida na armadilha, terminou morta a flechadas pelos caçadores de Maí. O de seu líder, o maior caçador da tribo, estava irreconhecível. Seu espírito assistiu a chegada e a ação final de seus companheiros. Envergonhado, não queria mais ficar no local e se afastou. Sentia-se culpado pelo ocorrido.

Seu corpo despedaçado foi recolhido pelos demais caçadores e sepultado junto de suas armas. Também decidiram que o felino, o maior caçador da região seria enterrado junto com ele.

Os mapas de Maí, com o tempo perderam o interesse, pela falta de um bom intérprete que fosse capaz de ler todas as informações contidas nele, informações estas de grande valia para a sobrevivência de toda a tribo.

Por quase trinta anos Maí os utilizou e contribuíram para manter a exploração do terreno sob equilíbrio. Os mapas chegaram a ser guardados por mais de cem anos no âmbito dos descendentes de Maí, até que, por falta de uso, já não se sabia mais para que eles serviam. Não foram considerados peças sagradas. Então foram abandonados e transformados em lenha para fogueira.

Como isto se fez possível? Como um instrumento de registro e informação, tão habilmente construído, guardando contribuições de décadas de experiências e aprendizados pôde simplesmente  ser transformado em lenha para o fogo?

Foi a dinâmica populacional daqueles tempos.

Com o aumento da população sobreveio a saturação dos campos de caça, que já avançavam por sobre as terras antes só utilizadas pela vida nômade. O mundo vivido por aquele povo começava a ficar pequeno.

Assim, ao ter de ampliar seu território, o choque com tribos vizinhas tornou-se inevitável. Se viram obrigados e buscar novos espaços não submetidos a disputas, se afastando das terras originais onde o caçador havia crescido, vivido e mapeado. O desequilíbrio preconizado por Maí havia chegado.

Sem alguém que compreendesse a necessidade de se mapear novas terras, e que soubesse fazê-lo, os mapas se tornaram cada vez mais mentais, portanto, sem representação gráfica. As informações retornaram ao domínio das lembranças da cultura da oralidade. Os mapas originais então, para as novas gerações, se tornaram peças inúteis.

As ossadas, encontradas em 1953, não eram capazes de contar a história de Maí, o habilidoso, paciente e criativo caçador que dominou aquelas terras por quase quarenta anos.

O sítio arqueológico apenas atestava a presença de um homem sepultado junto de suas armas e de um grande felino. No cemitério indígena, indicavam o seu status e o respeito de seu povo, que lhe era devido.

Também não houve quem pudesse fazer a ligação entre as ossadas e uma antiga lenda sobre um caçador que ali viveu 800 anos antes, uma vez que seus descendentes deixaram suas terras de origem, e já não viviam mais no lugar há vários séculos.

A lenda contada aos mais jovens e em outras terras, foi se tornando fragmentada e perdendo o seu brilho original. Na verdade, seu povo foi açoitado por algo que ficou conhecido como a guerra bacteriológica, que dizimou sua população.

Assim, o tempo, a natureza, a mudança das populações, a própria história, o fato de não possuírem uma escrita, aliados a decomposição dos materiais, se juntaram todos, e acharam por bem esconder os vestígios que pudessem contar aos demais a verdadeira história e a vida de Chekren Maí.

Contudo, nada se perdeu de fato. Reintegrou-se ao grande patrimônio espiritual dos seres das matas e das águas, das terras do hemisfério Sul e de todo o mundo, onde nada se perde, apenas se transforma, mudando de dimensão.

O caçador Maí, submetido a tempos difíceis, de luta pela sobrevivência, em ambiente que podia se tornar hostil e perigoso, cumpriu com o seu papel.

Se não houvesse os conhecimentos necessários para se superar as adversidades de ambiente tão rude, a vida humana na selva poderia muito bem, estar sob risco.

Esta foi a missão do caçador. Deixar claro que, com inteligência, é possível fazer oposição aos riscos oferecidos pelas feras, e ao mesmo tempo contribuir para a alimentação de sua gente.

Poderia com muita propriedade afirmar: Vim, vi, venci. Pois foi exatamente isto que aconteceu.

O espírito do valente caçador, uma vez cumprida a sua nobre missão de disseminar conhecimentos que permitissem a segurança e a sobrevivência nas matas amazônicas, finalmente partiu sob a marca da rudeza nua e crua de seu tempo. Contudo, a missão estava cumprida.

Já o fenômeno da vida, este prossegue, infinito como sempre foi. Vida eterna, vida para sempre.

                                             FIM

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