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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

As coisas decidiram falar

Por: Antonio Mata

Só se ouvia, malmente, os passos por sobre o piso de tábuas. Até que surgiu um comportamento estranho. Ninguém tinha perguntado nada. Mas, ouviu-se mesmo assim:

— Se está pensando que pedaços de paus e tábuas, tudo velho e carcomido, vão resolver os problemas de habitação desse lugar, pode sair daí de cima. Antes que eu quebre e você veja isso que está aí embaixo mais de perto. — O pedaço de tábua já fazia o seu manifesto.

— É, é mesmo, talvez fique mais fácil para ele entender. Já encheu o saco essa gente que só passa aqui para olhar. — A marola sacudiu a água suja, mas só para concordar.

Ficou atônito vendo e ouvindo aquilo. Não havia ninguém ao seu redor. Pareciam gritar, até as coisas estavam gritando com ele. Pensou em bater à porta de alguém, mas, em seguida, desistiu. Sem o vento, o lugar estava fétido. 

Ainda balbuciou algumas palavras. 

— Mas, eu não fiz nada. Não entendo do que vocês estão falando.

— Claro que você fez. Vi você observando as palafitas e essa bagunça toda que fizeram aqui. Veio mentir para essa gente.

— Ah, então é isso? Achei horrorosa essa água preta por debaixo da favela. As marés, as ondas, as correntes, sei lá. Alguma coisa deveria estar limpando essa sujeira toda. Levar para longe daqui.

— Quem foi que disse que o papel das ondas é limpar a sujeira de vocês? O mar agora virou lixeira. E você aí, o que pretende fazer? O mesmo que os demais?

— Isso não é problema meu. Eu nem moro aqui. Essa gente tinha que ser retirada e acabarem com esse lugar. 

Um certo pedaço de tábua não gostou da resposta e decidiu agir por sua própria conta. De tão podre que estava, partiu-se, deixando o homem cair na água estagnada e fétida. Lá debaixo principiou a gritar, pedindo por socorro. 

Perto dali algumas pessoas cochichavam junto a uma janela. 

— É aquele doido de novo. Ele chega aí e fica falando sozinho.  Dessa vez, acho que não olhou onde pisava e acabou caindo lá em baixo.

— Vai acabar morrendo de câncer, aids ou rubéola naquela água.

— Para de falar besteira e vai ajudar o homem. 

— Tá, mas ainda nem escovei os dentes...

Talvez por isso, há quem afirme que em algum momento os mares irão colocar para fora muito da sujeira que receberam ao longo dos séculos.

Depositarão os entulhos de volta. Nas praias, nas enseadas, na foz dos rios, até mesmo de volta às favelas e às belas residências e condomínios à beira-mar. 

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