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As lições do grande rio

                                                                                 

                                                                                                                                            Foto: Wikimedia commons

Por: Antonio Mata

Lançaram a canoa no rio, ainda na madrugada; bem antes do amanhecer. Pai e filho; ainda teriam pela frente duas horas de remo e esforço; antes de chegarem no melhor trecho para a esperada captura de tucunaré.

O rio estava no início da vazante, as águas ainda satisfatórias para esse tipo de pescado. Então existem as depressões, os buracos onde os peixes gostam de se acomodar; para assegurar uma coluna maior de água sobre suas cabeças, quando a estiagem for mais intensa.

Ainda que o rio estivesse mais cheio, estavam na véspera de lua cheia. Os homens sabiam que nessa condição, encontrar também o tambaqui é algo bem mais fácil para aquela época. O igapó, berço da seringueira “barriguda”, criava o alimento preferido dos tambaquis. A vagem seca da seringueira, literalmente explode, liberando suas sementes. O tambaqui presta atenção nas muitas explosões, sinônimo de comida. É a experiência de cada um que irá indicar o tipo de peixe do dia.

É o jeitão do peixe; com o tempo os mais jovens aprendem. Os tambaquis juntam-se em quantidade em um espaço pequeno. Agora é a vez do caboclo; é por isso que saíam cedo e remavam tanto.

Dá para pegar com anzol e caniço, no espinhel aos poucos; se for para casa. Se é para vender, levar no mercado, ou no barco comprador; é melhor pescar de malhadeira.

Para o tucunaré, movimentam a tarrafa por sobre a cabeça e a lançam, de tal  modo que as chumbadas, nas extremidades da rede circular, forçam para fora e estendem a armadilha. Pronto, agora é só deixar prender os peixes.

Atingiram o trecho do rio repleto de depressões ainda antes das quatro horas e meia. Amanhecer no lugar certo fazia parte. Lançar cedo a rede, encher rápido a canoa para partir logo.

Francisco sabia que precisaria voltar rapidamente, a tempo de vender logo a produção daquela manhã.

Chico do olho torto, assim chamado por conta de um acidente, ainda garoto, ao lançar os anzóis, quando um lhe rasgou sua pálpebra direita; deixando uma cicatriz muito evidenciada que puxou o apelido.

Remando na direção da pequena cidade, lamentava não dispor de uma canoa maior e uma grande caixa de isopor. Além do seu sonho de consumo, até o momento apenas algo distante; um motor de rabeta.

A máquina que o afastaria do seu próprio passado, ao tempo de seu pai e de seus avós. Todos haviam pescado de canoa e de remo. O tempo havia passado e Chico ansiava por dias melhores.

O fato, é que a geração de seus pais e avós, e parte da sua também, incluindo aí ele mesmo, ainda tocava o ato de viver dentro de um raio de aproximadamente 30 ou 40 quilômetros, raramente se estendendo. As experiências da vida estavam contidas em uma distância pouco além do pôr do sol. Afinal, havia alimento para todos. Foi o aumento da exploração que quebrou esta lógica, tendo os homens que avançar distâncias maiores.

Desde que houvesse muita disposição para remar e vencer as grandes distâncias do rio, assim como a sua sinuosidade.

Em que pese um certo primitivismo, hoje mais humanamente entendido como pesca artesanal, pois é fruto de aprendizados diversos. Fixação de técnicas aprendidas ao longo das gerações.

Onde encontrar os peixes, as épocas do ano, o equipamento mais adequado, o comportamento do rio, o comportamento dos peixes e as fases da lua faziam parte do aprendizado.

A pesca é uma das atividades mais comuns da Amazônia, e fixadora de pequenos grupos populacionais na imensidão da rede de rios, que de outra forma, perderiam sua principal fonte de proteína e de renda.

Deixou o produto do dia no mercado da pequena cidade e retornou para casa. Se retorna ao trecho do rio onde esteve pescando, só irá servir para encontrar mais concorrentes. Chegando de madrugada, a chance de ser o primeiro é bem maior.

O filho menor brinca no alto da palafita. Ao avistar a canoa chegando, se atira na água e nada na direção da pequena embarcação que se aproximava na lentidão dos remos.

Brinca de motor, agarrando e empurrando a canoa por de trás ao bater com os pés.

Mauro, ou Maurinho como é chamado em casa, aos dez anos já adentrou o contexto que um dia foi cumprido por seus avós e depois por seus pais.

A partir de um punhado de orientações da família, além de brincadeiras, foi posto à par da cultura fluvial de seus ancestrais e do lugar. Em pouco tempo se faria herdeiro e necessitado de conhecer e praticar tudo aquilo.

Por hora, Maurinho assumia suas lições como pequenas brincadeiras compartilhadas com os irmãos, e as crianças das famílias mais próximas.

Para um garoto, aquele universo era grande. Cheio de surpresas e novidades; repleto de histórias impressionantes contadas pelos mais velhos à luz de lamparina.

Entusiasmado com os feitos dos homens do rio, naquela atitude infantil de se mostrar capaz, de querer contribuir com aquilo que via e acreditava já estar aprendendo; Mauro quis então pôr em prática as novidades daquele universo novo e repleto de aventuras, pensava.

Aproveitando-se de um dia em que seu pai estava na mata, acompanhado do irmão mais velho. Mauro tomado de coragem, mas também de um desejo honesto de servir, achou por bem tomar a iniciativa.

O menino descuidou-se das recomendações de seus pais e tão logo se viu sozinho, tomou da canoa e saiu rio adentro, na sua primeira e solitária aventura.

Remando no intuito de primeiramente se afastar de casa, Mauro não se deu conta de que estava se deslocando cada vez mais na direção do meio do grande canal. Na faixa central a correnteza é mais intensa; e o canal mais profundo.

Trouxera consigo, o espinhel preparado pelo pai, já que não teria nem a força, nem a técnica para lançar a tarrafa e fazer uma grande pescaria. Não queria deixar de retornar triunfante para casa, com a canoa cheia de peixes. Afinal tinha um bom plano.

Ainda que os rios da grande planície corram lentamente, a velocidade das águas, no centro do canal, para um menino superar no remo; é algo que exigiria esforço considerável.

De qualquer modo, bastaria remar em linha reta, na direção da beira do rio, e em uma diagonal chegaria à margem. Dessa possibilidade; Maurinho já sabia.

No afã de fazer a coisa certa, pensava em lançar o anzol tão logo chegasse no igapó. Lembrava da fala de seu pai e dos vizinhos quanto à movimentação dos peixes na época de lua cheia. Então, supôs estar correto.

Na movimentação sobre a canoa para superar a corrente central, Maurinho desequilibrou-se e perdeu o remo. Seu único remo caiu no rio se afastando gradativamente.

Não demorou e o garoto se deu conta do ocorrido. Começava o primeiro momento perturbador de sua pequena aventura. Enxergava o remo flutuando à meia distância.

Impulsionando a canoa, ora de um lado com a mão direita, ora do outro lado com a mão esquerda. O tempo passava e o cansaço foi mostrando ao jovem canoeiro a impossibilidade de atingir o seu intento de forma tão primária.

Com as mãos de um adulto seria um grande desafio. Com mãozinhas de dez anos, mostrou-se impossível. Por mais que se esforçasse, Maurinho rapidamente perdeu contato visual com o remo. Qualquer banzeiro já o encobria.

Estava chegando a hora de desistir do remo. Outro desafio se apresentava igualmente difícil ante ao insucesso do primeiro. Manejar a canoa para fora do centro do canal, rumo à beira do rio e à segurança. Ora, não era para isto que precisava do remo?

Começava a compreender que se conseguisse ficar parado, seria mais fácil de ser localizado, caso alguém na vila desse falta dele e da canoa. A constatação do ocorrido seria óbvia; assim pensava. Tratariam de pegar suas canoas e ir encontrá-lo. E desde quando rios ficam parados?

Percebia a canoa sendo empurrada lentamente para o lado para o qual remava com as mãos. Só não o suficiente para superar a corrente principal e poder chegar na margem.

Lembrava das recomendações de seu pai, no sentido de não bater com as mãos na água, pois isto provoca a atenção de predadores que podem estar espreitando por perto.

Bastaria uma cutucada de um jacaré-açu e tudo estaria perdido. Podendo ainda ser enlaçado rapidamente e ferozmente por uma sucuri, que o derrubaria e o puxaria para o fundo das águas. Isto se dá na beira do rio, só não era este o seu caso.

Se esforçava por se lembrar de alguma recomendação dos pescadores que pudesse ajudá-lo naquele desespero e desolação. Lembrava de várias coisas; aos poucos tudo relembrava.

Não haveria por que se preocupar com um cardume de piranhas. Estava sem sangramento, e também não ouvira recomendações quanto a presença de piranhas no meio do rio.

Pensou em certa ocasião, quando ficou sabendo que um peixe tão grande quanto perigoso é a pirarara. Peixe capaz de abocanhar um homem, bastando que ele esteja dentro d’água.

Ficou feliz ao se dar conta de que a canoa, mesmo sem remo, era segura caso a pirarara surgisse bem na sua frente. Os monstros do rio adentravam o imaginário infantil do jovem aprendiz de pescador com toda a sua força, e todo o seu terror.

Mauro sentia o sol intenso queimar a sua pele desprotegida. Pelo sim, e pelo não, pegava um pouco de água com as mãos em cuia e jogava no corpo quase nu, no estilo dos garotos ribeirinhos nas suas aventuras diárias.

Pensou mais um pouco e se deu conta de outra coisa. Não dispunha de uma cuia, nem lata, nem nada que pudesse ajudá-lo a retirar a água de dentro da canoa no caso de chuva.

Isto chegava como um novo tormento. As chuvas intensas são comuns em todos os meses do ano. O aguaceiro poderia surpreendê-lo, sem que nada pudesse fazer para, pelo menos, tentar esvaziar a canoa.

Maurinho vislumbrou o seu novo terror, fruto de uma realidade que já tinha visto e que, já tinha escutado da parte dos homens da vila; tudo misturado com a imaginação de um menino assustadiço e solitário.

Canoa no rio grande, durante uma tempestade é algo por demais perigoso. O próprio banzeiro pode alagar tudo mais rápido, além de virar a canoa em pouco tempo.

Correnteza, sucuris, jacarés, pirararas, piranhas, ventos, banzeiros e tempestades. Os monstros do rio poderiam levá-lo para o fundo quando menos esperasse. O pequeno Mauro nunca se sentira tão abandonado e tão perdido.

O sol depois de lhe queimar a pele, a ponto de ficar com o rosto e avermelhado, agora se punha por sobre a floresta. Pássaros faziam revoadas e se dirigiam ao alto das árvores. Em breve iria escurecer.

Um breu cobriria o canal e as matas ao longe. Os sons se tornariam distantes. Se os ouvisse mais de perto, saberia que estava próximo da margem.

Atordoado e confuso, divagando em sua mente, o jovem aventureiro esqueceu-se da época de lua cheia, fator que o motivou a partir na sua primeira e solitária pescaria.

Não levou muito tempo para sua luz prateada e suave se fazer notar. Na sua agonia, foi um pequeno e bem-vindo alento. O fazia lembrar das noites de luar na companhia dos pais e dos irmãos em frente de casa.

As conversas sobre os fatos ocorridos naquele dia; e as inevitáveis histórias do rio. Como aquilo era bom, como aquilo lhe doía. Se julgava culpado por não atender as sucessivas falas de seu pai, de sua mãe, do irmão mais velho; para tomar cuidado, ter sempre alguém mais experiente por perto quando fosse fazer alguma coisa.

Em um dado momento, uma coruja rasga-mortalha piou ao longe; anunciando ao canoeiro da sua presença. Era um rio gigante sob o céu cheio de estrelas. A coruja acha de piar para um garoto perdido e atormentado dentro de uma canoa. Pensava o menino, acreditando ser para ele.

— Vai embora! Eu não estou doente; eu não estou doente; eu não estou doente...

Dizia Maurinho sem parar, entre a razão e medo das coisas na escuridão da floresta. Sua mãe o havia contado sobre a rasga-mortalha.

Contou sobre o seu piado estranho, parecido com trapos sendo rasgados. Se cruzasse sobre a casa de um doente, não haveria mais o que fazer; era indicativo de morte.

E se ela resolvesse sobrevoar o rio? E se cruzasse por sobre a sua canoa? Mesmo ele não estando doente. Aquele som estranho matraqueava dentro de sua cabeça agitada.

As lágrimas corriam no rosto do jovem explorador, que na sua ousadia infantil, havia posto tudo a perder por pura precipitação. O corpo queimava, a cabeça doía; a consciência de menino arrependido pesava. Cansado, com o embalo da canoa descendo o rio; adormeceu.

Vai ser agourenta assim lá no meio do mato! O que uma coruja não faz no imaginário das pessoas. Quanto mais na cabeça de uma criança.

Na vila, a miríade de coisas que poderiam ter acontecido com o pequeno Maurinho, só dependia do narrador e da emoção colocada em sua narrativa.

Todos estavam consternados com o ocorrido. Quando Francisco deu falta do filho, do espinhel e da canoa; a resposta era por demais evidente. Chamou os demais homens e partiram em suas canoas naquela expedição, bem o sabiam; mais de esperança do quê de salvamento.

Já se encaminhava para o final da tarde. A primeira coisa que lhes ocorreu era que o grupo deveria se separar. Enquanto algumas das canoas tomavam o rumo dos igarapés próximos, outras seguiam para as áreas usuais de pesca.

Nestas haveria a chance maior de encontrar o garoto. Enquanto isso, outra descia o rio grande remando forte, na esperança do menino estar vagando no meio do canal, por puro desmazelo, ou por não conseguir sair.

A noite caiu com os homens buscando enxergar algum vulto significativo; em qualquer coisa que aparecesse boiando nas águas prateadas de luar.

Enquanto prosseguiam, gritavam por Maurinho na esperança de se obter uma resposta, por distante que fosse. Mas não havia; só os sons distantes da floresta, com o cantar triste e solitário dos pássaros que dormem de dia e caçam de noite.

Aqueles que enxergam no escuro. A suindara com seu canto agudo; a rasga-mortalha, de canto estridente e incomum. Maurinho não responde; enquanto a noite calmamente avança.

Francisco já entendia que quanto mais o tempo passasse, menor seria a chance de encontrá-lo. Para um menino ficar sozinho no meio do rio é perigoso. Ficar sozinho na beira do rio à noite; também não é uma boa saída.

Decidiu-se que continuariam descendo o rio até o amanhecer, gritando de quando em vez, na esperança do menino, em um golpe de sorte, de repente pudesse responder.

Então amanheceu. Os homens insones, olham ao redor e não se vê nada nem parecido com uma canoa. A angústia começa a tomar conta de Francisco.

Ainda podia aguardar o retorno para verificar se os demais canoeiros não o teriam encontrado mais perto de casa, em um dos igarapés que saíram a percorrer. Devem ter feito buscas até altas horas, tanto quanto Francisco descendo o rio.

O pescador, desolado e aflito, fazia considerações verdadeiras. Afinal, ainda não tinha notícias sobre as demais buscas; era cedo para desanimar. Haveria de persistir mais um pouco, e confiar na Divina Providência; o recurso de pobres e ricos, que ampara a todos e certamente não abandonaria seu filho.

Ao passarem nas imediações de um barranco, um dos homens deu conta de um tronco, ou qualquer coisa parecida. Remaram na direção do tronco, que visto mais de perto; era sim uma canoa.

Poderia ser uma canoa velha que, abandonada, desceu o rio. Não era a primeira vez que via algo assim. Não se importou, pôs força no remo para chegar bem perto. Então pôde ver uma criança encolhida dentro da canoa; parecia dormir.

— Maurinho! É você, meu filho! Te achamos, meu filho!

Palavras de júbilo da parte daqueles que não desistem. Daqueles que assumiram o compromisso de fazer a vida sobre os rincões amazônicos. Mauro, o pequeno aprendiz de pescador havia sido encontrado, exausto, mas com vida.

Indagado por seu pai sobre como conseguiu chegar até ali, contou como havia perdido o remo e tudo começou.

— Já tava clareando pai, acordei com o barulho da água batendo na canoa. Levantei a cabeça para ver onde me encontrava. Eu queria sair do meio da correnteza. Contou o garoto, ainda exausto.

— Eu vi pai, era peixe-boi, tinha dois. Estavam empurrando a canoa na direção do barranco. Em uma parte mais rasa, empurraram até prender a canoa.

Em seguida, com a mesma tranquilidade com que Maurinho os viu empurrando a canoa, se afastaram, e em um mergulho desapareceram rapidamente nas águas barrentas.

Francisco ficou cismado com as palavras do filho, mas o seu rosto cansado não passava nenhuma impressão de que estivesse mentindo. O menino estava agradecido pelos animais o terem retirado do rio.

Então foi assim, e haverá sempre quem duvide,  e trate como algo inventado. A típica conversa de pescador, que às vezes mentem, mas às vezes só aumentam.

O que se sabe, é que lá por aquelas bandas, muita gente ainda  lembra e ainda conta a história do garoto Maurinho, que no desejo de ser reconhecido pelos demais como um bom pescador, acabou perdido no grande rio. 

Só foi salvo pela compaixão dos bondosos peixes-boi, que resolveram resgatar o menino. Se é verdade, se é mentira, o fato é que a história ficou na mente dos mais novos, que se acomodavam junto ao fogo nas noites de luar.   

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