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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

As terras centrais

                                                                    

Por: Antonio Mata

A manhã inteira de espera e imobilidade. O sol a pino já cobrava seu tributo, no cansaço evidente. Isto era o trivial que a vida lhe ensinara, aquilo que tinha de saber. Não era só isso, tudo estava apenas começando.

O lugar otimizado, encontrado nas muitas andanças pela chapada. Aprendera com seu pai, que aprendera com seu avô, que recebera de outros antes dele. Um achado notável que assegurou e assentou a presença de um bando com mais de sessenta pessoas.

Sem registros totalmente compreensíveis, na realidade pintavam no paredões rochosos, cenas de batalhas pela posse do lugar. Não foi uma nem duas vezes, que tiveram que lutar pela manutenção daquela armadilha e de todo o entorno, ante a pressão de outros grupos humanos. O bando vencedor, havia se fixado a uns nove quilômetros dali, em uma encosta, próxima a um córrego.

Os abrigos tinham uma singularidade. Eram verdadeiras cavernas, com mais de dois metros de altura e dezenas de metros de profundidade. Na realidade, tocas arredondadas de Glyptodons, tatus gigantes, escavadas nas encostas de argila, afastadas da área de caça, porém próximas o suficientes para servirem de base. Os homens podiam ser das cavernas, mas estratégia, é estratégia, mesmo que por indução ao raciocínio.

E os tatus gigantes que viviam ali naquelas tocas? Bem, com o tempo eles comeram todos, até se apoderarem dos ossos, e inclusive das ótimas moradias.

A área de caça era de fartura, de comer e de beber. Pelo menos meia dúzia de homens haviam perecido na defesa da área, até o momento, só naquela geração. O terreno era valioso demais para ser perdido.

Era sempre assim, seis ou sete homens saíam para a tocaia, enquanto nove ou dez permaneciam com o bando. Atenção e vigilância era dever de todos os dias. A armadilha natural e as tocas eram por demais valiosas.

 

Posto contra o vento, lentamente acenou aos demais, alertando que se aproximava o momento, o motivo de toda aquela espera. Os homens aguçaram as vistas, e silenciosamente aguardavam a passagem da grandiosa presa, capaz de alimentar o bando por muitos dias. Porém, tudo precisava sair dentro do estabelecido.

Ao menor sinal de presença humana, bastaria um cheiro diferente, o estalido de um galho, um único som, e o gigante desconfiado, se bateria dali para as matas próximas. Bobagem querer pegá-lo em campo aberto ou nas matas. Quem tentou morreu.

Que espécie de lugar era este pelo qual se vivia, e pelo qual se morria?

Em outros tempos passados, houve um solapamento. Naquelas terras onde o solo estava misturado com blocos rochosos, aos poucos surgiram pequenas fissuras no solo, as ravinas. Uma delas se intensificou, e ao longo do tempo formou grande voçoroca. O rasgo sobre a terra possuía uns vinte metros de comprimento. Começava com uns seis metros e terminava com a profundidade de uns doze metros ou mais, variando de dois a quatro metros de largura.

A água das chuvas, encontrando rochas mais resistentes pelo caminho, se acumulava no fundo rochoso por pouco tempo, onde em uma formação parecendo um funil, permitia a passagem lenta das águas, mas não a passagem dos grandes mamíferos que habitavam a região.

Pequenos detalhes que talvez não dissessem muito. Para uma população que aos poucos aprendeu a deixar o nomadismo e se fixou, não pelo plantio, mas por ter encontrado uma sutileza da natureza do lugar. Uma armadilha que nenhum homem montou. Ela apenas estava lá. Uma central de abastecimento à moda antiga.

Os paredões formados ao redor e no núcleo inferior da armadilha de natureza rochosa impedia a fuga de um mastodonte, por mais que tentasse fugir do lugar. O mais provável é que se quebrasse na queda. A altura da queda, o grande peso do animal, e os paredões, anulavam as vantagens comparativas do animal em termos de defesa; não havia saída.

Com a presença dos caçadores, o que antes era um túmulo para animais incautos, tornou-se um fosso de matança.

Aos primeiros habitantes do lugar, munidos com lanças de pontas de pedra, ficou fácil entender que tão cedo, não sentiriam vontade de sair dali. Assim, desde o primeiro punhado de habitantes que vagavam pelo lugar, a população do bando começou a crescer, surgindo a luta pela posse da terra. Isto há mais de 20 mil anos.

A necessidade sempre foi mãe da invenção. Mesmo para quem dependia de paus e pedras. Foi observando um Eremotério, a preguiça gigante, escorregar e cair na armadilha natural, que sobreveio a ideia de se criar um piso falso, coberto com folhagem.

Ao longo das gerações a técnica foi aperfeiçoada, chegando-se ao esmero. A tela de gravetos finos, pacientemente coberta com folhas, frutas e galhos produziu um ótimo efeito. Eremotérios; gliptodontes, o grande tatu; mastodontes; tombavam com frequência, descendo às cambalhotas, até o fundo do funil.

O temível Smilodon, o felino  dente-de-sabre, era uma presa mais rara. Desconfiado, olhava ao redor cheirando o ar, parecia entender o que estava acontecendo. Quando avistava um dos homens, a morte era certa.

Sendo que o felino marcava o lugar. Se fosse no intuito de não mais voltar, havia uma situação. Se fosse marcado como um local para se tocaiar e capturar homens, o perigo era dobrado.

Quando se pretendia combater um perigo certo e líquido, a melhor defesa era o ataque. Fazia-se uma trilha, o começo de uma armadilha para animais interessados em caçar homens. Era quando se aplicava o procedimento contrário.

Buscava-se fazer o homem aparecer. Jatos de urina, fezes pelo caminho, e o suor das axilas e virilhas, esfregados a pouca altura nos galhos das plantas, marcavam o terreno, tudo de um homem só, até o ponto em que o animal caçador, se descobriria caçado.

Naquele cenário tão distinto e belo quanto perigoso, pequenas coisas é o que realmente igualava os contendores em sua luta diária da vida pré-histórica. A desatenção, e com ela a chance de um acidente.

Um jovem Gliptodonte, um idoso Eremotério,  ou qualquer animal apressado e desavisado, se arriscariam na beira do falso piso, querendo frutas ou um pedaço de carne.

A grande quantidade de ossos, no fundo da garganta, atestavam a eficiência da armadilha natural. Os homens se especializaram naquele tipo de caçada.

Uma presa tão rara quanto difícil, rondava a armadilha sem querer avançar. Observava o pedaço de carne bem no meio daquele monte de folhas, trocadas com frequência para não despertar suspeitas.

A carne é a mais fresca possível. Normalmente pequenos mamíferos ou roedores. Quando não, utilizava-se carne guardada no fundo da terra, e reservada para o evento. Mãos habilidosas que cuidavam das folhas e das iscas, primeiramente eram esfregadas na gordura dos animais para ocultar os odores humanos.

O belo e poderoso Smilodon cheirava as imediações da garganta, parcialmente encoberta, enquanto decidia se pegava ou não o apetitoso pedaço de carne de anta, colocado à sua disposição, parecendo uma carcaça recente e abandonada.

Enfim se decide e adentra o tapete de folhas. Ao sentir o tapete e os galhos se desfazerem sob suas patas, atira agilmente o corpo para o lado, tentando fugir da ameaça, que naquele momento, é para ele, apenas o ato de cair. A queda, nunca bem-vinda, sempre temida. Sinônimo de um monte de coisas que não prestam. Até o gigante felino sabia disso.

As patas impulsoras traseiras, submetidas à mesma armadilha, se apoiam em folhas e galhos finos, perdendo toda sua potência. Seu pior pesadelo, aquele que poderia custar sua vida, havia acabado de chegar.  A queda em lugar desconhecido e isolado, era o seu terror.

Ruge em desespero, enquanto se estatela por sobre a pilha de ossos dentro da garganta. Fere uma das patas e fratura uma costela na queda. Desconhecendo a dor, com o sangue encharcado de adrenalina, o desesperado se arremessa para o alto repetidas vezes, no afã de superar os paredões da garganta.

Já não dá mais, em pouco tempo se aquieta acuado e perturbado, em meio ao monte de ossos, que lhe dificultam firmar as patas. Logo a dor irá fustigá-lo tremendamente, atestando sua sina.

Tenta voltar, mas é impedido. Rapidamente, ao sinal do caçador mais velho, porque mais experiente, se aproxima com o grupo de caçadores. Com toda cautela, cercam a saída do animal no alto da armadilha. É o único que consegue escalar de volta. Dente-de-sabre sempre foi o perigo sobre a terra. Animal de tocaia, tanto quanto eles próprios.

O inesperado acontece. Um abençoado, figura de todos os tempos, dos antigos e dos modernos, se manifestou. Dos 20 mil anos passados, e do ano que passou. Capaz de despertar a inquietação no mais tranquilo dos homens.

Todos se aproximavam com cautela, menos um, de uns vinte anos presumíveis. Se adianta ao grupo, e já na beira da garganta, faz menção de arremessar sua lança. Agora era seu pé esquerdo, que deveria sustentar seu corpo para o arremesso. O ato precipitado irá custar caro, a si mesmo e ao bando.

Escorregou na folhagem solta e úmida ainda, do início daquela  manhã. Se viu dependurado na borda da garganta, aos poucos cedendo ao próprio peso.

O líder ao perceber o perigo, se lança na direção do rapaz, no intuito de puxá-lo de volta, antes que caísse de vez, e fosse estraçalhado pelo enorme felino, acuado no fundo da garganta, e tentando subir.

De súbito, agora era sua vez de escorregar. Consegue alcançá-lo, e segura sua mão, mas não consegue retirá-lo dali. Lentamente os dois se movem na direção da pequena e perigosa garganta, onde um animal, ferido e furioso, o devorador de carnes, em breve se tornaria sua fatal companhia.

O olhar aterrorizado do rapaz, ante o monstro que avança sobre eles, não deixará nenhum tipo de registro, que não sejam seus ossos dilacerados por sobre a pilha.

O líder escorregando lentamente sem largar a mão do mais novo, tem um último rompante de bravura e determinação. Com a mão direita, prepara aquele que será seu último golpe de lança, visando o peito do felino descomunal. Já ciente da queda e desequilibrado, desfere o golpe com força, coragem e toda a firmeza possível.

A lança resvala no peito da fera ao esquivar-se, oferecendo pequeno corte, e isto é tudo. O círculo da vida, agora se fechava rapidamente por sobre todos dentro da armadilha.

A fera enlouquecida avança e arranca a cabeça do jovem que caiu logo à sua frente. O líder agora se encontra desarmado, e de frente com aquilo que fora parte de sua própria existência.

Quantas vidas poupou, quanto o bando crescera apoiado em sua liderança de coragem e valor? Quantos grupos humanos não sofreram nos anais da história muda, ou simplesmente se extinguiram, pela ausência da obstinação em viver de um líder?

Apenas espera a conclusão de tudo. Os demais caçadores atiram suas lanças. O dente-de-sabre ruge de dor, mas a reação imediata é o ataque. E o mais vulnerável está logo ali, a poucos palmos, tão imobilizado na garganta quanto ele próprio. Desde a queda, passaram-se não mais que seis ou oito segundos.

Não houve tempo para transformar tudo em angústia, um sentimento que adentra aos poucos e corrói muito devagar. Tudo já se perdeu. Há um fosso de matança para a fera, há um fosso de matança para si mesmo.

O salto curto do felino põe fim ao drama. O líder é estraçalhado a ponto de não se reconhecer mais o seu corpo. Para o Smilodon, é a sua última ação. Ferido de morte, a fera tomba ao lado do bravo caçador.

Os demais homens descem ao fosso de matança para apanhar os restos dos dois caçadores e a carcaça do felino para alimentar o bando. Perto do local, o jovem é sepultado sem a cabeça, pois esmagada, se perdeu por entre as ossadas, podendo ter entrado em algum orifício na parte inferior da garganta.

Os restos mortais do velho líder foram sepultados com sua lança, e adornado com penas coloridas e contas perfuradas, que atestavam seu status e sua força no grupo. Uma forma de honrar aquela perda irreparável.

Pela primeira vez, desde que chegaram naquele lugar, o bando perdera dois homens na mesma caçada. Mérito inegável do falecido líder.

Dois espíritos, dois caçadores, assistem ao seu próprio sepultamento. Depois se deslocam e caminham lentamente pelo cerrado, sua terra de berço, da qual ao seu jeito, aprenderam a amar.

Ao sabor do tempo, as ossadas fossilizadas seriam o seu atestado de vida por sobre aquelas terras. Dos poucos que havia, com o tempo continuariam se propagando por aqueles rincões. Aos milhares, se estabeleceriam como os primeiros humanos, os paleoíndios, nas terras centrais e nos litorais do Brasil. Seus cabelos negros e olhos escuros, de pele morena, se fizeram sua herança. Seu sangue heroico e valente ainda corre entre nós. 

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