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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Bateia

                                  

Por: Antonio Mata 

Água na altura da cintura, saía lentamente já encerrando, perto do escurecer mais um dia de trabalho. Na manhã seguinte, bastaria brilhar os primeiros raios de sol para se iniciar tudo mais uma vez. A vida do faiscador se dá assim, dentro d’água.

Às vezes é tanta luz que machuca as vistas. Às vezes tem tanta sombra que não se vê o sol. A pele queima e escurece dia a após dia com a bateia na mão. O dia todo, todo dia, até envergar a espinha, diria um deles.

Intervalo para tirar os pés de dentro d’água e comer o peixe e a farinha ali mesmo, debaixo de pequena palhoça. É no sol, é na sombra. Se faísca até na chuva.

— Tem hora que tá bom. Da gente pensar que vai tirar o pé da lama, do lodo e dar um rumo na vida. Dizia.

— Pra depois descobrir que com a primeira pepita, veio a segunda e a terceira. Valei-me Nossa Senhora!

— não deu nem pra comemorar porque depois não veio mais nada.

— Aí leva pra vender na cidade. Se fizer 5 mil reais, já tá valendo a pena. É difícil, mas se fosse impossível, muita gente já tinha abandonado a bateia e ia tratar de procurar emprego na cidade. Se não se faz isso, é porque a faiscação de bateia ainda é capaz de dar dinheiro.

— Quando achei minhas três pepitas fiz 42 gramas. Isso dá uns 4400 reais. Em um dia só, ganhei quase um mês. O garimpo tem dessas coisas. Naquele mês fiz mais de 10 mil reais. Também é verdade que não consegui repetir aquela faiscada. De vez em quando um e outro colega acertava a mão e fazia 10 mil.

— Quando vem o ouro, o normal e vir como uma espécie de pó brilhante. Tem que prestar a tenção e ter paciência. Não é serviço para se fazer no escuro não. como ninguém tem a certeza de que vai achar ouro, muita gente trabalha assalariado.

— Já tive meu tempo de passar o mês sem quase nada de ouro. Não se fazia 200 reais. Tinha gente que não fazia nem isso. É por isso que é muito arriscado. Aí vem as máquinas, e aqueles que trabalham empregados. Vão procurar grande quantidade. A maioria paga 1300 reais para o empregado, e uns poucos pagam 2 mil. Eu ainda prefiro trabalhar sem ser empregado.

— O pessoal conta que tem gente que tem tino pra ouro. Acho que deve ter mesmo. ainda não vi ninguém ganhar muito. Só ouvi muita história. Mas já vi fazer um dinheiro bom. Igualzinho a mim, daquela vez. Isso eu já vi. Só não foi o tempo todo, depois baixava de novo.

— Aí o tempo vai passando e a gente vai vivendo. Uma vida solitária, uns dentro d’água, outros dentro da lama, atrás do ouro.

O país produziu em 2021, 80 toneladas de ouro registradas em qualquer tipo de produção. Junte-se a produção ilegal e a estimativa chega a 111 toneladas. Aproximadamente metade é produzida por faiscadores.

  

 

 

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