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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

O sobrevivente

                                                                     

                                                                                                                                                        Foto: Marlen Damn

Por: Antonio Mata

Cruzava as ruas e as percorria, sempre atento e sempre pelos cantos. Prestava atenção nos sons, todo e qualquer som, qualquer vibração. Preferia fazê-lo à noite não somente por uma questão de segurança, mas também por uma certa objetividade.

Tinha um certo entendimento das coisas. Podia ter seus defeitos, mas não era burro. Se fosse burro, pagaria com a sua própria vida. Prestava muita atenção, muita cautela; agilidade e versatilidade.

Era evidente que precisava comer. Passara o dia preocupado com isso, porém, à luz do dia não contaria com a compreensão dos demais. Talvez, de uns poucos; mas não seria propriamente para com ele. Gostavam mesmo era de guardar a comida, e em quantidade; em certos lugares.

Tinha que dar seu próprio jeito de chegar perto daquelas despensas. Sem poder contar com a ajuda ou interesse de ninguém, a saída era uma só. Tinha que agir, se esgueirar como um ladrão; e isto era tudo.

Habilidade número um para a sobrevivência, saber identificar o lugar da comida e da água, habilidade número dois, como obtê-la. Somente sendo ardiloso para dar conta da empreitada.

A necessidade de ter de fazê-lo diariamente poderia muito bem transformá-lo em um mestre da ação e do escape. O tamanho diminuto, longe de ser um problema; era parte da solução.

Era sempre silencioso e sorrateiro, difícil se pegar. Compreendeu tanto esta lógica, e era tão dependente dela que se tornou capaz de executá-la praticamente o ano todo, com um mínimo de risco, de exposição ao perigo; e quase sem perdas.

Se transformara em um sobrevivente por excelência. Os milênios, as eras e o que mais houver, que se preocupassem em passar. Este era o seu papel principal, o seu talento, forjado ao longo de sucessivas e incontáveis existências. Sobrevivente calejado pelo tempo.

Resiliente, estava em todos os recantos do mundo, desde as terras frias e nevadas das latitudes elevadas do Alaska até os limites da Terra do Fogo. Com uma ficha corrida dessas, como se ainda não bastasse; era prolífico.

Estava perto e já era noite. Próximo à sarjeta desandou em uma correria na direção daquela que era considerada uma verdadeira cidade. Existia lá, um casarão transformado em depósito de comida. Bastando apenas, roer alguns sacos. O lugar, era cheio de tubos, canos e túneis.

Ah! Se não houvesse. Roeria até o cimento e os tijolos dos muros e das paredes, a madeira das portas. Tinha que entrar, tinha que passar, o chamamento era magnético.

Havia uma coisa que apreciava, e muito naquele tipo de vida. Eram os passeios noturnos e as corridas pelos inúmeros esconderijos do lugar. Aquilo sim era fantástico. Latas de lixo transformadas em verdadeiros supermercados.

Foi a invasão do casarão velho. Farinhas um dia, grãos no outro, eventualmente algum resto de carne seca. Ali ninguém morreria de fome, desde que houvesse motivação para se mover, buscar e crescer. A fome também ensina.

Infelizmente, a vida é dura. Quem dera fosse sempre assim, aquela fartura. O que aconteceu foi que tuneis e tocas rapidamente se encheram de confrades. É assim, um trabalha, mas é só descobrir que todos querem a mesma coisa.

Gatos começaram a circular pelo depósito improvisado. Na saída dos buracos e dos tubos surgiram armadilhas. Comida envenenada apareceu nas passagens e dentro dos túneis.

O perigo passou a espreitar o lugar. Tudo foi ficando cada vez mais difícil. Os corpos espalhados todas as manhãs e outros tantos pisoteados dentro dos túneis putrefatos avisavam que havia chegado a hora de estender a busca.

Nas imediações haveria de se encontrar mais alguma coisa, senão houvesse e se o cerco persistisse, seria preciso abandonar o lugar, e pela enésima vez começar tudo outra vez.

Um benfeitor espiritual, profundo estudioso e conhecedor das diversas espécies de roedores da Terra, apaixonado pela biologia destes filhos da Criação e por sua espetacular resiliência.

Apreciava notadamente, aqueles que acabariam por infestar as aglomerações humanas, observava o casarão transformado em depósito, junto a seus discípulos, tão estudantes e tão apaixonados pela biologia quanto ele próprio.

Um dos estudantes então, lhe dirigiu a palavra:

— E agora Diogo? O nosso desbravador do início da história, vetor de mais de três dezenas de enfermidades, sobreviveu à matança do casarão. Certamente que guiará as suas crias a outras fontes de alimentos, mais uma vez.

Os animais que deixaram a terceira dimensão já foram todos recolhidos, mas uma quantidade muito grande vai continuar sendo guiada para outras paragens e subsolos da cidade; e se espalhando cada vez mais.

Diogo pensou um pouco, e então lhe respondeu:

— Sim Luiz, é isso mesmo, isto é verdade. De todo modo, precisamos enquadrar este cenário de desequilíbrio naquilo que pode equacioná-lo de forma coerente. Continuou:

— Observemos que enquanto os homens não forem capazes de cuidar uns dos outros, tal e qual afirmou Jesus, o Mestre de todos nós. Este animal, transformado em praga, em milenar “Flagelo de Deus”, se fará presente, tal e qual um instrumento; para lembrá-los desta inadiável necessidade. Todos ouviam a fala de Diogo, que prosseguia:

— É preciso a compreensão de todos. Diminuir a enorme disponibilidade de lixo, seria muito importante. Um cuidado mais adequado dos alimentos em casa, e dos grandes depósitos da cidade também. Tornou a fazer uma parada.

— Por conta de padrões vibracionais, estes roedores são atraídos para dentro das cidades. Veja que estavam em relativo equilíbrio populacional dentro dos espaços da natureza, que sempre os recebeu. Adentraram as cidades em busca de comida? Sim, é claro que sim.

— Agora, se estabeleceram na cidade porque encontraram uma população de padrão vibratório muito próximo do seu. Assim, por efeito de lei, se sentiram em casa, bem recebidos; e trocaram as tocas na floresta e nos campos pelos esgotos fétidos e tubulações, onde se sentem muito bem.

— Então veja que existem, no caso do homem, verdadeiras construções mentais impulsionadas pela Lei da Afinidade. A invasão de roedores só caracteriza praga quando começa a atingir grupos de pessoas. Enquanto isto não acontece, pobres e ricos permitem que eles vivam em paz, mesmo sabendo que são vetores de dezenas de doenças. Percebem?

— Não se trata de cuidar e de se prevenir uma só família ou bairro. É preciso cuidar de toda a cidade, sem exceção, até que o animal se reequilibre dentro de sua taxa de natalidade, e a praga se extinga pelo esforço humano. Concluiu Diogo.

A Lei do Trabalho faz parte de todos os cenários humanos, pois somos todos nós, aprendizes desta lei.

Somente assim conseguiremos detê-los na sua expansão; em definitivo. A ciência Luiz, é muito importante no seu papel; a consciência também.

Que ninguém se iluda, só o reconhecimento do outro será capaz de ajudar a reconstruir a vida de bilhões de seres humanos submetidos à espreita de incontáveis males. Só o amor ao próximo será realmente capaz de fazê-lo. Quando o homem, então, terá cansado de lutar sozinho.

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