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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Brasil sobe

        

                 Foto: Wikimedia Commons 

Por: Antonio Mata 

 

Aquilo já havia se transformado em um hábito; um bom hábito. Levantou-se pouco antes do nascer do sol, deu um jeito nos cabelos. De tênis e moleton iniciou a caminhada corriqueira que começava com 17 minutos até a praia.
 
Caminhava com o sol nascente diante dos olhos, rumo ao diferente, ao inusitado. Coisas das quais não fazia a menor ideia. Contudo, a hora e a vez de tais coisas havia chegado.
 
O amanhecer foi ensolarado, de poucas nuvens; passarinhos festejando um lindo dia. Nada mais particularmente novo para lhe chamar a atenção. A oferta daquela manhã de verão já lhe parecia ser o suficiente.
 
Miriam não desceu à beira-mar, gostava de caminhar mais acima. Bastaria avançar uns 20 minutos e em seguida era só retornar para casa no sentido contrário.
 
Não estava preocupada em fazer planos, afinal era domingo; nem para o dia seguinte. Só queria aproveitar o frescor da manhã.
Ao completar os 20 minutos habituais, no intuito de retornar, e de relance divisou a beira-mar, completou a meia volta. Porém, diminuiu a passada e prosseguiu observando.
 
Parou.
 
Colocou-se de frente para o mar e firmou a vista. O que prendeu sua atenção, foi algo que nunca tinha visto, desde a sua adolescência. Conhecia aquela praia a mais de 20 anos. Nem nas conversas com antigos moradores e frequentadores do lugar. Nunca havia escutado nada sobre aquilo.
 
Adentrou o areal, descendo na direção da arrebentação, a linha demarcada pelas ondas. Que evidentemente não é estática, mas cujo comportamento ela conhecia. Bastava observar as placas indicativas junto à praia. Este era o problema que prendeu sua atenção. As ondas na praia deveriam estar a uns cinquenta metros da placa, mesmo com maré alta.
 
Avançou até onde a arrebentação deveria estar. Entretanto, as ondas estavam quebrando mansamente a pelo menos quinhentos metros, para além de onde ela se encontrava. Em toda a extensão que ela conseguia alcançar, olhando para os dois lados, era a mesma coisa.  O mar se recolheu, havia se afastado.
 
Os montes de algas trazidos pelas águas poucos dias antes, ainda estavam lá, demarcando a linha habitual. Caminhando nas imediações daquela nova extensão da praia, podia ver conchas, pedras; objetos que foram perdidos.
 
De súbito, aquilo começou a mexer com a sua mente, de um jeito muito pouco comum. As horas gastas na frente da tv, nas salas de cinema; e aquela coletânea de mídias que marcaram a virada do século. Tudo mostrando cenas daquele tipo e todo o espectro sinistro que veio depois.
 
Seus neurônios juntaram toda sua cultura de almanaque, expressa em milhares de imagens e vídeos; e a resposta era tão obvia quanto impensável. Antigamente chamavam aquilo de indicação de maremoto, aquele provocado pelo celacanto. A mídia norte-americana eternizou aquele fenômeno como “tsunami”. Pois é, o celacanto que provoca maremoto não existe mais.
 
Em que pese a proliferação de imagens e vídeos na rede mundial sobre o assunto, a ciência assegura, concretamente, que se as águas do mar se recolherem de maneira anormal, elas vão querer voltar em algum momento, e isso não demora.
Largou aquela cena e principiou a correr.
 
Naquela manhã de domingo, sem vivalma por perto para contar, para conferir. Esqueceu de vez a caminhada e buscava colocar a cabeça para pensar.
 
— Peraí Miriam, chame alguém, conte isso para alguém. Falava consigo mesma.
 
Começou a ligar para os amigos, buscando encontrar alguém acordado. No celular marcava 06:05h, ninguém atendia. Lembrou-se que a casa da Fabiana era próxima e que estaria em casa com a família. Quis retornar a correr, mas não sem antes de fazer umas duas ou três imagens, claro. Afinal, aquilo era único; e precisava ser registrado.
 
Chegou correndo até a casa da amiga. Gritava e batia na porta insistentemente. Fabiana acordou com aquela berraria, e do andar de cima pôs a cabeça para fora.
 
— Miriam, para com isso! Que foi que deu em você? Tá todo mundo dormindo!
 
— Fabiana, desce aqui rápido, preciso te mostrar uma coisa logo. Se não fosse importante, eu não estaria aqui gritando na frente da sua porta.
 
A amiga desceu e abriu a porta.
 
— Fabiana me escuta. Fui caminhar pela praia, como faço há muito tempo. Só que dessa vez, eu vi uma coisa muito estranha que me deu um susto danado.
 
— Você viu o quê afinal?
 
Perguntava a amiga entre a surpresa e o descrédito.
 
— Fabiana, o mar recuou, o mar recuou muito. De uma forma totalmente anormal, eu nunca ouvi falar, nem vi isso antes. Acho que deve ter recuado bem mais que quinhentos metros, sei lá. Olha só isso aqui, acabei de fazer estas fotos.
 
De fato, a placa de segurança comunicando períodos impróprios para o banho, próxima de Miriam, com as ondas, bem mais ao fundo, deixavam antever algo, pelo menos diferente naquelas imagens.
 
Nisso, Helder, marido de Fabiana, desceu para saber o que era aquele falatório, e já tão cedo.
Miriam repetiu tudo mais uma vez, e lhe mostrou as fotos daquela manhã. Helder, portador da mesma cultura de Internet, olhou para Fabiana e falou, com todas as letras.
 
— É um tsunami gente. Tem um tsunami vindo para cá.
 
— E agora, o que vamos fazer?
 
Perguntava Miriam. Foi o próprio Helder quem deu a resposta.
 
— Vou pegar o carro, vou até à praia e já volto.
 
— Vou contigo Helder, quero lhe mostrar exatamente onde eu estava.
 
— Tudo bem. Fabiana a gente já volta.
 
É bem verdade que o retorno de Miriam à praia não serviria para nada, mas a ansiedade já estava tomando conta, e ela também não notou.
 
Pegaram a pequena estrada rumo à praia, alcançando rapidamente o local onde Miriam estivera e fez suas fotos. Pela dimensão do evento, cobrindo todo o litoral visível, nem teria sido necessário.
 
Helder, um tanto quanto abismado, pensou em algo, dessa vez um pouco mais útil.
 
— Miriam vem comigo. Vamos percorrer as casas aqui da frente. As pessoas precisam ser avisadas, e rápido.
 
Principiaram a gritar pelos moradores do lugar junto às casas, acordando cães, batendo nos portões e nos gradis, no afã de chamar a atenção do povo, ainda debaixo dos lençóis daquele domingo inusitado. O celular de Fabiana indicava 06:34h.
 
Alguém colocou a cabeça para fora, sendo logo avisado a respeito do que estava acontecendo. Logo a seguir, havia mais um curioso e sonolento caminhando na direção dos dois barulhentos. As reações àquele barulho eram as mais incomuns. Um dos moradores esticou a cabeça para fora e berrava:
 
— Onde você pensa que está seu idiota?!
Helder gritava da rua.
 
— O mar, olhe para o mar!
 
— Manda a sua mãe olhar para o mar, seu nojento!
 
E bateu a janela, indignado.
 
Em que pese os conflitos observados, pois não foi só uma vez. Ainda assim, um grupelho de pessoas deu-se ao trabalho de sair de suas casas e entender o motivo do barulho. Desceram até a praia, acompanhando Helder e Miriam, e igualmente abismados entenderam logo. Internet também é cultura.
 
Lúcio, um dos que saiu para ver aquilo, foi quem iniciou o ciclo de indagações e especulações dessa vez.
 
— E agora, o que mais podemos fazer?
 
Ailton, outro residente, respondeu.
 
— Vamos continuar até acordar o bairro todo.
 
Hélio, outro morador, acrescentou outra dúvida ao cenário de especulações.
 
— Esse negócio ainda está se afastando? Já parou, como vamos saber?
 
— Precisamos marcar de alguma forma. O que chamou a minha atenção foi a posição da placa. Então precisamos marcar, enquanto outro grupo avisa os demais. Fabiana, mais refeita, se antecipava em respostas e orientações. E continuou:
 
— Olhem só, vamos marcar com estacas próximas à linha das ondas. Assim dá para saber se ainda estão se afastando ou se já parou.
 
Alguém arranjou algumas estacas de pau, para marcar perto da linha das ondas, como Miriam havia sugerido.
 
— Então,  quem vai lá mais perto para enterrar os paus?
 
Seguiu-se um silêncio pouco convidativo, e típico de quem não sabe o que está fazendo, e muito menos por que razão está na praia vendo o mar recuar. Já que a sensatez e o senso de sobrevivência “gritava” para dar no pé dali o quanto antes.
 
Com uma cara, parecendo cachorro quando mostra os dentes, só que assumindo um ar de desprezo pelos demais, e este é humano mesmo. Helder pegou as estacas e foi até perto da linha de arrebentação para fixar os marcadores. Assim poderiam ter uma ideia mais clara do que estava acontecendo. Pelo menos era assim que pensavam.
 
Um grupo seguiu para avisar os demais moradores. Miriam ficou na praia junto a outra curiosa. Alguém precisava cuidar dos registros e as duas não perderiam isso por nada. Nem que as ondas resolvessem voltar por sobre as elas.
 
O celular de Miriam marcava 07:22h.
   
Era muita imagem, com foco e sem foco; com enquadramento e sem enquadramento; com ponta de dedo e, ah! Sem colocar a ponta do dedo também. Muito videozinho de 30 segundos, um minuto ou dois. Quando se juntava tudo, 90% não servia pra nada. Até porque, bom..., deixa isso pra lá.
 
Ficaram na companhia do Helder, até que outros vizinhos começaram a sair de suas casas para saber sobre a dose de verdade que havia naquela história de tsunami.
 
Uma senhora de uns 70 anos, presumíveis, gritava do meio da rua, chamando pelo marido.
 
— Jaime, Jaime! Vem aqui logo vem ver, depressa!
 
Um homem de idade igualmente avançada apareceu na porta da casa, e com a mão em concha junto à orelha, procurava entender o motivo daquele rebu todo promovido por sua mulher, e no meio da rua.
 
— É o quê, Estela, não tô entendendo nada.
 
— Jaime, homem de Deus, é o tsunami, meu filho. Tá chegando!
 
— Ah, tá chegando, entendi. Avisa que eu vou tomar café primeiro. Depois eu passo aí também.
 
— Deus tenha piedade, o que o Jaime tem de rabugento, tem de surdo. Vai morrer sem saber como nem por quê. 
 
Concluía dona Estela ante ao pouco caso, ou talvez à surdez de seu marido.
 
— Calma dona Estela, ainda estamos só observando, não tem nada confirmado ainda. Dizia Maria Augusta, a segunda fotógrafa.
 
Eram 08:16h, indicados no celular de Miriam.
Nesse ínterim, ela, que não deixava de fuçar no seu celular de jeito nenhum, sumiu até das conversas e divagações, que prosseguiam sob a sombra das poucas árvores junto à orla.
 
O grupo discutia sobre as chances do sinistro ocorrer. Alguns cálculos tão interessantes quanto especulativos começaram a surgir. É bem verdade que expressavam as apreensões daquele momento, sem nenhuma informação concreta.
 
Jaime, já refeito pelo seu café da manhã, se apresentava mais compreensivo, e dizia:
 
— Olha, esse bicho avança, assim dizem os pesquisadores, a 600 quilômetros por hora. Pelo menos foi o que eu li. A onda que se formou na Malásia, então, levou cerca de oito a nove horas para chegar na Somália. Com todo mundo de olhos bem abertos e com aquele ar de quero mais, Jaime prosseguiu.
 
— Se considerar os dois pontos mais próximos entre o Brasil e a África, dá uma distância qualquer por volta dos 3 mil quilômetros. Então o seu tsunami chegaria aqui cerca de 6 horas depois de um terremoto qualquer. Isso tudo de uma forma bastante simplista, é claro. Concluiu Jaime.
 
— Que horas são? Perguntou Helder.
 
— São 08:53h, e eu tô com fome. Dizia Miriam; sendo ela mesma que já voltava para o grupo.
 
— Gente, olha só isso aqui. Eu nunca vi.
 
A pequena turba amontoou-se para ver o que a telinha do celular da Fabiana mostrava naquele momento. Logo estariam todos à cata daquelas mesmas imagens. Virou um frenesi, ou, como diriam os mais íntimos “viralizou”.
 
Ficaram por um tempo, como que meio abobados mexendo em seus “smarts”, e cada cabecinha era tal e qual uma ilha. Nem se falavam mais; aquelas telinhas capturaram sua visão; suas falas e suas mentes. Era uma hipnose coletiva.
 
O que havia de tão incomum? Lá no início, Miriam mostrava imagens do litoral do Brasil. Havia a  Praia de Touros, no litoral do Rio Grande do Norte; Pajuçara, em Alagoas; Mosqueiro, no Pará. E a lista seguia com nomes históricos, Itapoã; Copacabana; Armação de Búzios. Do Leme ao Pontal não havia mais nada igual. Nas telas, o que se via é que agora era tudo diferente. O Atlântico recuava por todo o litoral brasileiro.
 
Surgiu uma onda de murmurinho, expressando perplexidade e surpresa. O assunto era um só, e a conversa se estendeu.
 
Com Miriam já eram quase 09:30h.
 
Alguém lembrou dos cálculos do seu Jaime e chamou a atenção dos demais.
 
— Se um tsunami cruza o Atlântico em seis horas e a Fabiana viu tudo lá pelas seis; só que já acontecendo. Acho que se fosse para chegar esse capeta, já deveria ter chegado.
 
— Tem certeza? Objetou outro. 
 
Já meio farto daquela história, foi Jaime quem fez uma sugestão.
 
— Gente, sugiro que vocês aguardem mais um pouco. Eu vou aguardar em casa, qualquer coisa me avisem, por favor.
 
Meia dúzia dentre os presentes se propuseram a ficar. Helder voltou para casa, e Maria Augusta, que já tinha os registros de que precisava, desistiu de esperar pelo tsunami e também voltou para casa.
 
Nisso, chegou-se às dez horas, que virou onze. Mais tarde, com o seu celular marcando 12:14h, Fabiana fez aquela que seria  a sua verificação final da posição das estacas. O mar continuava recuando, a partir da posição inicialmente marcada. Outros vinte metros se somavam às estimativas anteriores.
 
O calor aumentou, a fome também e o tsunami não veio. Fabiana estava dividida entre a alegria e o aborrecimento. Alegria, pois o tsunami capeta, não iria mais arrasar a cidadezinha que a viu crescer correndo pela praia; e que amava de paixão.
 
Aborrecimento porque a barriga roncava, e aquela bagunça tinha liquidado com a sua manhã de domingo. Voltou para casa de tênis na mão, com o moleton encharcado de suor e a barriga vazia. Em seguida, os demais acabaram fazendo o mesmo. Assim como o velho Jaime, foram esperar o tsunami em casa.
 
Ninguém aventou, nem prestou atenção, nem pensou nisso. Havia um mundo em convulsão sendo remodelado, para além das confusões, ansiedades e conflitos humanos. Remodelado nas energias, nas almas e nas formas.
 
Então, agora é o momento de assumir tuas profecias, sonhos e alentos. Agora é a tua vez, sobe Brasil. 

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