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histórias, crônicas e contos

Caminhos da escuridão

                                                                                

 

Por: Antonio Mata

 

Sonhos da juventude

Chegou mais cedo no emprego, pois era dia de descarregar o caminhão que não tardava a chegar. Colocara-se à frente do empório, enquanto prestava atenção nas pessoas que passavam em um e outro veículo.

Enquanto isso, carroceiros transportando toda sorte de cargas passavam preguiçosamente pelo canto da rua, deixando o espaço livre para os mais velozes e mais pesados.

O “cabeça de cavalo” chegou abarrotado com 1200 quilos de carga. Um Chevrolet 1926, trazendo sacas de cereais; sacos de pimenta-do-reino; tambores de querosene; latas de gordura de porco; peças inteiras de queijo parmesão; bacalhau salgado e rolos de charque.

Tinha ainda fumo de rolo; caixas de charutos e de cigarros. Uma coisa muito procurada, farinha láctea. O dono do empório fazia questão de oferecer de tudo, um pouco.

Teobaldo, lhe colocou o primeiro saco nas costas para acomodar na loja. Descarregava a camioneta enquanto pensava no que fazer dali para a frente.

Não estava muito interessado em ser carregador, uma mistura de guindaste com caminhão vivo, pensava; e muito menos no futuro promissor de um vendedor de secos e molhados.

Esperava com a maior ansiedade o fim de semana, pensava ainda. Estava perto de concluir seu curso de oficial da reserva, e dessa forma obter uma condição melhor de emprego. Se destacara com méritos nos exercícios e atividades do curso.

Mostrou-se um aluno aplicado e resoluto. A despeito de passar a semana no empório e os fins de semana correndo para a Quitaúna, nos confins de Osasco, lá no quartel do 4° Regimento de Infantaria, onde participava do curso.

Não reclamava da caminhada extensa, sentia-se bem assim, o esforço era exigente, mas suportável e a pouca folga também. Logo receberia sua espada e as insígnias de aspirante de infantaria, arma escolhida por ele mesmo.

Tinha expectativas quanto a permanecer e engajar na tropa. De qualquer modo, precisava se cuidar ante às dificuldades de emprego em um país em recessão.

O cenário geral era ruim. Claro que ainda havia movimento no empório, mas a queda nas vendas era apreciável. Os jornais davam conta de uma recessão mundial, na qual não estava lá muito interessado nos detalhes. Estava mais focado na sua própria inserção naquele imbróglio pelas possibilidades locais.

Fosse por ignorância, até mesmo estupidez, ou por ter planos bem definidos; o fato que não acreditava que tais notícias pudessem comprometê-lo de verdade.

Assim, também lhe atraía as possibilidades vindouras no meio civil, pois os jovens oficiais da reserva eram muito bem-vistos pela formação que recebiam, tanto no meio empresarial, como no serviço público. Com as moças era um capítulo à parte; bem à parte. Sabia da sua, em breve condição de moço um tanto quanto cobiçado pelas mães, e um tanto quanto raro, paras as filhas.

As moças adoravam aquela farda cáqui com botões pretos, botas de cano longo e as insígnias de posto. Já estava se afeiçoando à ideia de, em breve, dar umas voltas pelas ruas, com alguns colegas de turma, só para aparecer um bocado. Mal não vai fazer a ninguém; nem um pouco.

Corria o ano de 1931, quando o aspirante Adauto, por concluir, e com méritos, o Curso Preparatório de Oficiais da Reserva - CPOR, recém-criado em São Paulo, foi admitido e engajou nas fileiras do Exército Brasileiro, na arma de infantaria.

Com as bençãos de seus pais e os melhores votos de sucesso, ao jovem de 20 anos, sequioso de uma nova realidade em sua vida, para muito mais além do que os caixotes e sacos do empório; do fumo de rolo trançado e das latas de manteiga vendidas à granel.

Adauto ainda não sabia que a roda da vida já estava girando; delineando um futuro que, talvez, não fosse propriamente o que havia concebido.

 

A realidade e o sonho

Vida de soldado é diferente de se trabalhar no empório. De qualquer modo, tão logo o brado paulista fosse dado, o aspirante Adauto seria um dos primeiros a ouvir. Dessa vez as moças teriam que esperar.

Já no serviço ativo, em seu novo batalhão é que Adauto começa a se dar conta com mais propriedade do cenário de seu tempo. O descontentamento das lideranças paulistas, era contra as medidas do interventor federal no estado, João Alberto, representante do movimento tenentista.

Em conversas na hora do rancho, o aspirante Adauto buscava se localizar em torno dos fatos.

— Notei que no curso utilizávamos fuzis para a prática de tiro, e a tropa do quartel estava armada. Agora não vejo isto; o armamento da tropa foi quase todo recolhido. Confidenciava Adauto ao tenente Rabelo, também de sua companhia.

— É isso mesmo que você está vendo. Comícios invadem as ruas da cidade, o país sem uma constituição. Havendo, portanto, um governo que ainda não possui reconhecimento. O que existe é uma junta provisória de governo, com Getúlio Vargas à frente. O problema é que ainda não resolveram sair. E muita gente não está gostando. Prosseguiu Rabelo.

— O pano de fundo é que São Paulo se sente um estado desvalorizado, seja pela recessão, seja pela falta de apoio dessa junta. No Rio Grande do Sul e em Minas Gerais também existe descontentamento; e até mesmo no Rio de Janeiro. Muita gente quer eleições e uma constituição. Já São Paulo não abre mão de um governador paulista. Concluiu Rabelo.

— Isso está parecendo briga de cachorro grande. Então a tropa deveria permanecer operacional, não acha? Indagava Adauto.

— Não entendeu Adauto? Um não confia no outro. Integrantes do Partido Democrático foram presos e a Gazeta teve seu prédio invadido e foi empastelado por se opor a esta junta provisória. Dizem que João Alberto, que nem é daqui, foi o mandante. O interventor não confia na tropa aquartelada no estado. Só que a tropa também não confia nele.

— Então o interventor se adiantou e mandou desarmar as tropas em São Paulo. Só por prevenção, não é? Porque são paulistas.

— Viu só aspirante, viu como você aprende rápido? Neste governo, os tenentistas mandam mais que os generais. Este é o resumo da história, pode-se dizer. Completou Rabelo encerrando a rápida conversa.

A chegada de 1932 traria novos desacertos que só serviriam para fazer ferver o caldeirão político e social do país. O interventor de São Paulo, João Alberto, foi afastado. Porém, seu substituto não mudava em nada a insatisfação com o Governo Provisório.

Os comícios se sucediam, e no Rio de Janeiro, tropas federais empastelaram o jornal O Diário Carioca, que incitava a população contra os apoiadores do Governo Provisório.

Para além do conhecimento dos jovens tenentes, a conspiração já havia tomado conta de São Paulo, onde militares tramavam derrubar, não a junta provisória de governo, mas o governo ditatorial, com o apoio de tropas que viriam do Mato Grosso, além do apoio de gaúchos e mineiros.

O general Isidoro Dias Lopes e o coronel Euclides de Figueiredo, assumem o comando das tropas revolucionárias paulistas.

A roda da história se pôs a girar.

A instabilidade do momento precipitou os acontecimentos. Em 9 de julho, Rabelo, sério e em passos rápidos, encontrou Adauto na companhia comunicando de viva voz os últimos acontecimentos e a ordem consequente.

— Prepare seu pelotão, as folgas e dispensas estão suspensas. O batalhão está em estado de prontidão. As demais unidades estão sendo avisadas da ordem. O capitão quer a tropa no pátio em dez minutos. Pronto soldado, se era isso que você queria, conseguiu. A revolução vai começar, aguarde novas ordens.

Entre a surpresa e a confusão, o oficial ouviu a notícia e partiu para cumprir a ordem recebida. Havia ingressado no Exército, certamente consciente do cumprimento do dever, se assim se fizesse necessário.

Porém, lhe escapava uma visão mais ampla do que aquilo pudesse de fato significar. Queria servir ao país por quatro ou cinco anos, e depois buscar emprego no meio civil, apoiado na experiência na condução de homens.

Agregando conhecimentos práticos do meio civil, queria ser um bom gerente. Retornaria à vida civil, arranjaria uma esposa bonita, filhos, e assim seria feliz. Que mal há nisso?

Passou o resto do dia na expectativa de novas ordens, que fatalmente viriam. A cidade de São Paulo no dia seguinte, estava sob controle dos revolucionários, e o movimento cresceu tomando o estado por inteiro.

Havia como que um frenesi que tomou conta do povo. A multidão em júbilo falava de guerra como se fosse a coisa mais trivial, comum e mais natural do mundo.

A sociedade civil, nas rádios, nos jornais e na panfletagem clamava por voluntários e incentivava a juventude a ingressar nas juntas de alistamento militar.

Mulheres mais atrevidas, gritavam na rua em tom de provocação, “ou veste a farda, ou veste a saia”, a qualquer um que cruzasse o passeio em trajes civis.

As mulheres também aderiram ao alistamento. Muitas serviriam como enfermeiras no front. Várias outras viriam a entrar em combate, em um futuro por demais próximo.

Outras tantas doariam de seu tempo e de seus esforços na confecção de peças de fardamento e utensílios militares como cintos de guarnição e capacetes de aço.

No dia 10 de julho, tropas do exército e da Força Pública de São Paulo haviam se deslocado até Cruzeiro assegurando a presença e o controle da autoridade constitucionalista na região.

Finalmente, em 11 de julho, o batalhão de Adauto recebera ordens de avançar na direção do Rio de Janeiro, tendo a tropa partido de trem até os limites do estado de São Paulo.

O clima e o moral da tropa era o melhor possível. Havia um sentido de decisão, de coisa para ser feita, e a hora havia chegado, as dúvidas do passado já haviam ficado para trás.

A ordem era avançar até o túnel ferroviário, na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro. Tomar as localidades próximas, já no estado do Rio de Janeiro; assegurar a posse dos pontos estratégicos do terreno e aguardar a chegada das tropas mineiras e dos gaúchos. Definido o novo cenário, preparar o avanço e a tomada de Resende.

 

A batalha de Rezende

Quando tomaram o túnel ferroviário, as cidadezinhas ao derredor, e fixaram o perímetro defensivo, alguém comentou em alta voz, e não sem razão:

— A próxima a cair é Resende!

A soldadesca, contente com o avanço sem oposição naquela manhã fria de quase início de inverno, achou a ideia ótima. Dependesse da atitude moral daquela tropa, o próprio Governo Provisório cairia antes do inverno chegar.

Laureano, soldado atento às conversas tratou de espalhar a boa notícia, no esforço de incentivar os companheiros.

— Resende vai cair, é quase uma certeza! Dizia sem parar.

— Resende vai cair? Já? A guerra nem começou direito. Cadê a tropa legalista que eu ainda não vi? Perguntou o cabo Ribeiro.

Mas foi o sargento Otoniel, buscando interpretar a notícia, quem ofereceu um esclarecimento adicional.

— O provável é que tenham sido pegos de surpresa, daí a ausência do inimigo. Quanto à queda de Resende, será mera consequência, desde que sustentemos a progressão com a ajuda dos mineiros.

O soldado Couto, ouvindo a conversa, foi sua vez de repassar aos companheiros, a quantas andava a guerra paulista.

— Já está decidido, vão atacar Resende. Afirmava o soldado.

— E os mineiros, quando vão chegar? Perguntava outro.

— Devem chegar logo. De qualquer modo, podem compor a retaguarda enquanto os paulistas avançam. Já estamos a caminho mesmo; é só prosseguir.

Outro, mais atento e pronto a contribuir com a elevação do moral, tomado de espírito cívico e com o senho cerrado, acrescentou.

— Companheiros se preparem, a Batalha de Resende pode iniciar a qualquer momento!

Adelson, por entre os demais, cavando trincheira para a linha defensiva, recebeu a notícia entre o entusiasmo e o temor. De um lado adorou a ideia de chegar em Resende, por outro lado, detestou a ideia de chegar lá no meio de uma batalha.

Preocupado, foi procurar seu sargento e não o encontrou, tendo então se dirigido ao tenente, comandante de seu pelotão.

— Tenente Campos, preciso lhe dizer algo muito importante.

— Então fale Adelson. O que foi que houve?

— É que acabei de saber que a gente pode chegar até Resende. Está só faltando chegar os mineiros. O problema tenente é que o meu cunhado mora lá, com a família dele, sabe. É para avisar para que ele vá com a família lá para o lado de Porto Real. É que a gente tem um parente lá, sabe? Aí é só passar uma semana por lá e depois volta, quando isso tudo acabar. Não é? Não fica melhor assim? O que que o senhor acha?

O tenente observava aquela exposição absolutamente incomum. Por um momento, ficou meio que sem resposta para o preocupado soldado. A preocupação e o pedido do soldado eram tão tolos quanto honestos.

Afinal, não era todo dia que brasileiros se encaravam em campo de batalha. O soldado tinha lá seu pingo de razão. Para não desapontá-lo, mas também para que aquilo não se tornasse motivo de comentários negativos; achou melhor acalmá-lo logo.

Não podia esquecer que Resende; forçosamente era caminho; rumo à capital da república. E tal situação poderia provocar constrangimentos e “amolecer a tropa”, coisa que ele, em sã consciência; não queria. Quantos mais poderiam ter parentes, ou mesmo amigos do outro lado?

— Adelson, veja só. A nossa possível presença em Resende, será mera consequência da caminhada. Nós vamos passar, descansar,  e depois vamos embora. Não é nosso destino; estamos a caminho do Rio de Janeiro. Além disso, Getúlio Vargas não está em Resende, está no palácio do Catete, no Rio. Compreende isso? Não queremos nada com Resende. Assegurou o oficial.

— Já que o senhor está dizendo, então está certo tenente. Então não vai ter batalha nenhuma não, né?

— Eu quero acreditar que não, Adelson.

Em outro canto, cavando trincheira, havia o soldado Júlio, um matuto daqueles de pé no chão que crescera no cabo da enxada; recrutado às pressas para a guerra paulista. Júlio, que era matuto, mas não era burro; expunha suas dúvidas sobre aquela nuvem que escurecia rapidamente.

— Ô cabo, tão dizendo que vamo invadi Rezende. Mas se vamo invadi Rezende, por quê tamo cavando uma linha defensiva cabo?

Cabo Alves, surpreendido pela pergunta, sem querer assumir que também não sabia de nada, chutou para escanteio.

— Júlio, isso é estratégia. Não tá vendo? Tem que saber enganar o inimigo. Continua cavando soldado.

Mais ao norte, o agora comissionado 1° tenente Adauto, aos 21 anos; recebera ordens de preparar uma linha defensiva com os 87 homens de seu grupamento. A prova de fogo da história de sua vida estava prestes a começar.

Uma linha de trincheiras foi escavada às pressas para receber o batalhão, nos contrafortes da Serra da Mantiqueira. Seu grupamento integrava este batalhão e a linha defensiva.

 

Novas preocupações

Seu grupamento dispunha de um único fuzil metralhador Hotchkiss M1922, para cobrir toda a extensão de seu setor defensivo, o que era sabidamente inviável. Os governistas dispunham de um número; pelo menos doze vezes maior de armas automáticas.

Enquanto os reforços dos demais estados não chegassem, precisavam assegurar a posse do terreno frente ao inimigo. A  infantaria paulista, armada com o confiável fuzil Mauser 1908, porém dispunha de poucos fuzis para a quantidade de voluntários que recebera.

Dispunham de granadas manuais de fragmentação e morteiros; além de poucas metralhadoras. As tropas se preparavam para uma guerra de posição; no estilo das batalhas da Primeira Grande Guerra.

No pensamento militar da época, isso dava certo, desde que a tropa pudesse dispor do armamento e suprimento necessários. Não era isto que Adauto estava vendo em suas trincheiras. Entendeu fácil que precisavam desesperadamente de reforços.

A artilharia martelava as posições inimigas e depois o assalto da infantaria empurrava os adversários remanescentes e ocupava o terreno. O pensamento paulista era fazer o mesmo.

Ante  a urgência de se armar a linha de defesa, pediram mais armas, equipamentos e munições. Somente semanas depois receberiam em resposta poucos suprimentos  alguns trambolhos.

Havia um dispositivo com alça de manivela, uma lâmina de aço, e uma engrenagem denteada que ao tensionar a lâmina provocava uma vibração intensa, na frequência de onda de um tiro de fuzil.

Havia muita ansiedade na condução daquele cenário. Não se sabia quem chegaria primeiro à linha de trincheiras, se os apoiadores da revolta, ou as tropas legalistas.

Foi sem demora que obteve sua resposta. Os mineiros haviam virado a casaca e não iriam mais apoiar São Paulo. Estavam vindo para oferecer combate às tropas paulistas.

Como “la piccola miséria è miséria”, não tardou para saber que os gaúchos também não viriam em apoio aos revolucionários paulistas; e sim para apoiar as tropas governistas.

O avanço até Resende foi rapidamente esquecido. O precário aparato defensivo teria de deter em breve, a pressão sobre os limites do estado, em uma guerra de várias frentes. São Paulo estava cercado.

Adauto atento ao seu setor defensivo, enviava esclarecedores para identificar a aproximação das tropas governistas. Os primeiros combates na linha defensiva, não se deram nas trincheiras, mas no encontro entre patrulhas dos dois lados em conflito.

Após uma refrega, uma patrulha, com dois homens muito feridos, retornou para a relativa segurança da linha de trincheiras.  Haviam topado com a vanguarda legalista.  Descobriram  que os governistas concentravam tropas diante do setor coberto por seu batalhão. Traziam, já na frente, aquilo que Adauto mais temia; muito fogo de fuzis  metralhadoras.

O tenente Adauto compreendeu que a hora chegara. Despachou um estafeta rapidamente ao comando do batalhão dando ciência do ocorrido, e na mensagem indagava quando poderiam contar com proteção de artilharia.

 

Entrincheirados

Na contramão dos revolucionários, a patrulha governista havia identificado a linha de defesa paulista no sopé da serra. Agora era repassar a posição para a artilharia e iniciar o fogo de barragem; a guerra clássica.

Escaramuças entre tropas governistas se aproximando das trincheiras durante o dia definiam a terra de ninguém, uma faixa de terra entre trincheiras opostas, onde um podia prestar atenção no outro.

Foi no dia seguinte, logo ao amanhecer que o fogo de artilharia legalista, já a postos, ruidosamente começou. Uma granada, somente uma, explodiu a cerca de setenta metros da linha de trincheiras.

— Estão assestando os canhões. Estão nos procurando sobre o mapa. Assim que plotarem nossa linha, o fogo começa. Dizia Adauto ao sargento Elias ao seu lado.

Em seguida um segundo impacto, em torno de quarenta metros. O terceiro passou por cima das cabeças da guarnição, explodindo sem efeito no meio da mata.

— Estão procurando as trincheiras, e vão encontrar. Agora é esperar, dizia.

— Atenção grupamento! Permaneçam na trincheira; ela é uma linha estreita para ser martelada à distância. A precisão de tiro diminui e isto corre a nosso favor. É preciso suportar o ataque!

O jovem oficial procurava demonstrar segurança no que dizia, pois precisava tranquilizar os homens, de fato todos inexperientes no que estavam enfrentando.

 O quarto disparo estoura a menos de trinta metros. Estavam no limite de precisão. O grupamento esperou o início do bombardeio. Porém o que se observou logo depois, foi um fogo cadenciado e esparso, pela necessidade de cobrir vários setores defensivos paulistas.

— Aparentemente existem poucos canhões na área. Vão fazer barulho para nos manter onde estamos. Vamos manter a posição e aguardar a chegada da nossa artilharia.

Adauto tinha razão. Se a artilharia governista, por um lado já dispunha da localização das posições paulistas, por outro não conseguira reunir um número suficiente de peças de artilharia para martelar com eficiência tais posições.

A artilharia paulista estava atrasada. Mas a organização da campanha da parte do comando do governo ditatorial, era no mínimo canhestra. Ainda estavam reunindo unidades espalhadas por diversos estados brasileiros para enviá-las ao combate. A distribuição de suprimentos e equipamentos ainda era precária.

Era o tempo do recrutamento. Os dois lados tinham quase, ou nenhuma experiência de táticas de combate. De uma época em que a cor e o padrão do fardamento de campanha era um fator de identificação da tropa. Era o pensamento da época.

Dez anos depois, alemães, britânicos, japoneses e norte-americanos, estariam em guerra com uniformes em cores e padrões diferentes. O verde do exército brasileiro só havia sido adotado em 1930, justamente para ser diferente das outras forças do próprio país, inclusive policiais.

Na Guerra Paulista de 32, os estoques de fardamento cáqui que ainda estavam disponíveis foram todos distribuídos. Mesmo a confecção dos uniformes paulistas manteve o padrão e a cor cáqui. Não havia tempo para se pensar em outra coisa. Assim, as fardas e equipamentos das tropas em confronto eram basicamente iguais.

Um soldado que se perdesse em meio ao combate teria uma preocupação adicional. Não poderia identificar um amigo ou inimigo pela farda, muito menos pela cara do outro, já que encontraria pela frente, o rosto de sua própria gente. Os membros do grupamento precisavam pelo menos se conhecer.

Além disso, o terreno do Vale do Paraíba, é por demais entrecortado por serras, possuindo muitas elevações, normalmente cobertas de matas, o que dificultava a progressão fosse de quem fosse. Por garantia atirava-se em qualquer um que viesse no sentido contrário.

Assim, os combates se davam na tentativa de dominar uma defesa feita em linha, e controlar as estradas, a ferrovia, e os núcleos urbanos. Nas matas, faziam contraste com o verde das florestas. Todos se transformavam automaticamente em alvos.

Os dias que se passaram, entre refregas e canhoneios limitados; possuíam a exata dimensão da demora das tropas governistas em  conseguir disponibilizar o potencial de suas forças.

Quando a organização se fez, o poder dos números e das armas foi abrasador. A ordem era expulsar os paulistas de suas posições. A artilharia paulista finalmente estava a postos, mas o poder do inimigo era sabidamente superior.

Adauto não demorou a perceber o aperto que estavam vivenciando. O fogo de artilharia, antes esporádico se intensificou. O maior número de granadas no ar fazia seu grupamento perder a segurança relativa oferecida pela imprecisão de tiro. Atingir as trincheiras, ou mesmo suas extremidades, tornou-se mera consequência.

— O fogo aumentou tenente, não vamos aguentar muito tempo! Gritava Elias, enquanto o sol baixava por de trás das nuvens. Logo iria escurecer.

— Somente irei recuar mediante ordem sargento! Se lançarem a vaga de infantaria, estaremos aqui para defender. Já vai escurecer, se tomarem a posição a linha cai. Não haverá como voltar.

Próximo aos últimos raios de sol, pôde avistar à meia distância, por entre os arbustos a farda cáqui sobre o fundo agora verde escuro. Era a carga da infantaria governista no afã de realizar o ataque antes do escurecer.

Ele olhou para seu sargento, levantou-se e gritou:

— Atenção, preparar para abrir fogo!

 

Razão e escuridão

Um clarão repentino tomou conta do lugar. Um estalido intenso, como curto-circuito em rede elétrica invadiu a trincheira. A onda de choque varreu a posição.

A tropa restante buscava reação contra o ataque iminente. Adauto caído na terra, lentamente se levanta a tempo de ver os governistas saltando sobre a posição. O combate foi cruel, encarniçado e escuro.

Somente vultos se faziam visíveis, até que, com a mesma velocidade com que se iniciou, deteve-se em seguida. Parecia que os atacantes haviam se retirado.

Comandou aos homens remanescentes que sustentassem suas posições e lutassem. Tão rápido como havia se paralisado o ataque, logo foi retomado. Os contendores pelejavam mais uma vez.

A luz intensa tornou a brilhar, o estrondo, a onda de choque, Adauto sobre a terra, o esforço para comandar a defesa. A paralisação do ataque governista.

Luz, estrondo, choque, terra, defesa. E mais uma vez, e outra vez, e mais uma vez. Parecia não ter fim, não parava nunca.

Não há quem saiba dizer quantas vezes começou, ou quantas vezes tudo parou, só para começar de novo. Ao final, Adauto, Elias, a tropa, o invasor; todos pareciam verdadeiros zumbis. Em ações desesperadas e mecânicas desprovidas de racionalidade.

Elias sacudiu-lhe pelos braços, e mais uma vez gritava:

— Por que não amanhece, por que não amanhece?! Quantas vezes já lutamos, quanto tempo se passou? Por que não amanhece mais?

Adauto estava atônito, a cabeça doía extremamente e não conseguia fixar a razão no que Elias dizia. A confusão mental era permanente e intensa.

Até que em um dado momento conseguiu distinguir algo na escuridão que chamou sua atenção. Algo absolutamente bizarro.

Um dos soldados caminhava a poucos metros dele. Estava sem cabeça, procurou pelo chão, encontrou, recolheu um capacete francês clássico; pôs sobre a cabeça e prendeu o tirante do queixo. Pôs tudo debaixo do braço e voltou para a trincheira.

— Viu aquilo tenente? Perguntava Elias?

— Vi...; respondeu Adauto atônito; e agora perplexo.

Gradativamente procurou se situar e entender o que se passava. A cabeça doía e comprometia seu propósito. Quando parecia ter um pequeno reflexo de lucidez, a infantaria inimiga já se aproximava para um novo ataque zumbi.

A única e abençoada diferença, foi a quase ausência da explosão da granada de artilharia. Um sujeito saltou por cima dele e tentava esganá-lo com as próprias mãos.

Adauto, a ponto de desfalecer, balbuciava:

— A luz do sol, a luz do sol...

Até que seu oponente, em um apupo de lucidez, compreendeu. O dia não chegava nunca, simplesmente não amanhecia.

Adauto apontou para uma luz tênue, pouco visível, por entre nuvens carregadas com descargas elétricas avermelhadas. E mais morto do que vivo dizia:

— Imagino que aquilo seja o sol. Como que em um gesto de tomada de consciência, seu opositor gritou:

— Cessar o ataque, cessar o ataque, parem agora! Ao que Adauto, exausto, completava:

— Paulistas, cessar o combate, cessar o combate!

Aos poucos, ante o comando de seu líder, todos foram cessando a luta. Pela primeira vez, aquilo que um dia fora uma tropa revolucionária paulista e uma tropa federal governista, se olhavam frente a frente, sem a loucura coletiva do combate.

— Sou o 1° tenente Adauto, do 4° Regimento de Infantaria, Exército Brasileiro.

— Sou o 1° tenente Bartolomeu, 2° Regimento de Cavalaria, Exército Brasileiro.

Os tenentes olhavam um para o outro, a si mesmos e ao redor, um tanto quanto abobados, mas havia um princípio de retomada da razão, ainda que em parte; ainda que muito confuso.

O que delineavam na escuridão foi estranho, bizarro, medonho; e surreal. Soldados maltrapilhos, os olhos esbugalhados por uma espécie de hipnose. Podia ver o soldado sem cabeça novamente, tinha acabado de encontrá-la de novo.

Colocou o capacete francês na cabeça, prendeu o tirante no queixo; pôs tudo debaixo do braço mais uma vez. Como em um filme, cujo rolo foi retornado à cena anterior. As coisas, as ações recomeçavam.

Prestou atenção em outra coisa. Sargento Elias, do ombro direito na altura do pescoço, descendo até a ponta da costelas, estava com o corpo horrivelmente mutilado.

Não conseguia enxergar bem, mas parte do seu tronco direito estava exposto. Elias carregava a parte do torço que havia sido arrancada, por cima do ombro esquerdo, como se fosse um pequeno veado que acabara de caçar.

Enquanto olhava aquela cena funesta, Elias comentou:

— É isso mesmo que o senhor está vendo tenente. Além disso, dói, arde, e queima horrivelmente. Está ficando insuportável.

— Aconteceu alguma coisa. Não faço muita ideia do que possa ter sido. Mas entendo que já não estamos mais no mesmo lugar. Não estamos no sopé da Mantiqueira. Dizia Bartolomeu, procurando localizar Adauto daquilo que já conseguia entender.

Adauto, ligeiramente mais lúcido, olhou para ele e completou:

— A batalha, a explosão e o ataque de sua tropa Bartolomeu. Você levou um tiro no peito, percebe?

Bartolomeu tocou o peito ensanguentado e pensou na dor profunda que nunca cessava. Olhou para Adauto e apontou para sua cabeça.

— Você perdeu seu capacete e esse negócio entrou aí no alto, fazendo uma espécie de orelha.

Adauto tocou levemente com a mão. Um estilhaço grande, quando o projétil de artilharia explodiu clareando tudo. Estava encravado em seu crânio com aponta aparecendo, tal e qual uma orelha de cachorro. Daí a dor forte e a queimação intensa.

Se a visão era medonha, o cheiro era nojento e nauseabundo. Cheiro de munição detonada misturado com sangue, fumaça, urina e suor. O ar estava pesado; pestilento.

— Vamos tentar sair daqui. Sugeriu Adauto, com o que Bartolomeu concordou.

Assim, em um tempo que já não se sabia mais, em um terreno esquecido de Deus, e desconhecido dos homens, assim pensavam, a tropa se pôs em marcha.

A tropa maltrapilha, mutilada e digna de um manicômio, transformada pela dor em um grupamento só, cruzava a escuridão dos umbrais. Prêmio, medalha póstuma à incoerência, ignorância, orgulho e rebeldia humanas.

Foram dias, foram meses, mais exatamente anos, quem sabe décadas? Exaustos, febris, sangrando e enlouquecendo; o tenente revolucionário lembrou do empório, dos fardos e caixotes, o cheiro de tempero e o café moído na hora tomando conta do ar. Lembrou de casa, e daquela que lhe trouxe ao mundo.

Puxou Bartolomeu pelo braço e insistiu para que se ajoelhasse. Com seus oficiais de joelhos, a tropa agora unificada, os seguiu. E pediu ao Pai Celestial que é de todos, ao grande Criador de todas as coisas, o seu amparo sempre necessário, ainda que a estupidez dos homens insista em prevalecer.

A tropa unida orou o Pai Nosso, o mantra da cristandade, energizado pelo Cristo enviado de Deus, cujas palavras ecoam nos ouvidos terrestres desde então.

Sob a forma de homens resplandecentes em trajes claros, iluminando aquelas paragens sombrias, trabalhadores a serviço de Jesus; emissários e socorristas de Fabiano de Cristo se apresentaram para resgatar a tropa perdida.

Foram recolhidos para serem conduzidos à Casa Transitória. No caminho, já mais refeito, Elias que não largava de jeito nenhum seu braço e torço direito, se aproximou de Adauto e Bartolomeu.

— Estão vendo aquele que parece ser o mais idoso, de barba?

— Sim, o que tem ele, conhece? Indagou Adauto.

— Posso estar extremamente enganado, mas acho que é o mesmo que aparece em um quadro no Ministério da Guerra. Tem também uma estátua, onde está montado em um cavalo, lá em Laranjeiras, no Rio.

— Será, você tem certeza disso?

— Certeza eu não tenho não, mas que parece, ah parece.

— Pois eu também penso ser ele mesmo; assim na luz. Eu me lembro daquele quadro. Dizia Bartolomeu.

A comitiva socorrista avançava deixando aquele lugar de expiações. Perto dali a Casa Transitória de Fabiano de Cristo, já os aguardava para o atendimento aos enfermos.

Então, é assim, a história é viva, e prossegue na sua escrita; dos dois lados da vida. Nela escrevemos os melhores capítulos, e quando insistimos, por ignorância ou por rebeldia; os piores também.

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