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histórias, crônicas e contos

Canto d'ajuda

                                                                 Foto: glynn424

Por: Antonio Mata 

Diante da habitação simples, de madeira crua e poucos bens, aguardava em silêncio. O olhar, antes vivo e esperto, cedeu ao cenário de confusão que de forma estranha se acercava de seu mundo cada vez mais.

Apenas fita as águas adiante. A grande moldura verdejante das matas ainda estava lá, no mesmo lugar desde os tempos antigos. Só não é mais a mesma coisa. O olhar que fita o nada, apenas espera, é a primeira indicação. Quem diria, quem haveria de assumir que poderia ser dessa forma.

O que enxerga e entristece seu olhar é aquele filete, ao meio de  umas poucas poças de uma água suja. A torrente silenciosa, preguiçosa e cheia de vida de outros tempos desapareceu.

Já tinha visto antes? Sim, só não foi tão contundente, tão agudo. Veio trazendo o impensável, tão inusitado que ninguém sabia explicar, ou o que fazer, nem os homens da cidade.

A melancolia tocava a todos, desde o canto choroso das aves, à beira rio no fim de tarde, como quem lamenta a ausência daquele caudal, e sem saber quando será o retorno. Passando pelas matas, entre o gorjeio, o guinchar e o rugir, de quem se sente perdido, até alcançar os homens. Todos vêm, todos lamentam, só não compreendem. Todos contam a nova e triste história.

Tudo começou com as cheias dos rios, quando trouxeram não somente as águas, mas também o lixo, a lama, e toda sorte de entulho e poluição que lhes haviam depositado. As águas da região deixaram de ser preta, amarela ou verde. Agora tinham  um componente de coisa suja.

Aquilo escureceu, turvou as águas. Não demorou muito e veio a notícia para não se beber daquela água. Como se fosse possível fazê-lo, pensava Gilda, após triste episódio naquela desolação.

Logo começaram a morrer os peixes das redondezas, enquanto os rios baixavam. Diriam alguns, “deu um susto”. Ao final, era tanto peixe morto que contaminou e terminou de apodrecer os canais, enquanto a água continuava baixando.

Diogo saía cedo para ir buscar água para beber longe dali. Era uma necessidade, ante aos fatos. Sua ribeira também já o sabia, pelo deslocamento dos animais atrás de água potável. Onde se encontravam só havia lama, ou se estragara com peixes em decomposição.

Gilda o observa mais uma vez trazendo a canoa. A antiga rabeta fora abandonada por falta de combustível. O homem apenas puxava pequena corda, enquanto marchava entre uma poça e outra se aproximando de casa. Chega e a encosta por ali mesmo, a canoa não terá como sair à deriva.

— Conseguiu encher, conseguiu? Deu para encontrar? — Perguntava de Diogo, já exausto e de pé à sua frente.

— Deu sim, enchi as duas bombonas. Daqui para a semana que vem, água para beber a gente tem.

Diogo olha para o chão, enquanto pensa no que estava acontecendo. Daquilo que sabia e do que pôde se informar, aquela situação estava se repetindo para muito mais além, envolvendo muitos outros rios.

Ouvira que para mais além, os peixes do mar estavam subindo o rio, por onde ele ainda existia. Ouviu ainda uma coisa que lhe meteu medo. Se era mentira, se alguém aumentou, se era verdade, não teve como apurar. As águas estariam se tornando salgadas. Quem vai beber isso? Pensou.

Já não comandam mais a vida, submetidos a longa e extensa estiagem, os rios desapareceram. Onde havia, a água parecia estar se tornando salobra. Ameaçada por todos os lados, a lógica da vida cabocla seria  a próxima diluição.

Em certos locais as aves e jacarés, não davam conta da quantidade de peixes pegos de surpresa dentro de lagos rasos que logo secavam. Enquanto o alimento se apodrecia, acabavam se deslocando para outro canal, e outro canal, encontrando o mesmo cenário.

— Ainda não sei se a gente espera, ou se vamos embora de vez. Eu não sei, não.

— O Luizinho já se foi Diogo. Por causa dessa água podre. Não vou perder mais um filho por causa disso aqui não.

Diogo olha para a pequena propriedade de várzea, isolada não pelo rio, mas ironicamente pela falta dele. Foi o costume de beber água direto do rio que sacrificou Luizinho. Para plantar só dispunha daquela água que ainda corria no meio do canal. Mas não foi ela que matou Luiz?

O que nem Diogo e nem Gilda se deram conta, é que bastaria ter lembrado de ferver a água oferecida às crianças, e talvez Luizinho com este cuidado, ainda estivesse vivo.

Infelizmente, o que viu foi tudo se perder, até levar Luizinho, com infecção intestinal, no seu primeiro ano de vida. João Bento já tinha ido embora com a família, Jair também fizera o mesmo. Se tornaram retirantes da floresta.

A várzea secou e já não é mais a mesma, é só desolação, sede e fome. Diogo não conseguirá resistir por muito tempo.

— Não é melhor ir embora logo Diogo? Insistia Gilda.

Pensa enquanto olha tudo ao redor. Todos já se foram, enquanto a ribeira só piora.

— Com pouca água para poder descer o rio, o esforço vai ser grande Gilda. Tenho puxado essa canoa a maior parte do caminho para buscar água mais limpa. Quer mesmo ir embora?

— Ficar só vai servir para perder mais um filho. Para mim já chega Diogo, não quero perder mais ninguém.

Na manhã seguinte, carregando duas crianças e alguns pertences sobre a canoa, partem para a localidade mais próxima, sem saber ao certo o que lá encontrarão.

Naquela madrugada o canto triste do urutau, era também um canto de despedida, de quem também aguarda a hora de partir. Há tempos que o chilreado estridente do sanhaço-azul, deixou de ser festivo para ser um grito de quem pede ajuda.

Para quem duvidava da serventia das rabetas, ou acreditava que as canoas eram lentas demais, que experimentasse cruzar os canais enlameados à pé.

Mais ainda, puxando a canoa com seus poucos haveres e mais duas crianças, por entre a lama, areia e a pouca água acumulada, enquanto se busca por um palmo e logo acima do leito, para a canoa deslizar sem maior esforço.

A vila mais próxima, descendo o rio, que era alcançada em 4 horas conduzindo uma rabeta, leva até 18 horas no remo. Já a pé, arrastando uma canoa por sobre o areal e poças de lama do leito do rio, se der tudo certo são dois dias e meio de viagem e muito esforço. Diogo faria em três dias.

Todos buscavam o mesmo filete de água que os levariam à vila. Inclusive sucuris, jacarés, porcos do mato e peixes que ainda se arriscavam em meio a água suja e de tantos dentes.

Todos possuíam o mesmo anseio. Queriam viver, todos lutavam pela mesma razão. Naquele momento, reino animal e reino hominal se igualavam.

Os peixes mortos nas poças que secavam, ficavam ao sol aumentando o odor fétido e nauseabundo do lugar. O rio que assistiu suas infâncias se foi, transformou-se, e agora fedia tal e qual o pior dos esgotos.

Havia a necessidade de se desviar do canal para fugir das concentrações de jacarés, e contornar o trecho, às vezes por dentro da mata, o paraíso das onças, queixadas e do recém-chegado javali. Tudo isso paralisava e afastava Diogo e sua família da meta final. Daí o inevitável atraso para chegar na vila.

Caía a noite, e com ela a necessidade de se sobreviver por mais um dia na beira do fogo com a mulher e as crianças deitadas próximas. Era preciso se afastar da beira do rio e das trilhas no mato. Com as redes atadas nas árvores, mais uma noite a alimentar o fogo para proteger a todos. As regras que sustentaram a vida por milênios estavam todas ali.

A floresta não dorme. A vida prossegue na escuridão circundante, com os sons típicos da noite e os caçadores noturnos. O fogo é tudo o que se tem, e que os diferencia dos demais.

A luz pálida e amarelada deixava ver por entre árvores e arbustos, as sombras que circulavam nas proximidades. As entidades do mato? Curupira achou de lhes visitar? Reparou no cabelo vermelho, e nos pés virados para trás? Vai achar de querer falar com Diogo, e logo agora? Ou é onça, veado ou  queixada?

Onorato fica na beira do rio ou vem se enroscar por onde tem rede? O fogo o atrai? Melhor nem saber. Gilda ainda tem leite nos seios? Não é a jiboia que vem tomar leite no meio da noite? Diogo delira sem ter febre.

Procurava esvaziar a mente daqueles pensamentos tão  perturbadores, que povoaram as cabeças de tantos outros homens, tão assustados quanto ele. Pensamentos tão  antigos quanto as sumaúmas.

Atiça o fogo, joga mais um pedaço de lenha e a noite prossegue. Melhor sossegar, esta era apenas a primeira noite, outras viriam.

Finalmente, o pequeno grupo de retirantes, exausto e com fome chega à Vila Sorriso. O que viram logo de chegada não lhes convidava a sorrir. Centenas de ribeirinhos, tão retirantes quanto eles próprios, já estavam no local.

Lá conheceram Isaura, voluntária da Defesa Civil no lugar, logo que se aproximaram do pequeno porto de lenha. Ela é responsável por fazer a triagem dos retirantes e encaminhar todos aqueles que acorrem ao vilarejo, recém transformado pelas circunstâncias em ponto de auxílio e abrigo.

Através de um equipamento de rádio a bateria, fazia o elo com a cidade mais próxima. A vila já não tinha mais energia elétrica. Pelo rádio, dava ciência do número de pessoas abrigadas, para o recebimento de mantimentos por via aérea, e ainda para o embarque de doentes necessitados de remoção.

— Gente estamos utilizando uma escola, igrejas e galpões que foram adaptados, além de barracas enviadas pela Defesa Civil, para atender os desabrigados. Vou encaminhá-los para a escola onde dividirão uma sala com outras famílias. Lá vocês receberão alimentação. Fizeram bem em trazer suas redes, pois não temos leitos para todos. Por ora é o que podemos fazer. Um funcionário vai levá-los até a escola.

Após os esclarecimentos de Isaura, foi a vez de Diogo falar.

— Obrigado senhora. Se houvesse água teríamos dado um jeito de ficar no sítio. Infelizmente não deu mais.

— Eu entendo, a maior parte das pessoas que estão vindo para cá estão enfrentando a mesma dificuldade, a impossibilidade de seguir com suas vidas, pois a água está contaminada.

— Meu Deus! Então, é maior do que eu pensava.

— É sim meu amigo, muito maior. Há um esforço para trazer descontaminantes para água, de avião para os centros de auxílio, como este. Além disso, também precisam trazer comida. Muitos não estão podendo plantar por conta da poluição da água em sua propriedade. Alguns poucos ainda conseguem.

Diogo ficou perplexo. Então, não era só na região de sua propriedade. Na terra das águas, dos rios gigantes, e das chuvas torrenciais, as populações estavam ficando sem água, até mesmo para beber. O mundo amazônico estava de cabeça para baixo.

Quanto mais Isaura os colocava a par daquela situação crítica, mais perplexo Diogo e Gilda ficavam. Isaura completou.

— Como vocês já devem ter notado, por conta do número de pessoas no local, mesmo com o apoio aéreo, estamos sob risco de logo ficarmos sem alimento. A região é muito extensa, e não sabemos por quanto tempo isso vai durar.

Os mananciais secavam, senão, se encontravam poluídos e  apodreciam, ou se tornavam salobros. Como peças de um dominó invisível, cuja primeira peça lhes caiu sob as cabeças quando tiveram de abandonar seu recanto, Diogo e Gilda já estavam sob risco de assistir a falência da central de auxílio.

Isaura ainda não tinha sido cientificada, entretanto mesmo na capital, a falta de água potável atingia níveis críticos. Por conta do tamanho de sua própria população, em breve não teriam condições de socorrer as localidades do interior. O problema era a água salobra que estava surgindo em várias sub-regiões, incluindo aí a própria capital.

O fenômeno inusitado estava se ampliando. O que ela, por estar isolada na vila, ainda não sabia é que o mesmo fenômeno estava percorrendo o mundo, em uma seca intensa, deixando apenas água poluída e rios salinizados.

A exemplo do que havia ocorrido na última pandemia, autoridades do mundo percorriam os fornecedores na busca de produtos descontaminantes de água e de dessalinizadores, estes últimos, muito caros para serem obtidos em quantidade, principalmente pelos povos mais pobres do globo.

Recuperar a água poluída e depois filtrá-la, parecia ser a melhor e mais barata saída. Mesmo isto tinha de ser feito logo, distribuindo quantidades satisfatórias de comprimidos purificadores de água, além de filtros de barro para as famílias. O antigo filtro feito de barro, munido de vela filtrante com carvão ativado, sempre foi muito eficiente e relativamente barato.

Aos poucos a rede de apoio aéreo foi surtindo efeito, oferecendo mantimentos nos centros de auxílio, e produtos para a recuperação da água contaminada. Antes que populações inteiras ficassem sem água.

Na medida em que tais fenômenos avassaladores ofereciam todas as provações e sacrifícios que os homens eram capazes de suportar, foi se tornando evidente por demais o valor de certas formações indispensáveis para a manutenção da vida.

Tais formações, no entanto, foram maltratadas, pouco lembradas e abandonadas à própria sorte, submetidas que foram ao crescimento desordenado e desumanizado das aglomerações humanas, e que por isso agora sofrem. O desprezo pela preservação das nascentes cobrava de forma extrema e mortal a secular desatenção.

O simples fato de se reconhecer que água é vida, deveria ter sido o suficiente para ensejar medidas enérgicas na proteção das nascentes e dos mananciais de água e uma ação tenaz contra o desperdício do líquido da vida.

As crianças já deveriam crescer sabendo disso, como uma das lições fundamentais para a vida. Disciplina consciente é a melhor disciplina que existe. A infância é o momento prestimoso para se aprender as lições de base.

Mais dois anos extensos e de muito calor tiveram que ser suportados pelos retirantes reunidos nos diversos centros de auxílio e nas cidades maiores. O calor e a falta d’água haviam  ceifado milhões de vidas ao redor do mundo.

Na medida em que aprendiam a economizar água e a valorizar e proteger as nascentes, estas aos poucos voltavam a brotar em quantidade. Diogo, Gilda e incontáveis ribeirinhos espalhados pela grande floresta, na realidade se preparavam para o retorno ao seu recanto de paz e brandura de ser que ainda vivia, inabalável, em seus sonhos e sentimentos. Fervorosos por excelência, jamais esqueceram o cheiro de mato e das águas, oferecidos por um Criador gentil e compassivo.

Cada pequena conquista realizada, cada fruto da terra obtido, agora eram efusivamente festejado. Para a glória de Deus, a paz sempre se fará na Terra para todos aqueles dispostos a se corrigir e aprender.

A ribeira sempre foi lugar de paz, para aqueles que precisam evoluir em espírito, sendo também lugar de repouso, para aqueles espíritos que precisavam se recompor diante das leis Divinas, aurindo as energias puras e suaves do contato com as matas e seus rios.

Aqueles anos dramáticos da grande estiagem, seguindo o planejamento do Mestre de todos nós, terminariam com o despertamento e a gradativa adoção de uma nova mentalidade.

Assim, para além das ideologias e partidarismos políticos, prevaleceria a mensagem de verdade e fé, inspiradora do respeito e do amor entre os homens. A maré de mudanças prosseguiria pelo mundo afora, destruidora para uns, porém renovadora para todos aqueles que persistiram na fé e na esperança com Deus.

 

Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim.

 

Fim

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