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                                                                                                                                                      Foto: Ricardo Gomez

Por: Antonio Mata

Tinha o rosto cansado, extenuado da caminhada sob o sol. A despeito dos cabelos brancos e ralos, prosseguia com a firmeza que lhe era peculiar.

Trazia ainda suas dúvidas, aquelas indagações por conta das referências todas, reunidas durante a vida. Aquelas questões para as quais nem sempre conseguimos respostas. Sabia que ainda faltava o nexo, a ponte. Era o que procurava entender naquele momento.

A estrada de terra batida, de ar tropical; florestas ao redor; o inseparável canto dos pássaros; o pairar das asas; o céu de poucas nuvens; e de azul irretocável.

Prestou atenção no delineamento das árvores próximas. Estas faziam um desenho característico, e atentando para os detalhes, poderia utilizar até mesmo para localização. Foi o que fez então.

Não demorou muito, se deu conta de que algumas formações pareciam voltar. Estavam lá de novo, por mais que avançasse. Parou, prestou bem atenção, e deu-se ao trabalho de contar dois mil passos. Olhou ao redor, e a sua desconfiança não era à toa. Marcara com o olhar uma determinada árvore, onde havia uma rama de cipó, quase até o chão, e um ninho de João de barro, algo inconfundível.

Bastou avançar os dois mil passos, e lá estavam todos mais uma vez, a árvore, o cipó e o ninho.

— Uai, que história é essa?

Mais que desconfiado, o ancião estava atônito. Olhava para um lado da estrada, virava-se, olhava para o outro. A estrada era praticamente uma curva extensa. Tirou o chapéu suado, de borda encardida de muitas outras andanças.

— Meu Deus, devo estar andando o dia inteiro. Que foi que houve, meu Deus? O sol não baixa, não escurece, o dia não termina, o céu está sempre azul. Estou cansado, caminho o tempo todo, só para voltar ao mesmo lugar. Já não sei mais o que pensar.

— Até na minha loucura, meu Deus, viestes me alcançar. É tudo muito peculiar e belo. Até a estrada de terra tem sua beleza. Queria apreciar mais, só não consigo parar, continuo andando, só para descobrir que não saí do lugar.

O velho atentou para um detalhe.

— Tudo igual..., só aquele homem ali, na beira da estrada. Vem fica ao sol, depois vai até a sombra das árvores, só para depois voltar de novo.

Diminuiu a passada, porém se punha adiante. Pensava, queria uma resposta. Foi quando se deu conta do seu papel de tolo, e falava consigo mesmo, “Ora, não está vendo o homem na estrada? Então vá e fale com ele”. — Dizia, como quem acha uma saída.

Prosseguiu, achando graça de si mesmo, “O que está esperando? Está vendo mais alguém, tem outra pessoa por aqui, além dele e você? Então vá e fale com quem você está vendo”.

Se encheu de coragem e foi até lá, onde se encontrava aquele desconhecido.

Chegou, aproximou-se e ficou olhando para aquele desconhecido. Quando o próprio homem, percebendo sua ansiedade logo lhe falou.

— Eliseu, que satisfação em o rever. Me disseram que você estaria aqui, então vim buscá-lo.

— Você já me conhece, já estava aqui?

— Claro que sim, você já passou por mim três vezes. Aguardei apenas, porque não queria assustá-lo. Você estava apreciando o lugar. Também não quis importuná-lo. Aí, fiquei esperando. Meu nome é Luís Inácio.

Então, contou brevemente a sua história.

— Morávamos na mesma rua e frequentávamos a mesma escola, nos tempos de criança e adolescência. Depois, cada um tomou seu rumo na vida. Minha família se mudou, nossas mães continuaram a manter contato por algum tempo, mas a vida já era outra. Até que pela força das circunstâncias, também tive de deixar aquele mundo que você conhecia. Quer dizer, cheguei aqui bem antes de você.

— Eu me lembro de você e de sua família. Quanto a mim, só me lembro de um episódio. Estava caminhando sozinho, quando senti muita dor no peito, e então caí no chão. Quando me dei conta estava exatamente aqui, nesta estrada. Prosseguiu Elizeu.

— Posso fazer uma pergunta?

— Sim, claro que pode.

— Eu me dei conta de que não estava mais no local de antes. De alguma forma, sabia que tinha deixado a vida que levava. Só uma coisa que eu não entendi. Queria encontrar as paragens Celestiais, os divinais campos verdejantes, que me haviam ensinado, mas não estava encontrando nada.

— Entendi Elizeu. Veja só, não significa que tenham propriamente mentido para você. Veja que a sua estrada é um meio termo entre aquilo que você esperava encontrar, e o tipo de vida que você apreciava. Você gostava do pé no chão, pelos caminhos da terra  do interior. Veja que o Criador, na sua infinita bondade lhe ofereceu uma aproximação.  Você também passou cinco anos dormindo, não propriamente por necessidade, mas por absoluto respeito à sua consciência. Então, continuou.

— Acredite Eliseu, isto somente aconteceu, porque você tinha seus méritos. Deus aprecia os homens que cuidam de suas obrigações na vida. Principalmente aquelas que dizem respeito ao próximo, ou seja, a família e os mais necessitados. Fez mais uma pausa.

— Agora vamos prosseguir na estrada que você vai ter uma pequena surpresa.

Elizeu acompanhou o antigo amigo, conversando lembranças dos tempos de juventude. Em poucos minutos, a estrada de terra batida se viu em campo aberto. Logo adiante, prosseguia uma calçada em paralelepípedos, em um cenário muito conhecido e comum  nas pequenas cidades do interior de sua terra.

Logo a seguir o casario colorido, árvores frondosas pelo caminho, pessoas sentadas à frente de casa, calmamente conversando. A pracinha repleta de flores, crianças brincando. O ar perfumado e aquele céu azul que o acompanhava desde o início, agora se completavam.

Emocionado às lágrimas, para e percorre tudo com o olhar.

— Então, eu cheguei.

— Sim, agora você chegou. Bem-vindo à nossa colônia, aproveite para rever os amigos.

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