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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Cheguei na hora!

Por: Antonio Mata.

Adensamentos urbanos criam adaptações e hábitos. Houve um tempo em que os edifícios eram projetados com câmaras para incinerar lixo e a respectiva chaminé. Tão alta quanto o prédio.

Esse tempo já ficou para trás. O leiteiro com suas garrafas de vidro existiu por muito tempo nas cenas matinais. Também foi substituído com o tempo e este ofício, enfim, acabou.

Outro comportamento surgiu e se espalhou por Londres e Nova York no início do século XX. O que a história dos homens não conta, porque não enxerga, corre por conta da natureza. Silenciosa, atenta e sutilmente presente.

Soprava uma brisa suave, por entre os edifícios de tijolos vermelhos, naquela manhã de quase verão. Logo o frio da noite seria aplacado. De momento, só se podia observar umas poucas nuvens. Aquelas conhecidas como cumulus de bom tempo.

Prática comum naqueles idos, a jovem mãe coloca seu bebê em uma gaiola encaixada na janela do apartamento. Tendo ainda o cuidado de fechar uma rede de proteção. Isto, para evitar que a criança pudesse rolar para dentro e cair no chão.

Então, põe a cabeça para fora e observa o céu. Olha para um lado e para o outro. Estava bonito e convidativo. Anunciando um dia bastante ameno. Ótimo para os bebês, poderia dizer. Uma hora de sol ameno e ar fresco ajudaria na saúde da criança.

De mentalidade prática, decide em seguida tirar proveito daquele intervalo de tempo, indo ao cabeleireiro no quarteirão seguinte. Nada que não pudesse ser feito rapidamente.

Do alto, o velho e observador vento do norte, que até então serpenteava tranquilamente por entre os edifícios, em contato com o ar quente de uma faixa extensa de terreno baldio, se aquece e sobe até se aproximar das nuvens.

— Isto é o que chamo de manhã de domingo. Seus floquinhos de algodão estão brilhando. Hoje podem passear à vontade. Sendo assim, Carpe diem, aproveite o dia. Tem pouca umidade no ar para poderem crescer.

Os cumulus maior, com ar de quem descorda, faz um comentário.

— Nem fique tão contente, nem tão satisfeito. O que você está vendo é meramente passageiro.

— Passageiro, nesta manhã de sol?

— O tempo é extenso, as nuvens vêm e vão; a chuva refresca e o sol aquece. Mas, a sua memória é fraca.

O velho vento do norte, de tantas andanças, curioso, parou de soprar por um instante.

— Não entendi. O que está errado? O que está faltando?

— Com exceção da sua memória, nada.

— Ora, deixe de enrolação e fale de uma vez.

— Claro que vou falar. E dizer que hoje não é dia de passeios no parque nem nos jardins. Nem de crianças brincando, nem de bebês tomando sol dentro da gaiola. É que estou de serviço, hoje e amanhã também.

Parou um instante, rodopiou e depois concluiu.

— Tenho ordens de trazer muita chuva. Há uma tempestade se formando perto daqui. Aliás, se estou de serviço para formar uma tempestade, você também está.

O vento soprou espantado.

— Tempestade, fazer uma tempestade? Logo hoje?

— Ordens são ordens.

— É a folga de todo mundo hoje. Não pode começar amanhã?

— Claro que não. Você já é velho o suficiente para saber.

— Fazer o quê? Enfim, vamos providenciar um aguaceiro que vai fazer chover até amanhã.

— Agora você entendeu.

— Sem passeio no parque, sem jardim, sem bebês tomando sol.

— Pois é, ossos do ofício.

— Quando começamos?

— Em dez minutos.

O velho vento ficou espantado.

— Você falou dez minutos, só isso? E as pessoas que já deixaram suas casas?

— Sugiro que você comece a soprar forte e as faça voltar. Por falar nisso, olhe para aquele lado, já escondendo o horizonte.

Quando olhou, pôde notar as grossas nuvens escuras crescendo e em movimento. Logo o tempo iria virar.

— Só mais uma coisa, meu velho. São dezenove bebês.

— Dezenove bebês nas ruas?

— Não, dezenove bebês nas gaiolas.

— Preciso correr agora, preciso correr!

— Espere, um deles está sozinho. A mãe saiu e foi ao cabeleireiro. Tem que dar um jeito de trazê-la de volta. Seja rápido.

— Em dez minutos. Para tirar as pessoas das ruas, recolherem os bebês e fazer a mãe de um deles voltar para casa. É pouco tempo!

— Agora são oito minutos.

O velho vento espantou-se de novo. Desceu até as ruas soprando poeira, jornais velhos e folhas pelo chão. Sacudindo os galhos das árvores e chamando a atenção de todos. Precisavam ver a maçaroca de nuvens cinzentas que se acumulavam pesadamente, já próximas à cidade.

Correu até a altura das janelas dos prédios, soprando para dentro dos apartamentos. Espalhando papéis e objetos leves. Fazendo barulho nas salas para chamar a atenção dos pais. Estes, assustados, corriam para recolher as crianças e fechar as janelas.

Faltavam então cinco minutos. Todos os bebês haviam sido recolhidos. Todos, menos um.

O bochechudo brincava com os pezinhos, alheio a tudo o que se passava. Jogava o corpinho para um lado, jogava para o outro. Brincava com os dedinhos e com a saliva. Em uma linguagem tão ininteligível quanto apreciável. E nada de sua mãe chegar.

Decidido a poupar o bebê, reduziu o vento nas janelas daquele lado. Correu até o cabeleireiro e soprou com força junto a porta. Mas esta estava fechada. Soprou forte na altura das vidraças.

Atirou areia, folhas, jornais e um cesto de lixo contra a fachada da loja. No salão as pessoas conversavam e não prestaram atenção à ventania lá fora. Faltavam quatro minutos, antes que o aguaceiro chegasse.

Ato contínuo, viu alguém procurando abrigo na extremidade do prédio. Empurrou-a na direção da entrada. Quando a mulher abriu a porta, invadiu finalmente o salão com seu arsenal de coisas esvoaçantes. Foi papel, folhagem, folhas de jornal misturados com os objetos do salão e desfazendo penteados.

Alguém gritou.

— Gente, é uma tempestade e é daquelas!

A mãe da criança, finalmente se ligou. Acionou o Tico e o Teco. Janela + Gaiola + apartamento vazio + ventania + tempestade - mamãe= bebê em perigo. O nome disso é racionalidade. É para isto que ela serve.

— Meu bebê, meu bebê! — Desabalou a correr pelo salão afora.

Ganhou a rua e avançava o mais rápido que podia na direção do prédio onde morava. — O velho vento do norte, percebendo seu desespero, por um instante parou de soprar.

Ela ganhou a escadaria subindo e correndo para o apartamento. Abriu a porta rapidamente e correu na direção da janela. Só pensava no seu pequenino rebento. Começou a trovejar.

Debruçou-se na janela recolhendo seu filho. Foi somente isto para que começasse a chover. De início suavemente, depois a tempestade se definiu. Ventos intensos e trovoadas se espalhavam por sobre a cidade.

— Nossa, cheguei bem na hora!

A jovem mãe ainda estava esfogueada. Com seu filho em um dos braços, enquanto com o outro fechava a janela. Ao olhar para o pequeno Nilson, este lhe ofereceu um sorriso banguela de olhos brilhantes. Onde tudo é brincadeira, tudo é diversão. The end.

Logo ali no alto, entre nuvens grossas e muito aguaceiro, houve um para, para acertar.

— Não trovejou, não fez barulho! Só agora por quê? Precisava avisar todo mundo e ainda tinha que salvar os bebês. Onde você se meteu que não viu?

— Me meti, me meti? Em lugar nenhum! Olha o tamanho dessa maçaroca preta que está aí atrás. Quem você pensa que ficou segurando? Se eu faço estrondo, correriam para cima da cidade mais depressa ainda. Você tem que me agradecer!

— Tá, tá bom. Deixa pra lá. Já estou ficando velho e ranzinza mesmo. Estou ficando cansado dessas tempestades.

— Ora, não seja tão pesaroso. Já não sabe que depois da tempestade sempre vem a bonança? É só esperar a sua vez.

Pois é, na vida tudo passa e tudo um dia há de passar. Brisas suaves virão anunciando o novo tempo de um Novo Mundo.

Paz, união e harmonia. Feliz 2026!

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