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histórias, crônicas e contos

Crimes esquecidos

        

                    Foto: Wikimedia Commons 

Por: Antonio Mata 

O prédio antigo, de poucos andares, até que já havia sofrido uma vistoria e adotado mudanças, principalmente na parte elétrica, que foi totalmente reformada. Exigência dos bombeiros. 
 
Tinha o hábito de permanecer no local de trabalho até mais tarde, naquela semana seu horário extra, até às 21 horas, parecia não ser suficiente. 
 
A despeito da grande quantidade de serviço que já se realiza por computador, ainda utilizava por exemplo, a prancha de desenho e o papel vegetal para suas plantas. Não se sentia à vontade diante da tela brilhante. Assim tornou-se portador de um certo anacronismo consciente. Vá lá, é evidente que não era o único. Um monte de gente fazia o mesmo. 
 
Três filhos, todos com mais de trinta anos. A mulher foi diagnosticada com Alzheimer. Ficava em casa com uma cuidadora. Talvez fosse também por isso a sua vontade de estender o seu expediente que, naquele dia, já ultrapassava das 22:30h. 
 
Foi na sexta-feira, quando prosseguia no seu serão particular, que o cansaço e o corpo de uns setenta anos, meio magro, mais amarelo do que branco, finalmente reclamou. 
 
Sentiu um torpor intenso e uma vontade de se deitar, ao menos um pouco. Acomodou-se no chão, sobre o tapete, e colocou os dois pés sobre uma cadeira, logo à frente. Queria desligar-se por uns quinze ou vinte minutos. Afinal, ainda teria que dirigir até a sua casa, e não queria sair daquele jeito. 
 
O relógio indicava 23:15h, quando iniciou o seu cochilo. 
 
Há quem chame de sina, azar, má sorte, destino, acidente, tanto faz. Não irão explicar nada mesmo. 
 
Concretamente, alguém esqueceu um telefone celular, a coqueluche do momento. Daqueles grandalhões, com o inconveniente da bateria que só durava 16 horas. Daí ter sido posto para carregar na tomada elétrica da sala ao lado. O tipo de coisa que não se deve fazer, só que um monte de gente faz. 
 
As chamas só foram extintas por volta das 04:30h do sábado. Logo o dia clareou com os bombeiros cuidando do rescaldo. O corpo calcinado, com as costas no chão e os pés apoiados no que sobrou de uma cadeira metálica. Foi a única vítima encontrada no prédio. 
 
As alusões a má sorte ou azar, não explicam minimamente as razões do episódio ocorrido. O celular esquecido na tomada, ou o que sobrou dele. Pequenos componentes metálicos calcinados, falam muito mais. Contudo, a Lei do Retorno, ação e reação, cria na vida de cada um, as situações suficientemente necessárias para que os erros de vidas passadas não sejam simplesmente esquecidos, sem nenhuma reposição. O trabalho em favor do outro não é algo sem propósito. É necessidade real. 
 
Volta ao passado 
Com lanternas em punho, o grupo avançava na escuridão do lugar. Provavelmente já era noite lá em cima. O que tanto faz, pois a missão prosseguia inconclusa. Substituíam equipe anterior que cumpria a mesma missão, durante a maior parte do dia. 
 
Uma certa irritação e descontentamento, por ter de fazer, por ter de estar ali. Isto também não importava muito, queriam mesmo era encerrar, sem a conclusão tudo se estendia e teriam de voltar. Era como se estivessem a perseguir ratos, que insistiam em se esconder, para depois aparecer em outro lugar. Todos estavam ficando fartos. O cansaço, o mau cheiro, o desprezo e a escuridão faziam aflorar instintos, os mais baixos. 
 
Joachim, era o mais jovem, e a poucos dias naquela unidade. Não custou para ser incumbido de carregar peso. Atribuição comum suportando aquele trambolho nas costas, preso por fivelas e cinturões. A cada parada sentava-se no chão, aliviando o peso e afrouxando as correias, só para prosseguir em seguida. Queria respirar ar puro, o que era impossível enfiado dentro das galerias úmidas e fétidas da cidade. 
 
Em dado momento, na medida em que avançavam, a galeria começou a acumular água, o que impediu abaixar sua carga para descansar. A busca prosseguia sob a luz das lanternas. Ao se aproximarem de outra galeria em ângulo de 90 graus, iluminaram com lanternas, antes de adentrarem a passagem. O que receberam em troca foram dois tiros de pistola. Responderam desferindo rajadas de metralhadoras, quando então mandaram Joachim à frente do grupo. 
 
O soldado acionou o gatilho do tanque de gasolina sob pressão, arremessando uma faixa incandescente de trinta metros adiante. As chamas clarearam o ambiente mostrando sua estrutura em tijolos antigos. A água pútrida onde deixava antever corpos baleados e metidos dentro d´água pelo restante da patrulha, onde agora os remanescentes eram incinerados por Joachim. Logo correriam em chamas se atirando nas águas do esgoto, para serem metralhados em seguida. 
 
Os demais companheiros saudavam a ação do soldado recém-chegado, porém hábil no uso do lança-chamas. 
 
— Muito bom Joachim, mande os malditos para o inferno! Vamos caçar esses ratos! 
 
Joachim, antes acabrunhado com a missão que recebera, agora aceitava sem maiores preocupações o que fazia. Incinerar pessoas, armadas ou não, combatentes ou não. Prosseguiu na patrulha de perseguição e extermínio de judeus que preferiram morrer lutando.  
 
Era o Levante do Gueto de Varsóvia, de janeiro a maio de 1943, em seus últimos episódios, promovendo a eliminação da resistência, e de judeus que haviam fugido para os esgotos e galerias pluviais. Corriam os primeiros dias de maio.  
 
Joachim era integrante das SS (Schutzstaffel), tropa encarregada de realizar a limpeza étnica nas regiões ocupadas.  
 
Maio de 1998 
A fumaça já invadia toda a sala, quando retornou de seu cochilo. Fez menção de se levantar, porém sem encontrar forças. O calor era intenso enquanto se debatia, sem sucesso. Sem se dar muita conta do que havia acontecido, o ancião sentiu as chamas envolverem seu corpo e o terrível calor.  
 
Como que em um filme de uma cena só, e há muito esquecido, viu-se dentro da galeria fétida tomada de corpos calcinados. Terminou seus dias deitado no chão, com os pés apoiados em uma cadeira, incinerado que foi, ainda vivo, por conta daquele malfadado incêndio que começou na sala ao lado. No tempo a causa, na vida o efeito.

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