Por: Antonio Mata.
Na madrugada alta o grupo silencioso adentra o último cômodo térreo. Uma espécie de quarto de despejo. O silêncio é rompido pelo barulho de um par de botas. Em seguida, pelo som das tábuas do assoalho sendo arrancadas. A lamparina é pendurada de lado.
Começaram a cavar uma seção quadrada. Concluem o serviço e aguardam o troféu, o butim, a botija de moedas de ouro a ser escondida. O homem de botas e esporas entra no cômodo, puxa a lamparina para ver de perto.
— Não está bom. Tem que ser maior. Tem que abrir mais espaço. Tirem mais tábuas. Isto é sem demora! Tudo tem de estar pronto antes do amanhecer.
Os negros retomam o trabalho. Retiram parte da tralha que havia no quarto e arrancam outras tantas tábuas. Em seguida prosseguem a cavar. Então chega o objeto a ser enterrado. Não é apenas um, nem é uma botija de ouro.
Os negros carregam, um de cada vez. Meia dúzia de corpos, homens brancos e mulatos são colocados lado a lado. Além do corpo de uma mulher em um vestido preto comum, de uso doméstico, todo ensanguentado. É uma cova coletiva.
Por cima dos corpos atiram a cal virgem. Completam com terra e recolocam as tábuas do piso no lugar. Em silêncio deixam o local. Os homens, maltrapilhos e descalços se enfileiram junto ao carroção. O dia está perto de raiar.
— Ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. Quem pensar ou sonhar em abrir a boca, vai morrer pendurado no tronco. Alguém não entendeu?
— Todo mundo entendeu tudim sinhô Antenor. Ninguém vai sê loco de abrir a boca, não. — Chico do tronco, o capataz, um mulato alto e carrancudo, se adiantava em falar. Afinal, ele mesmo terá de aplicar o castigo, em caso de infração. Apenas frisava aos infelizes, ali enfileirados, como funcionavam as normas da fazenda.
Sabia do seu pouco valor, e que seu próprio couro, também já estava envolvido naquela história sangrenta. E que, se não tomasse muito cuidado, poderia muito bem acabar como os demais. Com o velho Antenor, ninguém tinha vez. A cobiça por mais terras explicava o resto.
Nos dias que se seguiram, uns e outros estranharam o desaparecimento repentino de um grupo tão grande de pessoas, na fechada sociedade canavieira. Dois homens brancos, uma mulher mestiça de pele clara, além de belos cabelos negros e lisos.
Também um rapazola, igualmente mestiço de olhos claros. Além de dois mulatos escravizados. Todos conhecidos e ligados à outra propriedade. Um engenho novo, eficiente e próspero, a meia distância rumo ao litoral.
Passava o tempo por sobre aquelas terras. Semanas, meses, sem que nada se ventilasse sobre o desaparecimento. Chega outro ano e depois mais outro. De alguma forma, os homens bons se convenceram de que tivessem ido embora. Se não era a melhor das respostas, era a mais conveniente.
Não se falou mais do tal desaparecimento. Nem chegou a ferir os ouvidos das autoridades portuguesas. É claro que um fidalgo português havia desaparecido. Mas, para quem conhecia a ficha corrida do aventureiro Joel Trás-os-Montes, isto não era propriamente um problema.
Sumir consigo mesmo, embarcado nas naus. Rumo às terras d’Angola, Goa ou Olinda. Esta, do outro lado do mar oceano. Fazia parte de seu próprio estilo. Seria uma espécie de herói e famoso, não tivesse antes a fama de encrenqueiro e brigão, com mortes nas costas, diriam alguns. Se a aumentar ou se a explicar, ninguém nunca se sabe.
Às vezes, as aventuras e os seus mitos se acabam por si só. Não conseguem se opor às espumas das ondas no mar bravio, nem à poeira dos tempos por sobre a terra vermelha do canavial. Pode ter sido isso. Talvez, de tanto procurar, o aventureiro, acabou que se achou.
Enfim, era melhor e evitava maiores questionamentos. Havia um certo consenso no sentido de que aqueles desaparecimentos deveriam permanecer como estavam. Não demorou muito e tudo acabou esquecido.
Vários veículos estavam estacionados em frente à residência. Noite aquela, quando familiares e amigos se reuniram para comemorar outra passagem de ano, em mais um ano que passou cheio de realizações e onde todos estavam satisfeitos e animados.
Agnaldo trouxera a família e conversava com seu cunhado. Crianças brincavam próximo de casa enquanto os adultos conversavam na extensa varanda orlada de jardins. Damas da noite perfumavam agradavelmente o ar. Era noite feliz.
Enquanto os adultos aguardavam a queima de fogos, Dorinha, uma das crianças, em um belo vestido branco de festa, corria pela varanda de encontro aos demais. O rosto rosado e suado, entre as tranças douradas, deixava antever que a brincadeira estava divertida.
De repente, na extremidade da varanda muito bem iluminada, ao virar-se, deparou-se com um grupo dantesco. Impactada, rapidamente a menina se detém e deixa sair um grito agudo, sonoro e aterrorizante.
Vários homens e uma mulher com seus corpos em decomposição. Feições distorcidas, pele arroxeada e envolvidos em trapos. Entre choros e lamentos pedem ajuda. Dorinha, perturbada e com suas mãos pequenas sobre o rosto, correu para sua mãe.
Ninguém entendeu nada. O grito, o susto, o pavor da menina. Tão bonita em seu vestido branco com fita na cintura e sapatinhos de boneca, na cor de vestido. Agarrada ao colo da mãe ainda ouvia os lamentos daqueles seres maltrapilhos.
— O que aconteceu, minha filha? Conta pra mamãe, conta. Viu alguma coisa feia foi? Me conta, o que foi? — Dizia Soraia, sua mãe.
— Um monte de gente morta, mamãe. Só que todo mundo de pé.
— De pé, minha filha?
— É, de pé. Mas, ficavam pedindo ajuda.
— Ajuda? Como ajuda minha filha, como é isso? Como você vai poder ajudar quem quer que seja? — A menina se encolheu no colo da sua mãe.
— Não sei mamãe, não sei. Não quero ver mais nada. Vão voltar mamãe? Será que vão voltar?
— Não, Dorinha, já foram embora. Não vão mais voltar.
A pequena Isadora permaneceu no colo de sua mãe até adormecer. Não acordaria nem com a queima de fogos.
O que de fato a menina viu? Quem eram aquelas pessoas? Além disso, quem era o pai da pequena Isadora? Seria o antigo senhor Antenor, ou não? Onde estava aquele que foi o aventureiro Joel Trás-os-Montes? Na visão da pequena Isadora ou na festa de fim de ano?
Quem era a mestiça branca sepultada, junto a um rapazola? Sob as tábuas, nos fundos da casa grande? A mulher que um dia fora uma mestiça branca, quem era ela? Quem apareceu na visão da pequena Isadora? Quem é e quem foi, no passado, Soraia, mãe de Isadora?
Dorinha chegou a ver Chico do tronco, o capataz de outros tempos? Ou terá visto, então, aqueles que ele ajudou a sepultar? Quem eram aqueles espíritos maltrapilhos? Eram os mesmos sepultados na casa grande? Ou os agressores de tempos passados.
Por que a pequena Isadora manifestou sua predisposição para a mediunidade com tão pouca idade? Quem foi, no passado distante, a pequena Isadora?
Como saber? Somente a compreensão do sutil fenômeno das vidas passadas e da reencarnação são capazes de esclarecer a sucessão de dores e horrores aos quais a cegueira e o materialismo humano, se fizeram submeter ao longo dos séculos. Onde o tempo se torna instrumento silencioso e fiel para o registro de toda sorte de atrocidades.
Quem é o culpado, no corrompido mundo azul sem inocentes? Mas, repleto de necessitados de remissão. Como atirar a primeira pedra e abdicar do perdão?
A fala se torna imortal.
Vinde a mim, vós que estais cansados e sobrecarregados e Eu vos aliviarei.