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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Entre pescadores e golfinhos

                                                  

                                                                                                                            Foto: Michelle Raponi por Pixabay

Por: Antonio Mata

O folclore dos homens guardou a expressão “história de pescador”, jocosamente entendido como aquela história a qual não se pode levar muito à sério. Desde a pesca de vara e anzol nas praias, rios e lagos, à pesca no mar alto as histórias se sucedem. Cada uma com a sua fala, o “tempero” do lugar.

Ainda que nascidas de conversas entre pessoas simples do povo, mesmo assim poderiam render, e de fato rendem, histórias merecedoras de se escrever; e eventualmente surgem algumas que valem a pena. Elas vão dar um jeito de aparecerem escritas em algum lugar.

Sejam na forma de contos; crônicas; cordéis; pensamentos ou simples frases. Adornou o madeiro dos barcos, as paredes dos bares e restaurantes, adentrou os domínios dos jornais; revistas e livros. Chegou até nos domínios da Web.

Esta aqui, ambientada no litoral, em vila de pescador, nasceu entre a praia, o mar; e aqueles que construíram suas vidas e suas histórias nestes cenários fascinantes. Como não se deixa de ser, tem seu lado de realidade, mas também de ficção.

 

                                             * * *

 

A pele acaba curtida, pela insolação de todos os dias e pela necessidade de se expor por conta da sua lida diária que começou aos 12 anos acompanhando seu pai. Aos 16 Saul perdeu a presença paterna, não no mar, mas por conta de um enfarto. Assumiu a casa para cuidar da mãe e dos quatro irmãos menores.

Começou pescando em mar alto nas pequenas embarcações de madeira comuns em sua região. Tão usuais quanto os turnos de oito horas, embarcado, se estendendo até doze horas, ou mais ante a necessidade de se obter o sustento.

O equilíbrio, a atenção, os sentidos bem apurados, os pequenos segredos do ofício; exercício permanente para todos que vivem e tiram seu sustento da pesca embarcada.

Na realidade, se tudo der certo, é porque o espaço nos barcos que se lançaram no mar foi todo satisfatoriamente ocupado com pescado. Se isto ocorreu, é porque encontraram um cardume muito bom de ser cercado, pois, não se pode perder a oportunidade. Quando vai acontecer de novo?

O tempo necessário pode se estender a cerca de dezoito horas. O fato é que só pensarão em parar quando os barcos estiverem todos cheios, ou ainda se não houver mais peixes. No mar não há lugar para preguiça.

A fragilidade das pequenas embarcações, onde cada um deve saber o que fazer, e um precisa confiar no trabalho e no auxílio do outro, ante à dificuldade. Na escuridão do mar por toda a noite, na esperança das redes trazerem algo que justifique o esforço do trabalho, da espera, do cansaço e do perigo.

O jovem Saul lembrava bem das histórias que ouvia desde a infância, passadas de pai para filho, daqueles que foram para a lida no mar e não voltaram mais. Aqueles que desapareceram e se afogaram no meio da noite, sem deixar vestígio e sem que ninguém percebesse. Vida de pescador é assim.

Gosto e risco caminham juntos na vida de quem precisa do mar para trabalhar. Sabedor das dificuldades enfrentadas por seu sobrinho, foi Jaime quem chamou Saul para trabalhar na pesca de lagoa de mar; no canal na entrada do lago.

Onde o pescado era bem mais seguro de se obter e o resultado, costumeiramente estável, e como de costume, compartilhado por todos da equipe. O que queria mesmo, era tirar Saul do risco e das incertezas do mar alto.

Saul simpatizou com a ideia, aceitou o convite e acompanhou seu tio para conhecer o lago e o trabalho; assim como se aproximar dos demais pescadores, moradores do lugar.

Desde os tempos de criança na vila de pescadores, brincando com as outras crianças do lugar, o garoto já cresce se habituando a ouvir as histórias do mar.

Também já tinha ouvido falar de outras formas de pesca nas conversas, noite adentro, na companhia de seu pai e demais pescadores. Ao chegar, ficou surpreso com aquilo que presenciou naquela manhã.

Os homens portando tarrafas se enfileiravam no canal, na entrada da lagoa, no seu trecho mais raso, de modo a reduzir a área de acesso à lagoa o máximo possível. Postos em posição aguardam o desenrolar da pescaria.

Não atiram suas redes ao léu; apenas aguardam, de pé dentro d’água, pelo momento certo; aquele que vai trazer o maior rendimento possível na tarrafada. Saul só observa.

Foi-se a primeira hora e passava a segunda, quando Jaime, dentro do canal e de tarrafa na mão avisou:

— Saul tá chegando a hora. Presta atenção no canal quando começar a aparecer botos mostrando o focinho, sacudindo a cabeça; ou borrifando. Eles vão mostrar a presença do cardume e trabalhar para trazer os peixes aqui pra nossa beirada. É quando a pesca vai começar. Aguarda que eles vão chegar.

Não foi preciso um tempo mais longo. No meio do canal um boto; depois outro; borrifava e levantava o nariz. Era o sinal, homens a postos começaram a lançar suas redes logo à frente, na parte mais rasa do canal; onde se encontravam.

Saul mostrava o sorriso amarelo de satisfação, quando os pescadores começaram a puxar as redes e trazê-las para a prainha, onde outras pessoas já esperavam, simplesmente assistindo a pescaria singular; com outros tantos mais interessados na obtenção de peixe fresco.

Algumas redes traziam  trinta; quarenta; outras cinquenta peixes graúdos ou mais até. Era uma espécie de trabalho consorciado. Havia quem chamasse de pesca cooperativa, ou ainda pesca comunitária. O fato é que pescadores e golfinhos trabalhavam juntos em proveito mútuo.

Na ótica dos pescadores, ao se lançar as redes, o cardume acaba se dividindo. Uma certa quantidade se desloca na direção das redes caindo em suas malhas; a outra parte corre direto para cima dos golfinhos e acabam capturados. Daí a natureza dessa união, onde os dois lados se beneficiam.

Jaime que já pescava na lagoa a bastante tempo, pois havia crescido no lugar; pescando em mar aberto e eventualmente no lago, foi quem expôs a situação do sobrinho ao grupo de pescadores da lagoa.

Na ocasião salientou quanto às dificuldades que a família do rapaz, já com 20 anos enfrentava. De bom grado, Saul foi aceito entre os pescadores da lagoa.

— Não era assim que a gente pescava no passado Saul. Era tudo bem mais difícil. Foi há três anos que alguém, que não se sabe ao certo; mas essa pessoa notou que quando aparecia o nariz do boto, quando borrifava ou saltava; estava avisando que tinha peixe na entrada do canal até a lagoa.

— Com o tempo se entendeu que a pescaria era melhor do nosso lado, do lado direito de quem entra no canal, antes do peixe chegar na lagoa. Isto para aproveitar o funil. Saul ouvia tudo com grande atenção.

— Foi rápido que a gente entendeu que o funil era a grande armadilha, e que ficaria menor ainda se a gente ficasse de pé na parte rasa, fechando o lado direito, o nosso lado. Prosseguia Jaime na sua narrativa, e então continuou.

— Os botos fecham todo o lado esquerdo, impedindo o acesso ao lago e os outros botos que estão na entrada do canal empurram os peixes para o lado direito, bem na nossa direção, onde a gente tá esperando por eles com a tarrafa já pronta. Contava Jaime, entusiasmado.

— Os botos gostam da gente  Saul. Completou Jaime, na sua visão objetiva das coisas, pois não via uma outra explicação; contando tudo com todos os detalhes para o sobrinho.

Saul ouvia tudo estupefato, já sonhando com o dia seguinte, quando poderia estrear na companhia dos demais pescadores do canal da lagoa. Nem que capturasse uma quantidade menor de peixes naquele dia, mas valeria e muito, pela primeira experiência naquele canal.

Mais uma vez no esforço de atenção, para melhor interpretar a presença dos botos e suas indicações. Fantástico! Saul nem dormiu direito. Não era só a questão de se pegar o pescado, mas o ar de novidade, de coisa muito diferente.

Já fazia pequenos planos, como a possibilidade de, em data não muito distante, trazer sua mãe, Maria do Rosário, e os quatro irmãos menores para perto da lagoa. Com a mãe, três meninas e só um menino de sete anos, como irmão caçula, Saul sabia que tão cedo não conseguiria apoio para ajudar a família.

Os moradores, famílias de pescadores artesanais daquela faixa de litoral estavam por demais afastados da pequena cidade mais próxima. Suas irmãs, ainda crianças, Rosário não permitiria que saíssem de suas vistas para buscar trabalhar na cidade, nem a mais velha, não naquele momento.

A estreia de Saul com a nova equipe de pesca foi um pequeno, mas importante sucesso. Conseguira um  trabalho novo, uma nova técnica razoavelmente rentável; mais segura e aparentemente mais estável que a pesca demorada em mar alto.

Estava satisfeito, com o trabalho, com a primeira tarrafada no canal; também com a presença daqueles animais que trabalhavam com os homens no canal. Isto sim é que o impressionou de verdade. Os demais, talvez por terem se acostumado, viam como algo comum. Saul não, estava impressionado.

O jovem tratou de juntar seu dinheiro da venda dos peixes, se acomodando temporariamente na casa do tio, até poder construir mais uma tapera e trazer a mãe e os irmãos para perto. Seriam em breve, vizinhos de Jaime e Edileusa, além dos três filhos do casal.

Não demorou muito para receber a família na nova casa. Nem para levá-los a apreciar a nova pesca da qual lhes havia contado. Com tantos detalhes quantos aqueles que Jaime lhe havia oferecido quando ali chegou.

Entre expressões de júbilo, alegrias e brincadeiras, as crianças foram se acostumando com a vida junto da lagoa, a nova vizinhança e a pesca com a colaboração dos golfinhos.

Se de um lado o atravessador de peixe que vinha da cidade oferecia pouco pela carga do dia, por outro é inegável que este era o principal comprador. A ajuda dos botos diminuía o risco e o tempo de trabalho, posto que não precisavam se ausentar da terra em incursões demoradas em mar aberto; oferecendo assim mais pescado pelo tempo trabalhado.

Era a presença de um comprador que assegurava a comercialização e a entrada de dinheiro na vila. A pesca com os botos era basicamente para vender, para entrar algum recurso em dinheiro. O peixe do dia a dia ainda era costumeiramente obtido no próprio lago, até pelas crianças; senão, na vara com anzol na praia.

Havia também os mais corajosos, para não dizer os mais tradicionais, que ainda se lançavam ao mar; fosse pela necessidade; fosse pelo gosto. Estes, não com a segurança do canal da entrada do lago, mas ainda obtinham um pescado satisfatório para vender.

O fato é que todos, de alguma forma precisavam de velas, querosene, pilhas para rádio e lanternas, utilidades domésticas, café; farinha e cereais. Quando assim fosse possível, uns poucos medicamentos, algum leite em pó e um pouco charque.

 No passar dos tempos, Saul começou a se importar com outras questões que até então, não prendiam a sua atenção. Ao final da tarde caminhava pela lagoa até o canal e buscava entender aquela relação entre eles e aqueles grandes animais; todos muito belos. Indagava de si mesmo: por que razão os botos fazem isso? Por que nos ajudam, o que ganham com isso?

Entendia uma questão simples: os botos não precisavam dos homens para nada. Se não existisse a vila, se não houvesse aquele trabalho; tocariam suas vidas como sempre fizeram. Era intrigante aquilo tudo; parecia que faziam de propósito.

Os pescadores haviam batizado os golfinhos e os identificavam pelo tamanho e disposição da nadadeira dorsal, sinais no corpo; pela forma como se apresentavam.

Havia o Guri, o Gorducho, que era o maior de todos; o Biriba, o Manchado, que tinha marcas no rosto; e assim por diante. Só não havia resposta para esta questão fundamental. Já que não precisavam dos pescadores para nada, por qual razão os procuravam.

Em conversas com os demais, Saul acreditava que eram animais muito inteligentes, por conta do arranjo de trabalho que executavam e ainda avisavam quando estava tudo pronto para que pudessem lançar as redes nos peixes aprisionados.

Só dava certo porque os golfinhos ofereciam ajuda. Já os animais podiam comer na hora que quisessem, sem receber nenhum tipo de auxílio. Quanto mais pensava, mais intrigado Saul ficava. De tudo o que pudesse lhe ocorrer sobre o assunto, só uma coisa lhe ficava muito evidente.

Aquilo precisava ser mantido; o vínculo de amizade com os golfinhos. Este não podia ser quebrado, sendo isto em favor dos próprios moradores da vila; acreditava Saul. Em suas divagações Saul identificou dois aspectos interessantes.

O primeiro é que os botos estavam lá naquele lugar e aprisionando os peixes, porque queriam fazer isto. O segundo é que foram eles que escolheram os pescadores da vila. Poderiam estar em qualquer outro lugar, em qualquer outro lago ou canal.

Se permaneciam visitando o canal é porque assim decidiram; já que aquele não era o único canal, nem a única lagoa. Era decisão deles.

Em certa ocasião, Saul muniu-se de coragem e fez algo que não se havia feito ainda. Imediatamente após recolherem as redes com o pescado, se atirou nas águas do canal se detendo no meio, já se afastando da borda esquerda onde ficavam, por ser a mais rasa e mais fácil para aprisionar os peixes.

Foi com alegria e satisfação que Saul percebeu que Guri, Manchado e Gorducho, ao invés de irem embora retornando para o mar, ao avistarem Saul passeando na água, foram até ele, como quem chega para cumprimentar o amigo, que agora estava mais perto deles. Saul nadou junto dos golfinhos com eles fazendo círculos ao seu redor.

No trecho mais fundo do canal, Biriba apareceu e dava saltos no ar, apreciados por todos. Vendo aquilo os demais homens se precipitaram dentro d’água. Em um instante, pescadores da vila, gente simples e rude do povo, sem saber exatamente como aquilo se deu, mas o fato é que estavam todos dentro do canal brincando, mergulhando, nadando, tal e qual um bando de meninos.

Quando escutaram a barulhada, o povo da vila correu para ver aquela presepada dentro do canal. Estavam todos por demais fascinados com aquela cena absolutamente incomum. Saul voltou, sentou-se no areal à beira do canal e ficou apreciando a cena. Havia algo novo, diferente e belo nascendo ali.

Mais alguns minutos e os botos se retiraram do canal. Ninguém fora mordido ou se ferido, até porque todos tomavam cuidado em não dar encontrões nos novos amigos.

Basicamente nadavam e mergulhavam junto dos animais e lhes tocavam com as mãos suavemente, como quem agradece a atenção e a brincadeira na água proporcionada por aqueles botos enormes e formidáveis, dotados de uma grande mansidão.

Saul continuou sem entender a principal causa daquele fenômeno, de ação pensada, decidida, combinada. Os pescadores se acostumaram com a brincadeira, e quando a pesca terminava, sempre havia aqueles que se atiravam na água para nadar junto dos golfinhos.

Por vez, sempre havia animais dispostos a participar das brincadeiras, nem que fosse só um pouco; só por alguns minutos. Até o momento em que se retiravam, anunciando que as atividades daquele dia haviam encerrado.

Saul adotou de se sentar no areal e assistir o movimento. Continuou pensativo buscando compreender aquela relação amistosa. Atribuía à generosidade de Deus, que provia não só o alimento, mas também a presença daqueles animais, que chamavam a atenção pelo simples fato de cruzarem o canal.

Foi assim, o tempo avançou e a pequena Vila do Boto, como então se tornou conhecida, regularmente passou a receber visitantes vindos da cidade, desejosos de conhecer os golfinhos, e até mesmo dar um jeitinho de participar da pescaria.

Quando andar lá por aquelas bandas, e ouvir falar da Vila do Boto, não deixe de separar algumas horas e fazer uma visita, nem esqueça de levar o seu calção de banho, ou um maiô; talvez você sinta aquela vontade de nadar com os golfinhos também.

 

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