Por: Antonio Mata
Abriu as janelas e portas para arejar e afugentar o mofo. A casa não era antiga. Aparentemente vazia, ficou aquele monte de buracos dos parafusos e buchas de plástico nas paredes. Estavam em todos os lugares e cômodos.
Chamou logo a atenção o Biologia de Campbell. Estava no chão com suas 1488 páginas, ricamente ilustrado e em capa dura. Utilizado para escorar uma porta. Não foi esquecido lá. Já estava sendo utilizado dessa forma enquanto se encaixotava tudo. No canto, também no chão, três pilhas de livros menores.
Uma sociedade qualquer leva 21 anos de estudos contínuos, desde a infância, para formar um doutor. Além de eventuais intervalos para trabalho, bolsas de pesquisa e esperas, muitas. Essa imersão pode consumir uns 30 anos facilmente. Até que o candidato obtenha um emprego estável e condizente.
Pelo meio da história, a bolsa que não veio, o contrato que não se fez, o concurso que foi suspenso ou nem apareceu. Por conta de uma autoridade governamental que não o aprovou. Na outra ponta, filhos que cresceram por crescer. Órfãos dos vivos, fizeram isso o mais rápido que puderam.
Família já não há mais. Nem sorrisos, nem brincadeiras. Cheiro de carne assando ou de lasanha. Nem ninguém brincando com água, nem pedindo para tomar um banho de chuva.
Umas poucas horas após, retornou fechando portas e janelas. Deu uma última olhada. Desligou o quadro de energia e verificou se torneiras, dentro e fora, estavam fechadas. Recolheu as contas de energia e água na caixa do correio. Trancou tudo e se foi.