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Fortaleza

                                                             

                                                                                                                              Imagem: PxHere - CCO Domínio público.

Por: Antonio Mata

As meninas sentadas na mureta, com garrafinhas de pepsi nas mãos, observavam os barcos circulando logo ali adiante. O espelho d’água sobre o Negro, criava brisa agradável que enchia o lugar de sossego.

Fizera uma paliçada com paus e cipós. A ideia era reduzir a ação do vento. Em certas épocas ficava por demais frio e levantando poeira. O pequeno arraial era o suficiente para se fazer um casebre e reunir alguns animais. Cabras, e galinhas asseguravam a carne e o leite.

O milho pequeno, do solo vermelho e ruim, era complementado com mandioca e abóbora. O suficiente para uma vida frugal, enquanto se vê a meninada crescer. Quem sabe um dia, novos ares pudessem chegar lá pelas bandas de Goiás trazendo as novidades. Daquelas coisas que nunca se viu.

Desde que não surgisse aquele vento mais forte, que fazia incomodar no rosto e encher a roupa de areia, caminhar por ali era algo apreciável. Bobagem levar sombrinhas, o vento empurra o tempo todo. Então, bom mesmo era de manhã cedo.

O barulho dos pés descalços na areia, o som das ondas bem mais adiante. Dava para andar por uma hora sem ver vivalma. Pouca gente se motivava a fazer o caminho por cima do morro e se ajeitar por ali. Talvez por não conhecerem a quietude confortante do lugar, misturada à brisa e maresia. Claro que a distância da cidade contava muito. O lugar era de repouso.

Ainda assim, aqui e ali, aparecia uma ou outra casa. Todas sempre voltadas para o mar. Não queriam fazer diferente, era meio hipnótico. Quem viu, gostou e ficou em Copacabana.

O Argus, trazia aquela gente loura de olhos claros. Olhos bonitos.  La Sofia, trazia as gentes do Trento. Alegres e falantes. O Kasato Maru, trazia um tipo muito pouco conhecido. Mas por pouco tempo. A discrição era sua marca.

A marcha do tempo recolheu as gentes de todos os cantos do mundo. Onde as paisagens bucólicas se desfaziam, outras surgiam mais além, por entre terras desconhecidas.

A empreitada, entre outras coisas, precisava reunir os corpos, as faces dos povos, das raças. A genética de tudo aquilo que fosse humano. Como quem guarda a história de todos eles. Nacos da cultura do mundo, seus feitos e realizações já estavam preservados na história espiritual da humanidade.

Contudo, havia ainda as bases psíquicas do humano da Terra. Aquilo que conferiu a identidade. O singular, o “terrestre”. Criações, defeitos e virtudes de uma história singular. Não é de Marte, nem é de Vênus. É da Terra.

Houve quem tivesse ouvidos de ouvir. “Quando começarem a explorar este planalto...”. “Surgirá uma nova civilização, correrá leite e mel.” O planalto foi o marco zero. A genética e o psiquismo terrestre continuam sendo reunidos. É o legado de uma civilização que se encerra, a uma civilização nova que já se aproxima. Logo será visível.

As melhores visões, lembranças e falas. Um mar de pensamentos e sentimentos que se movimenta e oferece suas cristas, quando a noite cai e se é liberto das amarras do corpo.

A grande fortaleza prossegue, de um lado e do outro da vida, no movimento frenético. O Brasil, a grande arca e a ponte da passagem. A salvaguarda do que se fez de melhor. 

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