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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Furtivo

 

Por: Antonio Mata.

Escolhendo calmamente o lugar para pisar, buscava se situar o mais próximo possível. Não podia fazer barulho, seu cheiro, era o cheira da mata. Tudo para não chamar a atenção e misturar-se com as sombras do mato.

Chegar mais perto e preparar um único e certeiro tiro. Mesmo assim, a operação toda era precedida de muita discussão. Em certos momentos, mais parecia uma briga, onde os cuidados iniciais se tornavam meio que inúteis.

— Me dê uma dessas, porque aí é tiro certeiro, de precisão.

— Vai se perder.

— Não vai não. A gente acha depois.

— Isso você já disse antes, e não achou.

— Não fique reclamando! É só comprar mais dez.

— Isso você também já falou. Aliás, falou, atirou e errou. Sem falar que quase leva uma carreira.

— Deixa de sê besta caboco! Foi uma vez só! Você não fala nem lembra das outras vezes que acertei.

— Eu lembro sim. Errou quatro para certar uma. É claro que eu sei e não esqueci, não.

— Deixa de miséria home! Se quiser ser bom tem que treinar para acertar na maioria das vezes.

— Então, tá. Vá treinar sozinho Marim. Chega de conversa. Eu não vou contigo mais não. Tome, é a última que lhe dou. Pode ficar, não quero nem venho mais. — João Grande se afastou, enquanto continuava falando.

— Já estão até falando que você ficou doido mesmo. Pois vai ser doido sozinho. Eu desisto de lhe acompanhar.

— Pois vá! Vocês são todos um bando de frouxos! Era eu que fazia tudo mesmo. Uma gente que não sabe nem pensar. Bando de gente burra!

Marim deixou João se afastar e sequer se despediram, tamanho o mal-estar criado entre os dois. Ficou olhando enquanto João se afastava, sem dizer palavra.

De cara amarrada, colocou a biloca no bolso e tomou o rumo do rio. Achou o lugar onde estava muito ruim. Também pudera, aquela falação toda daria para afugentar uma onça.

Ainda era cedo e, portanto, não era o caso de desistir. Mesmo com o desinteresse de João Grande.

— Tá bom assim. Sozinho não tenho ninguém para me aborrecer. A prova da caçada eu vou levar na minha mão. Se tá achando que eu vou viver de história, tá enganado.

Não tomou uma canoa. Margeava o rio, onde logo adiante havia extensa faixa de terrenos elevados, de tempos em tempos, derrubados pelas águas do rio. Subiu, e caminhava lentamente pelo alto da borda, meio oculto pelos arbustos do lugar. Prosseguiu com cautela.

Afinal, qual seria o seu propósito?

É que após o final dos terrenos elevados, surgiam trilhas feitas pelos animais que para o rio se dirigiam para matar a sede. Acreditava não ser difícil encontrar uma anta, jacaretinga ou mesmo um veado dos pequenos.

Procurou se colocar por entre os arbustos, porém próximo à trilha escolhida. Não possuía grande capacidade ofensiva e sabia disso. A ideia toda consistia em acertar o animal na cabeça, na faixa dos dez a doze metros. Havia alguma chance de sucesso.

Teria, logo após, que se aproximar do animal atordoado, para completar o serviço com uma faca. Nada mal para um aprendiz. Não fosse o fato de que nunca fizera isso antes. Daí a desconfiança de João Grande. Não só dele, mas de todo mundo.

Marim dava de ombros todas as vezes em que lhes ofereciam o seu despeito e aquele monte de piadas e gracejos. Talvez fosse isso que mais perturbasse Marim. Aquilo que mais o empurrava na direção daquela aventura.

Resoluto, porém pouco experiente no que tinha em mente fazer. Marim caminhava para jogar com a sorte, em uma região rica e pujante de belezas naturais. Mas, que pode se tornar uma grande armadilha para aqueles mais incautos em uma selva repleta de armadilhas e impensáveis perigos.

Acomodou-se no local escolhido e escondido. A vigília poderia ser extensa, enquanto o sol aumentava e se fazia sentir. Cochilou por alguns instantes.

Quando tornou a abrir os olhos, olhava adiante, na direção do rio no final da trilha. O que viu lhe prendeu rapidamente a atenção, afastando o sono. Havia acabado de chegar no local um belo e jovem exemplar de veado-campeiro.

Marim passou a fitar o animal, aguardando o momento certo de acertá-lo. O bicho aproximou-se da beira do rio e deu mais alguns passos na direção de Marim. Estava a uns sete metros, não mais que isso. Abaixou-se para beber água.

Foi quando Marim viu uma ligeira sombra se deslocando lentamente sob as águas. Não deu outra, era jacaré. O bicho parecia querer o mesmo que Marim. Sendo que sua estratégia já estava em andamento. Enquanto Marim, ainda estava na fase da observação para poder desferir um bom tiro.

Teria uns poucos segundos para desfazer um grande problema.

Não conseguiria matar o animal. Porém, mesmo que o fizesse, teria que descer logo de seu esconderijo, terminar de abater o veado e depois sair dali rápido. Com a chance de ter um jacaré, que poderia ser dos grandes, no seu encalço.

A segunda opção, acabava sendo a mais evidente, em vista das circunstâncias. Deixar que a natureza fizesse a sua parte. Afinal o jacaré já estava atuando. Fazendo aquilo que era a salvaguarda de sua sobrevivência.

Tão corajoso e valente quanto incauto. Marim fez o mais impensável que poderia existir. Do momento que a sombra se aproximava do veado tomando água, Marim saltou por de trás dos arbustos e se projetou na direção do ataque do jacaré.

Medida por si só, doida, coisa de gente desprovida de juízo. Uma invencionice só. Contudo, abriu várias possibilidades para a conclusão do intento.

Marim ataca o veado, tirando-o da frente do jacaré, ficando com a presa. O jacaré, perturbado, seria capaz de chorar de raiva.

Marim não consegue pegar o veado, mas dá um baita susto no jacaré, que não fazia a menor ideia do que poderia ser aquele sujeito com cara de gente idiota gritando na sua frente.

O caçador se projeta no ar. Se põe por cima e por trás do jacaré que, com sua bocarra aberta, já havia agarrado o veado. Só que Marim, arisco como um gato, acerta poderosa facada na nuca do bicho que estrebucha.

Solta o veado que cai no chão, com a cabeça espatifada. Em seguida morre, golpeado por Marim que sai vitorioso. Matou o jacaré e ainda levou o veado-campeiro junto.

A sanha dos caçadores é caprichosa, e às vezes mais jocosa do que o monte de mentiras que eles gostam de contar. Gostasse Marim ou não, o fato é que não foi nada disso que aconteceu.

Marim saltou gritando como um louco, levantou a faca e golpeou a nuca do jacaré. Só que no meio daquele escândalo, errou o golpe, acertando a couraça do bicho, sem conseguir perfurá-la.

Três coisas aconteceram quase que, ao mesmo tempo. O jacaré-açu, virou para ver quem era o retardado na beira do rio tentando furar sua couraça com aquele canivete. O veado, com aquela bocarra aberta na sua frente e aquele maluco gritando, ficou sem saber de onde vinha o perigo e entrou em colapso. Morreu sem saber o que estava acontecendo.

Já Marim, olhava para o jacaré-açu e, ao mesmo tempo, olhava para o veado, logo ali na frente. Alguns segundos se passaram, enquanto o veado morria, o jacaré-açu tomava fé da doideira toda e Marim começava a entender que estava na hora de dar no pé.

Atabalhoadamente, mas aproveitando que estava com o sangue cheio de adrenalina, saltou para trás e botou para correr como um louco, tentando se afastar daquela boca monstruosa.

O bicho de rabo, viu Marim se afastar, pois entendeu que ele é que era a presa e não mais o veado. É lógico que não era nada disso. Mas com a bagunça toda e carregando um cérebro que é do tamanho de um dedo polegar, o jacaré já estava fazendo tudo errado. 

Provido de um cérebro tão pequeno, lá dentro, agora só cabiam três pensamentos. O primeiro: correr atrás de Marim. O segundo: pegar o Marim. O terceiro: comer o infeliz que o tinha feito abandonar de um veado novo e suculento, literalmente no papo.

Instintivamente correu atrás daquilo que seria, supostamente, uma ameaça. Deixando para trás um veado-campeiro, ainda de sangue quente. Vai entender cabeça de jacaré-açu.

Corria com aquele peso todo, mais de 200 quilos, atrás de Marim, que disparava, desesperado, na direção da terra caída, tentando escapar da perseguição.

Com a beirada muito estreita e o solo fofo, correr se tornava difícil, o que impedia que Marim tomasse maior proveito da adrenalina em seu sangue. Ainda assim avançava, com o animal enlouquecido em seu encalço.

Em dado momento, lembrou-se da última biloca que havia recebido de seu amigo João Grande. Em um último esforço desesperado, preparou rapidamente a baladeira para o seu único disparo. O que se deu em seguida.

Marim havia parado de correr. Voltou-se para o animal, que rapidamente o alcançou, abrindo a bocarra mais uma vez. Foi quando Marim disparou o projétil de vidro. A esfera adentrou o fundo do céu da boca do animal, ofendendo o cerebelo.

Não foi um grande estrago, nem profundo no seu movimento. Mas atingira um ponto vital, ainda que levemente. O animal entrou em convulsão, que teria sido momentânea.

Marim entendeu que havia ali, alguma vantagem e atracou-se com o animal meio imobilizado. Trepou em suas costas e desferiu mais um golpe, dessa vez certeiro. Perfurou a nuca do jacaré-açu, perfurando o cérebro do animal, que dessa vez estrebuchou até a morte.

Espetacularmente, e de forma inacreditável, Marim vencera. O monstro do rio estava abatido a seus pés. O veado-campeiro, caído sem vida, mais adiante.

Apanhou a canoa e tentou colocar os dois bichos dentro dela. Mais que difícil, mostrou-se impossível, por conta do tamanho. Teve que pedir ajuda na cidade, sob pena de perder seus troféus para os demais bichos da mata.

Já na cidade, Marim aproveitava para contar aos quatro ventos, sobre o dia em que “uma pessoa sozinha na mata, conseguiu abater um veado e capturar um jacaré dos grandes".

Então, é assim que contam, lá pelas bandas do Purus, no trecho em que aparecem as falésias de rio, as terras caídas. A história de Marim, que pegou um jacaré-açu com baladeira e faca, e um veado-campeiro que morreu só de susto.

                                            FIM

 

 

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