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Galego

                                                                               

                                                                                                                                                          Foto: SBN74

Por: Antonio da Mata

O passo lento, cadenciado, arrastado sob o peso que carregava, sua visão, sua passagem falavam de algo que o tempo levou. Contudo, ainda presente nas memórias de quem assim viveu.

Quantos ofereceram a força de seus braços e costas para tracionar o carro de madeira? A camisa suarenta, as calças rotas. O som dos tamancos com tira de couro cru, os identificava à distância. Retrato de quem veio para o Brasil abrir caminho literalmente à força. Homem de tração, circulava pelas ruas do  centro Rio de Janeiro, fazendo aquilo que encontrou para fazer.

O carro de duas rodas, feitas em ferro doce maciço, sem  borracha, ou pneumático. De desenho parecendo desproporcional, muito longo e muito estreito. Era uma superfície em tábuas de madeira, sem hastes laterais. Na frente, dois braços extensos em madeira para o homem puxar, tal e qual se faria com um animal de carga.

Parecia que a ideia contida na coisa, era poder circular na extremidade das ruas da cidade, sem com isso atrapalhar o trânsito dos veículos, já que transitava sobre o asfalto. Eram os biscateiros, a oferecer frete nas ruas. Da zona sul da cidade, passando pelo centro, até a zona norte, os biscateiros a frete  estavam em todos os lugares.

Muita gente, na primeira metade do séc. XX imigrou de Portugal para viver de subemprego no Brasil. Faziam toda sorte de serviços que os brasileiros daqueles tempos, se recusavam a fazer. Perceba-se então, que trabalhadores portugueses e brasileiros não eram concorrentes, tanto quanto hoje, brasileiros e norte-americanos não o são. Ainda que as razões sejam diferentes.

Era quando chamavam os galegos, para cumprir jornadas de trabalho extenuantes. Era comum que fossem superiores a doze horas, ao dia, chegando a extensas 16 horas. Principalmente antes de Getúlio Vargas e as leis trabalhistas.

Em data recente, os noticiários davam conta de que cerca de 120 mil brasileiros haviam aportado na terrinha, em busca de emprego. Este número equivale a algo em torno de 2,4% da população economicamente ativa de Portugal.

Surgiram os descontentes por conta daquilo que consideravam uma invasão de seu país. Isto é fácil de entender.

Imagine que por uma circunstância qualquer o Brasil se viu diante de 2,5 milhões de estrangeiros, que adentraram o país e que agora estão em busca de trabalho. Foi mais ou menos isso o que aconteceu por lá. Volte agora aos 120 mil, e imagine então que o Brasil é menor que o estado de Santa Catarina. Evidentemente que o país não teria como atender estes 2,5 milhões em um curto espaço de tempo.

Lembrando que a estimativa de haitianos e venezuelanos, hoje no país, é de aproximadamente 322 mil estrangeiros. O número de haitianos e venezuelanos que não gostaram e já foram embora é muito maior. Deu para entender o drama dos lusitanos do início do século XX?

O mesmo desprezo que alguns brasileiros comentam, quanto a forma como são recebidos entre os portugueses, não é diferente daquilo que a geração de seus avós recebeu, quando chegou no Brasil. Assim, a Lei de Causa e Efeito está em pleno transcurso.

Com certa frequência se encontra a expressão “povos irmãos”, nos textos relativos a esta relação entre brasileiros e lusitanos. Contudo, esta irmandade ainda espera pelo seu cumprimento, de fato. Os dois povos desconhecem a atuação desta lei que exige tratamentos iguais. Sendo assim, quem maltratar, será maltratado.

Chegou-se a um momento crítico de nossas existências, e o despreparo é grande. Nem sequer o decálogo de Moisés, para citar o começo de tudo, foi atendido.

Oremos ao Criador para que as diferenças entre os povos possam ser superadas em bases mais pacíficas, e que os conflitos entre os homens de nacionalidades distintas, se mantenha ao menos, no nível das piadas de mau gosto, e nos apelidos que o próprio tempo há de levar. Afinal, o tempo passou e a maioria sobreviveu para contar suas histórias.

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