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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Heroína

Por: Antonio Mata

O salão sombrio, sujo e imantado de vibrações pesadas. Nas janelas, por onde não passava nenhuma luz, grades impediam qualquer tentativa de fuga.

Nas paredes as gravações mentais feitas com uma espécie de tinta enegrecida e gosmenta. Onde ninguém precisava escrever, simplesmente brotavam. Palavrões, insultos, ideias torpes e enlouquecidas. Aquela escrita tinha cheiro. Pestilento e nauseabundo, invadindo as narinas.

O amontoado de jovens circulava no lugar fechado, entre soluços, choros e gritos. Ainda assim, precoce ranger de dentes. Resultado de antigas escolhas, antes da infância, antes da juventude. O aprisionamento foi algo, cujo plano sórdido e pacientemente engendrado, extrapolava os limites de uma vida.

O lamento mais comum, de toda hora, de todos os momentos. Lembravam e pediam por suas mães, por mais lamentável que possa ter sido este relacionamento. Uma rede repleta de incompreensões e falências, pelos mais diversos motivos. O passado, sempre o passado.

Pinóquio, aquele boneco de pau. A presa fácil dos malandros. Mais um na cidade da fantasia, cheia de doces e facilidades. Até ser transformado em um burro. Uma mera e graciosa reminiscência.  Um flash, de algo incomparavelmente pior. Só uma história para entreter as crianças à noite.

O amontoado de gente, quando cansava de caminhar em círculos, se deitava no chão de cimento frio. O pavor, a insegurança e o medo eram maiores que qualquer desconforto.

Prisões mentais, hipnose nas quais se viram envolvidos. Como? Haveria de alguém perguntar. Qual o propósito de tamanho despautério e crueldade? O que se ganha com isso? Resposta: Poder, a manipulação das mentes. A subserviência sem fim. Um mundo de mentes escravizadas. Crianças e adolescentes sempre foram alvos fáceis.

Em dado momento a única porta de acesso se abriu. Seres envoltos em capas pretas e capuzes se enfileiravam, logo após a porta. Por último entrou aquele que parecia ser o líder. Envolto em fumaça negra, tendo a seus pés, formas que lembravam aranhas e morcegos que se estendiam por onde passava. Encarava a nova remessa capturada. Apontava e dava as ordens.

— Aquele no canto, aquela magrela, aquele preto... — Um a um, seriam reunidos em grupos menores.

Como isso pôde acontecer? Juventude, espíritos que se perderam pelos caminhos, mentes adoecidas e dominadas, provocando seu desencarne ainda jovens.

Primeiro, abriram espaço para a violência verbal, depois desejos de vingança, até os limites da violência física. Tão comum nos lares e nas escolas.

Tendem a ser fiéis ao grupo de jovens, normalmente da escola e suas ofertas. Quem aceita as determinações do grupo, pode entrar. Quem não aceita é tratado como idiota e por isso, excluído. Acabam cedendo. Aos poucos, sem pressa, vão adentrando os cenários da drogadição, presentes em todos os cantos do mundo.

É um preparatório. A meta, cada vez mais próxima, é o suicídio coletivo. Existem grupos devotados ao bem. Existem grupos sob forte presença de entidades enfermiças.

O propósito era macabro e covarde. O grupo selecionado seria conduzido a um processo de lavagem cerebral. Voluntário se possível. Debaixo de surras se necessário, até que resolvessem ceder. Meninos e meninas transformados em zumbis à força. Cegos, dementados e subservientes.

Concluído o processo, seriam encaminhados à crosta terrestre para contribuírem. Destruindo e aprisionando outras tantas mentes jovens e débeis. Sempre uma leva após a outra, quando então, tudo se repetiria.

Entrementes, dentro do salão transformado em prisão, havia uma menina de uns quinze anos. Pequena, muito pálida, de aspecto franzino, de cabelos negros, fazendo rabo de cavalo. Porém, não estava ali para ser molestada.

Seu fio de prata, que facilmente denunciaria a pequena socorrista em missão de resgate, fora ocultado às vistas dos trevosos. Estes estavam tão desatentos que nem prestaram atenção na única entre os presentes que usava um par de óculos de aro redondo, daqueles grandes. O que lhe valeu, em sua escola, o apelido de corujinha. A menina se projetava de óculos e cabelos presos.

Quando percebeu o que aconteceria em seguida, ela, portadora de uma daquelas vozinhas estridentes capazes de machucar os ouvidos, mesmo no umbral, se pôs a gritar.

— Gente, corre, corre para os fundos da sala, corre agora! Corre todo mundo, depressa!

Tomados pelo medo de serem capturados (de novo), como se fosse um estouro de boiada, agora corriam desembestados, rumo ao fundo do salão.

Foi quando alguém gritou.

— Não tem saída no fundo, não tem saída! Vão pegar a gente!

— Não vão não, continua correndo! Não vão pegar ninguém! Continua, continua! — A vozinha estridente partia do meio da confusão. Onde quase ninguém conseguia vê-la. Tinha desaparecido em meio a correria. Nem por isso parava de gritar e orientar os demais.

— Corre na direção da parede, como se tivesse uma porta lá! Acredita! Acredita!

Quando alcançaram a parede, todos fizeram menção de parar, menos a corujinha. Continuou gritando e correndo até se chocar com a parede.

Só que isso não aconteceu.

Atravessou a parede do salão como se tal parede não existisse. Enquanto, gritando, chamava os demais. Muita gente entendeu, tornou a correr e se arremessou contra a parede, cruzando seus limites e chegando em uma área de floresta.

Olharam para trás e viram os trevosos procurando junto à parede, sem saber o que havia acontecido. Então, se voltaram para aqueles que não haviam conseguido passar. Estes saíram em uma correria sem destino.

Ao ver o que se passava, a pequena corujinha retornou ao salão. Mais uma vez sugestionava os demais. Era preciso retirá-los dali. O mais rápido possível.

— Corre para as janelas, para as janelas! Estão sem grades, não tem mais grades. Fujam pelas janelas, depressa!

— Na correria, observaram as janelas e de fato já não viam mais as grades que estavam lá momentos antes. Além de se encontrarem abertas.

Passaram a saltar às cegas. Sequer pensaram em verificar se estavam no térreo ou em andares mais elevados. Tamanho era o desespero em sair dali de dentro.

Caíram na floresta, onde se encontravam os demais. A corujinha socorrista, agora com o apoio de outros jovens e demais trabalhadores, já na floresta, recolheram os fugitivos e os levaram para lugar seguro.

No salão-prisão, seus verdugos caminhavam de um lado para outro, sem compreender coisa alguma. Já não havia mais ninguém ali. Os olhos do líder se tornaram de um vermelho vivo.

— Um bando odioso de incompetentes, irresponsáveis e inúteis!

Vociferava, enquanto desferia pancadas com um bastão, nas costas de seus zumbis. Estes, intimamente, lamentavam sua própria sorte e lhes crescia o desejo de fugir dali também. Depois das pancadas, quando o líder se afastou, cochichavam entre si. Queriam saber daquela vozinha estridente, queriam saber se poderia voltar. Queriam correr para a parede e para as janelas também.

Assim, a manhã chegou.

— Lucinha, Lucinha, minha filha. Hora de levantar, tem escola. Você dormiu de óculos de novo Lucinha! Tá querendo quebrar é? Tá com dinheiro pra comprar outro?

Lucinha, acordando e ajeitando os óculos, lembrou de uma coisa.

— Mamãe, mamãe, eu tive um sonho, um pesadelo, uma coisa, sei lá. Mas eu tive!

— Uma coisa, sonho, pesadelo? Afinal, o que foi?

— Eu estava em um salão muito grande...

De todas as idades; de todas as raças; em todos os lugares; de todas as formas; em todos os momentos da vida, os emissários do Bem sempre se farão presentes. Cristo Salva.

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