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História de Morgana

                                                                                                                                                   

                                                                                                                      Foto: Vikram Nair

Por: Antonio Mata

Sempre altaneira e bonita, projetava seus belos olhos bicolores. Branca, esvoaçava sua beleza ao vento da manhã fria, mas agradável. Prosseguia em seu passeio solitário no pequeno bosque nas proximidades do lugar onde morava. Havia sempre, muito pouco movimento no pequeno aglomerado residencial, um tanto quanto afastado dos burburinhos e ruídos da cidade.

O acesso, por fácil que fosse, terminava em uma única rua sem saída, o que restringia mais ainda o movimento no lugar. De pé, mas confortável em seu casaco, apreciava as folhas secas espalhadas no chão e o som característico quando eram empurradas, vez por outra, ao sabor do vento naquela paisagem calma da manhã, vagamente interrompida por algum veículo deixando o local.

Envolveu-se por aquele frescor, emoldurado por um céu muito azul. Havia chovido no dia anterior e limpado o ar, não só da poeira, mas também de nuvens. Sentou-se ao chão para apreciar aquele quase silêncio; queria contemplar aquele azul profundo de folhas castanhas ao redor.

Contemplação, era o que buscava; foi o que encontrou. Contemplação, foi o que perdeu. Trazida de volta à realidade por passos fortes pesadamente no chão, como quem salta e cai rápido em um ponto logo atrás de si mesma.

O barulho repentino e surdo trouxe-a de volta de seu relaxamento e contemplação matinal, mas de uma forma um tanto quanto preguiçosa e lenta. Demorou-se, sem reflexos para reagir.

Lhe veio à mente um fragmento de pensamento e nele a figura meiga e amiga de Leila, que a viu pequenina, carregou no colo, deu banho, a viu crescer e lhe ensinou um monte de coisas e a ajudou a ser o que era hoje. O porte bonito e elegante tinham a ver com aquela grande e antiga amizade.

Antes de qualquer outra coisa, foi este o primeiro pensamento, ainda que sob a forma de um pequenino fragmento, solto e repentino, quase que um pedido de socorro.

Não era tola, nem nenhuma gata-borralheira que não sabe ou não entende o mundo em que vive. O risco é um fato, se precaver dele; uma necessidade. Se a vida já era assim, ou se ela se tornou  assim; agora não importava mais.

Aqueles míseros segundos que podiam fazer a diferença entre a reação e a surpresa já haviam passado sem que tivesse percebido. O que viria a seguir eram verdadeiros retratos de pavor. Estava só, afastada de casa, e a paisagem idílica, agora emoldurava um varadouro ermo.

Um e outro veículo passando; já não era mais nenhum. A beleza, quando interrompida perde todo o seu valor. Já passou; não faz mais diferença.

Dentes fortes foram cravados em seu pescoço, vindos de trás. Sem poder se virar e mal tocando o chão, esticou os braços por puro ato reflexo, não havia onde pudesse se apoiar.

Era fim de história, fim de vida. Bastaria um único solavanco para o espírito se esvair daquele seu corpo agora deteriorado; não prestaria mais. O barulho oco de seu pescoço partindo, assinaria o final de uma vida bela e bem vivida, entre amigos queridos, jardins perfumados e caminhando por sobre as pétalas no chão. Amigos amados e fiéis.

Deus ampara os inocentes, mesmo em situações extremamente adversas, onde a vida é só um sopro e pode cessar a qualquer momento. Na velocidade do ataque, a energia potencial contida nele, provocou uma derrapagem na folhagem com terra ainda úmida por debaixo das folhas mortas.

Isto era por conta da chuva na tarde noite do dia anterior. Repentinamente os dentes afiados, concebidos para o golpe certeiro, no corpo em desequilíbrio, de fato resvalaram; mas não sem antes rasgar parte do pescoço e ferir a cabeça.

Porém; foi o suficiente para que ela se recuperasse de sua quase inércia e pudesse se levantar, enquanto seu agressor escorregava no declive molhado; tal e qual um tobogã da ação Divina que afasta a morte e oferece a fuga; a chance da vida.

Os dez ou doze segundos que se seguiram; foram no mínimo eletrizantes. Aquelas ações relâmpago que só a adrenalina encharcando o sangue explica. Correu como nunca havia corrido na vida com seu agressor em seu encalço disposto a recuperar a presa.

A janela estava lá e já se aproximava, se estava aberta ou se haviam fechado; não interessava mais. A fuga era por ali e a janela era aquela. Ou saltava e entrava, ou estourava a cabeça na vidraça de uma vez.

Quanta coragem, quanta bravura, determinação, sede de viver, recusar-se a morrer. Mas se aquela janela estiver fechada, Deus tenha piedade dos inocentes.

Não estava, entrou igual foguete de festa de São João, com o cão; seu perseguidor se detendo com um estrondo oco e um esbaforido no parapeito da janela. Melhor, a cozinha era no prolongamento, cruzando a sala e encontrando Leila, de macaquinho; apanhando o pó para o café. Aterrissou, quase sem vida diante da amiga e mostrando a cabeça ensanguentada e a boca ofegante.

— Morgana meu amor, o que foi isso? Que fizeram com você? Pobrezinha! Leila tentava se localizar diante dos fatos.

Pegou sua filha nos braços e entre a surpresa e a urgência de socorrê-la buscou água-oxigenada para lavar o ferimento. Pensava preocupada na possibilidade de o ferimento da cabeça ter afetado internamente, o que seria trágico. Pegou rápido o celular:

— Rui, a Morgana foi atacada no pescoço e na cabeça, vem rápido, acho que ela está sofrendo muito!  

Não demorou e Rui, um amigo bancário que morava perto, apareceu para ajudar a socorrer a linda e ferida Morgana. Nenhum dos dois era veterinário, mas onde falta a academia, aparece o exercício, a prática; a atenção em episódios passados; e o amor pelos animais.

Os primeiros socorros, sempre úteis nestes momentos, podem deter sangramentos, infecções e muita dor; com limpeza do ferimento e desinfecção.

Puderam verificar que o corte na cabeça não era profundo, não a ponto de criar fragmentos de ossos, e pior; fazer perfuração. Ainda que uma ligeira trilha esbranquiçada fosse visível.

Era a superfície do crânio. Rapidamente levaram Morgana a um veterinário que completou as medidas de urgência com mais adequação. Anestesiou localmente a pequena gatinha ruiva, suturou todo o seu ferimento e medicou-a.

Morgana ganhou um colar elisabetano fixado em torno do pescoço e preso em volta dos braços dianteiros e do peito para evitar que se deslocasse e ficasse sobre o curativo.

Deve ter detestado aquilo tudo, achado mesmo um insulto; depois de tudo o que sofreu. Em que pese os impedimentos, tinha o carinho dos amigos, a proteção de entes queridos, aos quais depositava plena confiança. Morgana, a mais querida da casa, estava em paz mais uma vez.

Quatro semanas depois, já podia ser vista junto do bosque com seu jeito altaneiro, o olhar bonito e a bela e fofa pelagem branca. Mas dessa vez estava no colo de Leila. É mais seguro, mais confortável e mais gostoso. Bem do jeito que os gatos gostam.

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