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Intenso

                                                                         

                                                                                                                                            Foto: Yoal Desurmont

Por: Antonio Mata

Já se passavam oito anos desde a realização daquele que considerava ser o seu maior sonho. Apaixonado por automóveis desde criança, logo após a escola, gostava de passar o resto do dia com o pai, na pequena oficina mantida pelo mesmo para o sustento da família.

Dedicado e muito próximo ao pai, já viúvo, acabaram sonhando juntos por dias melhores. Não deu outra, por volta dos 14 anos Bernardo já ganhava seus trocados junto a oficina do pai.

Quando havia completado 18 anos, seu pai encontrou um terreno à venda, plano, em local que já indicava ser bom ponto para a prestação de serviços de oficina.

Era próximo a ruas de muito tráfego, e nas imediações já se encontravam bairros residenciais maduros, onde os moradores já estão dispostos em investir em um automóvel. A clientela natural já estava crescendo no lugar.

Foram dois anos para pagar o terreno e mais dois para montar o primeiro piso do prédio e começar a trabalhar. Outros dois seriam necessários para construir a residência no piso superior. Hélio, seu pai, havia reservado 50m², e mais 11m², para um apartamento térreo com uma pequena garagem.

Não queria renunciar à sua privacidade, já que Bernardo tinha em mente constituir sua própria família. Assim preferiu deixar a casa livre para o filho, uma vez que estariam todos sempre por perto.

Afeto aos detalhes, teve o cuidado de forrar o teto da oficina com bandejas de ovos, que foram pulverizados com tinta. A ideia era evitar que os ruídos da oficina perturbassem os moradores no piso superior.

Assim, 14 anos já se passavam. Bernardo e seu pai colhiam os frutos da dedicação e do trabalho. A oficina cresceu conforme esperado. Passou a oferecer também serviços de auto elétrica, funilaria e pintura, vindo a se tornar referência nos bairros próximos.

Vieram os filhos de Bernardo e Solange, um menino e duas meninas. A família era próspera e a vida seguiu seu caminho natural.

Em que pese seu gosto pelos automóveis, mesmo a família tendo atingido patamares de renda mais folgados, Bernardo nunca abdicou de sua condição de voluntário, aprendiz e trabalhador, em trânsito pelo mundo. Acreditava piamente na possibilidade de servir a Deus, a partir daquilo que fazia.

Por isso não se dava ao luxo de esquecer os dias de dificuldades junto de seu pai, pois perdera a mãe, vitimada por um câncer avassalador, criança ainda. Tanto quanto sabia colher os frutos do seu trabalho, também sabia compartilhar, não se esquecendo daqueles que não tiveram as mesmas oportunidades.

Acordou, acreditava que no horário de costume. Ela olhou da direção da janela de seu quarto, que ficava de frente para o sol nascente. Costumeiramente veria pela fresta, os primeiros raios da manhã. Era o sinal para levantar-se e cuidar do café.

Prestimosa, Solange deixava o café na mesa, antes de acordar os filhos para a escola. Nisso, com os sons da manhã na cozinha, Bernardo também já estaria de pé.

Não viu luz na fresta. Ainda assim, deveria haver alguma luminosidade, mesmo em um dia nublado.

Levantou-se e abriu a cortina da janela. O que viu lá fora não tinha nada de familiar. Vestiu-se, foi até a sala, onde o relógio de parede marcava o horário de costume. Saiu até a varanda e viu então uma cena diferente, algo que nunca tinha visto, não naquele lugar, até ali.

O céu estava estranhamente cinzento. Havia um lado perturbador no que via, por outro lado era de uma rara beleza. Lembrou então de certo passeio à região serrana, onde as nuvens parecem se apresentar mais baixas. Só não era a mesma coisa. Deduziu que provavelmente haveria ali mais umidade que o normal, daí a escuridão.

Olhou para trás na intenção do voltar ao quarto. Bernardo já estava junto à porta, olhando aquele espetáculo diferente, tão impressionado quanto ela.

— Olha só Bernardo, as nuvens estão quase no chão, mas dá para ver toda a rua normalmente. Estão logo acima do telhado. É estranhamente bonito, e ao mesmo tempo assustador. Como algo que está no lugar errado, e do jeito errado.

— No lugar errado. Parece que agora é o seu novo lugar. Por quanto tempo?

— Não faço a menor ideia. Será que tem um aguaceiro para cair daí?

— Eu não apostaria em nada. Mas, a cara de chuva é enorme.

Solange olhava na direção da rua mais uma vez.

— E agora Bernardo?

— E agora? Agora é hora de se ter calma e botar a cabeça para funcionar. Talvez já tenha alguma coisa circulando pela tv, Internet ou pelo rádio. Vou dar uma olhada.

— E as crianças? Têm que ir para a escola.

— Espera um pouco, vamos ver o que mais já existe.

Encontrou na rede pessoas tão impressionadas quanto eles dois. Na tv e rádio, a coisa não era muito diferente. O que havia de concreto naquele momento, é que a camada era extensa, talvez cobrindo toda a cidade. Acumulava muita umidade, daí o fato de estar escura. Circulava aparentemente devagar, pelo menos no período da manhã.

Bernardo entendia que a capa de nuvens não estaria escura por falta de luz, pois já havia amanhecido. Acreditava que seriam mais espessas que o habitual.

Isto sim lhe era preocupante, pois no caso de precipitação, significaria mais chuva sobre o ponto. Portanto mais água caindo no mesmo lugar para um mesmo intervalo de tempo.

Sugeriu a Solange que deixasse as crianças em casa naquela manhã, só por precaução. Continuava acreditando que aquele céu não estava escuro à toa.

Durante o dia, abriu a oficina normalmente, recebeu os funcionários e a clientela se fez habitual. A despeito daquele céu esquisito, as pessoas estavam conduzindo suas vidas como de costume.

 É a tal história: quem conta um conto aumenta um ponto. As opiniões e os achismos se multiplicaram ao longo dos dois dias seguintes. Estes não interessavam a Bernardo, aguardava algo mais concreto.

O que se pôde apurar nos boletins meteorológicos da mídia de um modo geral, tinha a ver com a extensão. Não só sua cidade, mas toda a região, todas as demais cidades, estavam encobertas.

A espessura da camada, de fato havia aumentado. Assim, já se sabia que havia mais água que de costume nas imediações. Começou a se interessar por uma certa nuvem cumulonimbos. É o nome daquelas nuvens que provocam tempestades, produzindo raios, ventos fortes e muito aguaceiro.

Essa nuvem sozinha fazia as orelhas de Bernardo tremerem. Além disso, a temperatura caiu substancialmente, fazendo frio de dia, algo anormal, até mesmo para aquela época do ano.

— Solange notou uma coisa? O silêncio dessas últimas manhãs. Os passarinhos fazem um piado aqui e ali, mas aquela cantoria de todas as manhãs, já não fazem mais. É como se estivessem incomodados com alguma coisa.

— Talvez não sejam só os passarinhos, não. A Penélope, ontem  sumiu. Bastou abrir a casa, ela saiu a não voltou mais. Ainda bem que já está castrada. Ninhada de gato de rua, aqui dentro nem pensar. A vizinha aqui do lado me disse que seu cachorro também resolveu ir embora, e logo no primeiro dia. Ainda não voltou.

Parou de falar um momento.

— Por falar em bicho, você tem visto algum bicho nas ruas?

— Bicho nenhum, e não estou gostando nem um pouco disso. As minhas orelhas não sossegam mais. Está na hora de fazermos alguma coisa. Está na hora de fazermos como os animais.

— Está falando de irmos embora? Perguntou Solange espantada.

— Sinceridade? Se estivéssemos na beira de um rio, já estaria pensando exatamente nisso. Estamos em uma planície. A taxa de escoamento de água é ditada pela gravidade. Se aumentar a quantidade de água no ponto, adivinha o que irá acontecer?— Ainda completou.

— Além disso, a cidade é muito impermeável. Além da água circular a uma só velocidade, esta poderá cair por conta dos obstáculos. São muros, casas, prédios. Tudo isso poderá fazer as águas passarem mais tempo no lugar.— Finalmente completou.

— O que podemos fazer? Perguntava Solange.

— Preciso pensar, mas tem que ser para hoje.

Naquele dia resolveu fechar a oficina mais cedo e dispensar os funcionários. Pegou o carro e foi dar uma volta, antes que as lojas começassem a fechar.

Na sua mente uma ideia central norteava suas ações. Deus cria seus filhos para a autonomia, e não para destruí-los na primeira oportunidade, muito menos afogá-los, pura e simplesmente.

Sabia que precisava tomar alguns cuidados. Crescia na mente de Bernardo a ideia de sobreviver. Fosse o que fosse que os próximos dias trariam, não iria esperar para ver. Aceitaria o bom combate, como sempre fizera.

De antemão já sabia que não havia propriamente uma rota de fuga. A mídia dava ciência de que vastas extensões do globo estavam envoltas sob grandes camadas de nuvens muito baixas.

Se preparou para proteger sua casa e sua família. O segundo piso não possuía laje. Cobriu o telhado com uma camada de manta asfáltica para suportar melhor os impactos, ante a possibilidade de uma chuva de granizo.

Na oficina e no apartamento de seu pai providenciou cavaletes e estruturas em madeira para receber máquinas, mobiliário e o que mais se pudesse suspender. Sugeriu ao seu Hélio que ficasse residindo no andar superior, só por precaução.

Providenciou uma pequena reserva de alimentos, para que não fossem pegos de surpresa, além de água potável suficiente para suportar uma eventual falta de abastecimento.

Com a ajuda da esposa, as camas foram cobertas com folhas inteiriças de plástico, para o caso de surgirem goteiras, ou o telhado vir a romper, sem desabar evidentemente. Também as roupas de cama, cobertores, mantas e abrigos foram postos em sacos plásticos. Preocupação em manter a todos agasalhados, dos pés até a cabeça. Andar descalço estava totalmente fora de cogitação.

Delineavam sua estratégia mínima de enfrentamento de possíveis dificuldades futuras, quando então os ventos se tornaram mais intensos. O frio, agora impulsionado, se fez cortante, e um certo roncar ressoando na atmosfera, antes eventual e limitado, agora abria seu estrondo e parecia ter vindo na condição do arauto. Seja o que for, estava prestes a acontecer.

Mais uma vez Bernardo dispensou os funcionários mais cedo, avisando a todos que se as condições de tempo piorassem, deveriam permanecer todos em casa.

Naquela noite houve muita expectativa quanto a chegada de um aguaceiro. Bernardo reuniu a mulher e os filhos, no intuito de acalmar a todos. A oração, o argumento pacificador por excelência, unia a todos em um único pensamento endereçado ao Criador, e a Jesus, seu mensageiro.

A despeito do barulho todos caíram no sono. Quando chegou a manhã do sexto dia, a tromba d’água se fez presente. Intensa, pesada, cercada de estrondos e ventos fortes. Bernardo e Solange prestavam atenção no telhado, pois teria que resistir. O andar térreo era quase certo que seria alagado.

Lembrando uma saraivada de balas, as gotas de chuva sob o vento forte crepitavam por sobre o telhado, portas, janelas e vidraças. Não perceberam a presença de granizo. O barulho das trovoadas sucessivas e do vendaval se fazia ensurdecedor. Muito além daquilo que costumava ocorrer.

Ao final da primeira hora de tormenta, já era perceptível que as casas térreas da rua já tinham sido invadidas pela água. Bernardo estimara em no mínimo hora e meia de aguaceiro, antes que a tempestade passasse.

Após a tempestade principal passar, seguiu-se várias horas de chuva moderada. Isto simplesmente repunha a água escoada, mantendo o alagamento na região. Somente após o meio-dia as chuvas cessaram. Aparentemente, o primeiro teste havia se concluído.

As pessoas saíam de suas casas, com tudo ainda alagado, para ver o estrago ao redor. Carros arrastados e amontoados pela enxurrada, casas onde muito se perdeu e o esforço para se retirar a lama e ver o que sobrou. A cidade nunca tinha visto nada igual.

Preocupante erro dos moradores, ao entrarem na água suja da enxurrada, e gelada. Um termômetro fixado na varanda, onde Solange vislumbrou aquele estranho cortejo de nuvens pela primeira vez, indicava, às 12 horas, impressionantes 2°C, em uma cidade tropical em pleno verão. Como seria a noite daquele povo todo molhado, a temperatura caindo, e sem energia?

Antes das 13 horas, o céu se encontrava escuro, o frio cortante fora aliviado com a diminuição dos ventos. Ao término da precipitação, as nuvens baixas e escuras permaneciam lá. Não havia 20 metros de altura, uns 15 metros talvez. Solange enxergava as nuvens logo acima da oficina e da cumeeira de sua casa, só isso. Menos de 10 metros. Um certo sentimento claustrofóbico começou a se apoderar de algumas pessoas.

Amigos e parentes pediam que olhassem sempre para a frente, ou apenas retornassem para suas casas, afirmando que aquilo já estava acabando.

Ledo engano, ou melhor, ninguém sabia propriamente quando seria o final. Convidados a orar, primeiro uma fala nervosa, balbuciada e assustadiça. Somente aos poucos se acalmariam e teriam um pouco mais de segurança.

Bernardo, atento e prestativo, guardara mantas adicionais, pensando naqueles que não as disporiam, ou simplesmente molhariam tudo na confusão reinante, com suas casas invadidas pelas águas, talvez destelhadas e tudo encharcado.

Voluntários se organizavam para oferecer socorro aos demais buscando encontrar desaparecidos na semiescuridão. Ainda não se sabia sobre perdas de vidas. De fato, aquela cidade não tinha histórico de enchentes, daí não prestarem muita atenção.

Bernardo estava entre os socorristas, e onde suas poucas reservas pudessem ajudar. O predomínio da fé e o desejo honesto de servir os empurrava adiante, sobre botes, à procura de pessoas isoladas e, eventualmente, corpos.

Quando começaram a identificar casas desabadas no aguaceiro, pois simplesmente já não estavam mais no lugar, deduziu-se que haveria mortos. Em uma única rua contaram seis casas desaparecidas. Mais adiante, os corpos só começariam a surgir no dia seguinte.

Com o tempo, algum apoio mais efetivo tenderia a chegar. Preocupava-se particularmente com as mentes mais frágeis que enxergavam o fim do mundo, enquanto o processo provacional mal havia se iniciado. O refúgio é na oração, a luta era pela sobrevivência.

Sabia que não seriam aniquilados, só não se permitia ser tolo e se entregar ao nada fazer e tudo, apenas assistir. Espirituoso, cresceu com aquela gente, sofria com aquela gente, e os animava a não desistir. A mente humana tomada pelo medo, pode assumir atitudes de fuga, pela loucura do suicídio.

A maioria ainda não compreendia a sobrevivência do espírito, muito menos a reencarnação, o retorno daqueles que um dia partiram. Por conta disso, sofriam, e por antecipação, pois os corpos ainda não haviam sido encontrados. Ainda poderiam estar entre os sobreviventes, só que temporariamente isolados. Outros estariam vivos, só que em outra dimensão.

A casa terrena estava sob processo de assepsia intensa e profunda. Esta era apenas mais uma. O mundo doentio chegara ao seu ponto de saturação. Mecanismos transformadores, tão naturais quanto o ato de se viver são acionados. Joio e trigo se separariam mais uma vez.

As descargas elétricas mais próximas do solo visavam a limpeza de miasmas que saturavam o ambiente terrestre, agora envolvidos pela própria nuvem. As camadas de nuvens de tempestade, oferecendo ventos intensos, criavam a dinâmica da limpeza a fundo, destruindo vibriões deletérios por onde passavam, submetidos a descargas elétricas superiores às habituais da Terra.

O aguaceiro intenso promovia a limpeza de resíduos neste e do outro lado da vida. No nível físico, a limpeza da atmosfera pelas chuvas é conhecido, o que mudou foi a intensidade e a escala.

A variação brusca de temperatura atuava como coadjuvante. Caindo rapidamente, favorecia a concentração de formas pensamento e sua assepsia mais facilmente. Há de se lembrar sempre que o homem escolheu o modo difícil, rude, impactante.

Tais ações de limpeza do planeta e dos seres humanos, poderiam ter sido realizadas pelos próprios  homens no nível do pensamento e ao longo dos séculos, diluindo tudo, suavizando tudo. Compreendendo as lições fundamentais contidas no evangelho do Divino mensageiro. Aceitando a regra do amor, a caridade e fraternidade como valores para toda a vida.

As lições apenas se repetiam. As terras do mundo estão repletas de ruínas de civilizações inomináveis que cometeram os mesmos erros e que por isso sucumbiram. Se perderam no limbo dos  tempos imemoriais, marcadas que foram pela violência, soberba e egoísmo.

Restou apenas ao Criador acionar os mecanismos intensos de renovação da vida e recuperação dos sentimentos perdidos, para aqueles que foram capazes de compreender este tempo vivido,  esta existência  crítica.

O momento do socorrista que trabalha em prol do exercício de sua última hora, de sua última chance de servir ao próximo e a  Deus.

Sujo, exausto, molhado, com frio e aflito, porém sabedor de seu papel e do seu dever, Bernardo retornava para casa. Solange o aguardava com um banho quente, alimento e roupas secas, além do calor humano, marca indelével dos casais e das famílias que se amam.

                                             FIM

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