Por: Antonio Mata
Passaram correndo, mal deu para ver. Estava de costas, ainda assim, pôde ouvir os passos apressados e um certo vozerio. Na muvuca de todo dia na cidade nem era nenhuma novidade.
Mas, também não custava nada avançar dois passos e discretamente dar uma olhada. Se fosse o caso de correr com os demais, logo, logo, já iria saber.
O que viu em seguida, bem no meio da rua, o remeteu a episódios menos recentes de sua vida. Situações que de alguma forma viu, ouviu e objetou. Quis então intervir, coisa que sua mãe de imediato nunca permitiu. Afinal só tinha 10 anos.
Sua voz era estridente e bem clara. Como se estivesse logo ali do seu lado. Olhando tudo com as mãos na cintura, em seu vestido estampado e folgado de algodão. Daqueles que gostava de usar em casa até perder a cor.
— Você não se meta. Aprenda a prestar atenção e a cuidar só da sua vida. Isso sim é importante.
— Mãe, ele pode estar precisando de ajuda.
— Só que a ajuda dele não é você. Ele que cuide disso. Se alguém não chamar a polícia antes.
— Nem pensei nisso! É mesmo mãe, vamos chamar?
Ela o encarou em uma atitude de poucos amores, que dizia tudo.
— Não, já sei, já entendi.
Afastou-se dali já meio transtornado, mas não sem antes oferecer o seu protesto.
— Mas, que tá errado, tá!
Seu senso de justiça e humanidade parecia deslocado daquilo que os chamados adultos consideravam correto. As coisas não se encaixavam como deveriam e João se via confuso e solitário.
Era por uma fresta, surgida por acomodação em um muro velho. Tinha assistido ao treinamento de um cão de guarda. De fato, era um Pitbull. Um cão pequeno, porém, muito forte e destemido.
O que levou o menino João a condenar o que via, era forma com que o animal era tratado. Paralelo ao treinamento para a guarda, seu proprietário queria que o animal fosse agressivo e por isso o agredia com um bastão. Também lhe retirando a comida. Queria que o Pitbull fosse submetido a um condicionamento de respostas ferozes. Adorava deixá-lo pendurado pelos dentes, agarrado em uma bola furada, pendurada em uma árvore.
Quando saía para andar com o cão, colocava no animal um daqueles enforcadores com pontas metálicas voltadas para dentro, conhecidas como carranas.
Ainda assim, era nestes poucos momentos que o pequeno João podia, vez por outra, vê-lo mais de perto. O cão levantava as narinas, como se buscasse reconhecê-lo pelo olfato.
João podia não entender nada sobre cães. Mesmo assim, em seu íntimo, sabia que o tratamento que o cão recebia não estava correto. Se compadecia do animal e se aborrecia com a postura dos adultos, frente ao caso.
O tempo passou e a história acabou esquecida. Pela fresta do muro já não via mais o pitbull. Também, para não irritar sua mãe, João não falava mais sobre o assunto.
Um ano, dois anos, ou quase isso. João estava perto de casa, atendendo um pedido de sua mãe. Estava em uma drogaria despreocupadamente, quando, lá fora sobreveio a confusão. Correria, gente gritando oferecendo avisos. Aproximou-se da porta de vidro para ver o motivo daquele vozerio.
Mais adiante a rua se encontrava vazia. Mas, pode saber pelo falatório o que provocou todo o alvoroço.
— Um cão danado, ele fugiu, está solto na rua! Alguém precisa prender esse bicho!
— Prender nada. Ninguém consegue prender esse cão, ele é muito forte e perigoso. Melhor nem tentar. Chamem a polícia logo, isso sim.
— Não seria melhor os bombeiros? — Indagava outro.
— Chame quem quiser, desde que sumam com esse cão daqui.
— Onde está o dono desse bicho? Onde se meteu?
— Não sei, mas se for quem estou pensando, não está aqui e nem liga muito para ele.
O animal havia escapado e agora, ninguém sabia ao certo o que fazer para se aproximar e prendê-lo. Já havia adquirido a má reputação. Aquela de cão danado, que quebra ossos com uma única mordida. Que não larga de jeito nenhum.
João saiu e identificou o animal. Era o cão de seu vizinho. Enquanto outras pessoas buscavam deixar o lugar e sair do caminho do animal, João avançou no sentido contrário.
Calmamente, sem perder o animal de vista, mas também sem querer encará-lo, sentou-se no meio da rua. O pitbull não teria como ignorá-lo. Logo tornou-se bem visível para o cão.
— João sai daí, esse cachorro é perigoso! — Alguém por detrás de um portão gritava para o garoto.
— Façam alguma coisa! Vai matar aquele menino! — Gritava outra pessoa, mais desesperada que a primeira.
— A polícia, depressa gente! Chamem a polícia! — Alguém havia gritado quando do início do tumulto. Mas, naquele momento crítico, ainda não havia policiais ali.
O cão de mediana estatura e de aspecto muito forte, de pelo marrom, patas e peito branco. Parecia grande ao se aproximar do franzino João. Encarava o menino, enquanto João permanecia de cabeça baixa. As pessoas então, pararam de gritar e observavam aquilo, de dentro das lojas e por trás dos portões. Criou-se um clima de tensão no ar.
O cão continuava diante do menino e o cheirava. Primeiro à pouca distância e depois se aproximou de vez. O encarava enquanto cheirava seu rosto. João permanecia de cabeça baixa e em silêncio. Por um momento levantou levemente a mão direita.
O cão cheirou todos os seus dedos um por um. A mão pequena do menino poderia ser arrancada pelo pitbull. Mas, aparentemente, isto não importava mais.
João estava obtendo um meio de contato. Uma primeira, sutil e breve comunicação, com aquele que, minutos atrás, era considerado um cão danado.
O animal sentou-se, enquanto continuava diante do menino. Foi quando intentou fazer um gesto singular com a pata direita. Contudo deteve o movimento. A seguir, finalmente ergueu a pata, em um gesto sabidamente amistoso. João respondeu ao cumprimento estendendo a mão.
João pôde levantar a cabeça e o que viu agitou sua mente e marcou sua lembrança pelo resto de sua vida. O olhar do animal em nada lembrava um cão danado, violento ou traiçoeiro. Se olhavam mutuamente como dois amigos.
Na contagem daqueles dois ou três segundos de um tempo extenso, algo interrompeu terminantemente aquele encontro. O animal de olhos claros olhava para o menino, enquanto este segurava carinhosamente sua pata.
A seguir a cabeça foi golpeada, da direita para a esquerda. Como se um golpe feroz e repentino tivesse retomado o ar para aquilo que chamavam de realidade. Pois assim deveria ser e não como um menino acreditava. Uma fera é sempre uma fera e não deixará de ser em poucos segundos.
A pata estendida, o gesto em sinal de amizade se perdeu, tão rápido quanto chegou. Os olhos do animal e o seu brilho se perderam. O pequeno encontro se perdeu. O meio sorriso de João, também se perdeu para sempre. Só o estampido no ar.
Sem a metade esquerda da cabeça, o corpo do animal caiu ao chão que logo ficou empapado de sangue. Pessoas correram e pegaram o pequeno João.
— A polícia matou ele João. Um atirador o acertou. Agora acabou, você está salvo.
João, atordoado e mudo, estava salvo. As pessoas ao redor estavam a salvo. O atirador estava satisfeito e o pitbull estava morto. Havia fugido, não se sabe de onde e agora estava morto.