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histórias, crônicas e contos

Kolkata

                                              

                                                                     Foto: NirmalSarkar

Por: Antonio Mata

Com o braço direito servindo de travesseiro, apoiado no chão ainda úmido, mera lembrança do ciclone que varrera a cidade, e só terminou no início da noite anterior. Fenômeno comum, e cada vez mais cruel por sobre aquelas terras baixas, tomadas pelo formigueiro humano, cada vez maior.

Encolheu-se o máximo que pôde por sobre o canto da calçada. As roupas sujas se completavam com um manto de algodão maltrapilho. Aquele não era seu primeiro ciclone, só não sabia se seria o último. Em outros tempos, de mais juventude e agilidade, se safava mais fácil, se afastando do rio, das corredeiras que a tempestade criava, e dos ventos fortes. As eventuais evacuações da população faziam parte do cenário.

Os poucos pertences recolhidos às pressas, eram transportados para casas de parentes, escolas, outros prédios e campos de ajuda, em lugares mais altos e mais afastados da cidade formigueiro. É assim, depois se recolhe os paus, e se monta outro barraco para começar tudo de novo.

Tudo sinônimo de inapeláveis alagamentos e deslizamentos. Calcutá não é uma cidade litorânea, porém é cortada pelo rio Hooghly, que transborda submetido ao aguaceiro trazido pelos ciclones. Suas terras por vez estão a apenas nove metros acima do nível do mar.

Os ventos são arrasadores. Árvores arrancadas pela raiz; postes elétricos tombados; prédios desmoronados e favelas inteiras submersas e destruídas. Os ciclones querem arrasar Calcutá, o formigueiro não quer sair do lugar.

As habitações, por sorte, apenas alagadas, quando não, destruídas, avisam que todos estarão bem ocupados, cuidando do que restou, retirando a lama de dentro das casas e barracos, na medida em que as águas possam finalmente recuar.

Já não era mais a mesma coisa. A idade avançada, a existência miserável, doente e febril. A morte se acercava do valente, mas indigente sobrevivente daquelas terras. O pária desvalido ainda contempla a cidade semialagada. Na calçada elevada podia aguardar por um novo dia, ainda que isto não lhe trouxesse nenhum tipo de mudança. Precisava reagir e se recuperar. Aquela conjugação de fatores, por demais adversos, impedia melhor situação.

Anoitecia, e a escuridão úmida na cidade sem energia, trazia mais um elemento de risco. Fraco e exausto, adormeceu encolhido na calçada, sem saber se voltaria a ver a luz do sol.

A manhã chegou, e com ela o calor do sol. Ainda dispunha de alguma água limpa, e isto era tudo. Enfrentaria mais um dia, mas já não conseguia se levantar. A enchente é gradativamente superada, e lentamente a cidade retoma sua vida normal. A circulação nas ruas; os passantes; os riquixás; os ambulantes. O formigueiro vive mais uma vez. Todos transitam na sua frente, como se o homem não existisse.

A vida escoa lentamente de seu corpo por mais um dia. Não há para onde ir; nem forças; nem recurso. Apenas vê o tempo passar, homem invisível encolhido no chão. Inesperadamente, duas silhuetas se apresentam, trazendo um carro de mão. Suspendem o velho doente e moribundo, e o colocam deitado sobre o carro. Percorrem as ruas rumo a um galpão, o suficiente para proteger do relento.

Acomodado precariamente sobre um catre sem colchão e um pequeno travesseiro, ainda lhe ministram soro fisiológico. Os cuidados oferecidos lhes proporcionam uma sobrevida de três dias, até que enfim, falece. A forma habitual de se deixar a Casa da Boa Morte.

Lá conheceu sua protetora, que lhe ofereceu aqueles três dias de amparo, ante o fim de seus dias. Tereza, a santa das sarjetas. Seu trabalho era elogiado por muitos, e compreendido por poucos. Isto suscitou várias críticas, pela incompreensão de seus propósitos. Tereza nunca ofereceu a cura a seus doentes, sua enfermaria improvisada, não dispunha dos recursos necessários para quem aspirasse a cura.

Sua obra caritativa preparava homens e mulheres em condições de abandono, de indigência, para a morte, com um mínimo de dignidade, recebendo o pouco atendimento que podia oferecer.

Desde homens simples que tocavam a vida com grande sacrifício, até drogados, toda sorte de abandonados e ladrões, à beira da morte, Tereza amparava os desvalidos da sarjeta, no momento crítico de suas vidas.

Em 1997 sobrevém o desencarne da santa das sarjetas. Do outro lado da vida toma ciência da multidão de espíritos indianos, entre outros, que estavam indicados para deportação, rumo a outros mundos, em outra galáxia do universo Divino.

Pede então às potestades celestiais, que lhe permitam acompanhar aqueles espíritos moralmente falidos, sem chance de aproveitamento. Antigas autoridades, dignitários, os ricos do mundo, marcados pelo mau uso da riqueza, e aqueles que afundaram na corrupção, na sensualidade e no abuso do poder.  Estes sim, os verdadeiros indigentes da Terra. Iriam partir do pequeno mundo de céu azul, das belas praias, campos a perder de vista, e de montanhas a emoldurar a linha do horizonte. Mas, que eles próprios não souberam compreender. Haverá choros e ranger de dentes.

Em um futuro distante, submetido ao tempo milenar, estes mesmos exilados, escreverão uma nova história de autodescoberta, reconhecimento do outro, e evolução do espírito. Recolocados em outro mundo, dobrarão os joelhos, diante de um ser luminoso que os conduzirá a dias melhores, dias de real grandeza d’alma. Sem saber que o anjo de Luz que os guia, é aquela que um dia, resgatava desvalidos nas ruas. A santa das sarjetas de Calcutá.

 

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