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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Lar da confusão

Por: Antonio Mata

A casa, concebida para ser confortável, possuía cães e gatos em profusão. Estavam nos fundos, no canil e no gatil. Logo a seguir, os cães soltos naquilo que fora um dia, um jardim. 

O antigo jardim tinha recebido um galinheiro. Então, garnisés passeavam sob risco iminente de morte. Aves minúsculas, talvez não crescessem devido ao stress. Talvez morressem cedo, só de susto. Vida difícil para um garnisé.

Na varanda ao redor da casa, cães ocupavam os espaços. Impossível usar o terraço garagem, sem promover uma fuga maciça da cachorrada. O que, aliás, acontecia.

Já o carro passava o dia no sol e na chuva. Lá de fora, na varanda, os cães maiores colocavam as patas na abertura da porta de ferro da sala para poder ver o que tinha lá dentro. 

No interior da casa, mais cães e mais gatos. Estes, os animais que ficavam dentro de casa, eram aqueles que conseguiam minimamente se entender. Bom, de vez em quando tinha um arranca rabo e orelhas. Mas era assim, dava certo.

Nos quartos, no piso superior, mais gatos. Fêmeas com suas respectivas ninhadas. Trancadas, é claro. Filhotes de quarenta dias, com aqueles ossinhos moles. Todo cuidado é pouco, já que são ótimos petiscos. O mais fantástico é que sobreviviam. Cresciam e ficavam fofos. Até encomendavam os bichanos.

Muito trabalho, o passo sempre acelerado para dar conta de tudo. Correria e alvoroço no quintal. Ela corre e vai desapartar seus bichos. Afinal, os cães tinham encontrado uma cobra que poderia morder seus protegidos. Assim, precisava salvá-los.

Três acidentes, três quedas, rompeu o menisco. Uma briga de gatos, uma mordida profunda em uma das mãos. Dias de antibiótico e pomada cicatrizante.

Barulhada na varanda, três contra um e mais uma intervenção. Dessa vez mordidas nas pernas. Mais dias mancando, recebendo antibiótico e mais pomada. Prevaleceu o bom senso e parou. Só um pouco.

Então, um deles se foi. Não foi o primeiro cão a morrer por conta de uma briga. Pouco provável que seja o último. Choro, lamentações e depois a visita daquele que se foi. Veio agradecer pelo convívio meio assim, meio assado. Mas, reconhecia sua dedicação e amor. Agora podia partir sossegado.

Os gatos, quando resolviam visitar a varanda ou os fundos da casa, precisavam ser atentos, muito mais que ariscos. Na verdade, mais um susto na sua protetora. De alguma forma tinham conseguido escapar.

Mais um dia se vai. No quarto, com o condicionador ligado, um cachorro debaixo da cama. Um gatinho se acomoda ao seu lado. Tá bom, afinal é o seu jeito de cuidar de todos eles.

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