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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Maria Vitória

Por: Antonio Mata.

A imponente casa senhorial, de aspecto sólido, dominava os arredores. O cinzento do granito em blocos era de uso para pobres e ricos, diferença no corte. Os mais pobres empilhavam pedaços menores.

O contraste ficava por conta das janelas pintadas de branco e dos telhados vermelhos.  Na rua, por sobre o granito do calçamento ou na taberna, discutia-se as poucas novidades vindas de fora. Até que outras chegassem, meses depois. 

O grande assunto, a chegada de duas naus que traziam mercadorias de valor. Pimenta, noz-moscada, a canela, o cravo e o gengibre. Faziam a riqueza dos armadores das expedições. Corria o ano de 1552.

O pagamento dos homens era compensador. Tanto para a tripulação, como para seu comandante. O emprego mais rentável e o mais cobiçado daqueles idos. Também o mais perigoso. 

 

Situação precária a das mulheres que aguardavam pelo retorno de seus maridos e pretendentes, daqueles que não puderam voltar. Pois, perderam suas vidas nos muitos naufrágios. Era o país das viúvas.

O leito dos oceanos da costa da África até o Índico, rumo a Damão, Diu, Bombaim e Salsete, na Índia, sepultava navios portugueses às centenas.

A carreira das Índias, além das tempestades, era repleta de muitas incertezas. Como o pouco conhecimento dos ventos e das correntes marítimas. Também disputas e batalhas contra hindus e muçulmanos, que cobravam o seu quinhão. Entre estes, o assalto de piratas, desejosos de roubar a carga e queimar o navio.

A despeito disso, os homens faziam fila para recompor as tripulações em uma nova empreitada. 

A juventude se ofereceu a aventura no mar. A coragem e o destemor na busca da riqueza e da glória através da navegação. Além de obterem a simpatia e os suspiros das moças em terra. Que, de todo modo, não faziam muita ideia do que se passava dentro daquelas embarcações. Já que era proibido conduzir mulheres. Com poucas exceções, mas com velada prostituição.

As naus também traziam histórias. Feitos gloriosos, fantasias e mentiras, fantasmas e realidade, tudo misturado. Enchiam de encantamento as mentes dos novos candidatos, só em ouvir. Muitos jamais colocariam os pés em um navio. Tanto quanto muitos jamais voltariam. Sem sequer terem chegado ao destino. 

Na sucessão de ganhos e perdas entre a partida e a vinda, estavam aquelas que, tudo o que podiam fazer, era rezar e esperar. Nas famílias mais abastadas, casavam suas moças logo. Oferecendo algum dote a um candidato nobre ou ilustre. Podendo isto ficar a cargo de sua família, ante a possibilidade do desaparecimento e morte do marido. Pois, ainda assim ficava com a viúva o nome e talvez o filho.

Contudo, fosse por confiança e fé, fosse por simples teimosia, havia aquelas que desejavam e esperavam pelo seu eleito, vivo e se possível rico. 

Entre elas estava Maria Vitória. A pele muito pálida, de belos olhos castanhos, de cabelos negros e longos. Rezar e esperar havia se tornado uma constante em sua vida.

Querida por seu pai que muito a amava, sustentava seu comportamento um tanto quanto preocupante para o velho Alonso. Procurava se manter informado quanto ao retorno dos navios, assim como do pretendente de sua filha.

— Chegaram duas naus das Índias, ouvi dizer. Já soube de algo mais, meu pai? João estaria entre eles? Soube de alguma coisa?

— Chegaram duas naus abarrotadas de mercadorias, Maria Vitória. Infelizmente nenhuma delas era a carraca Santo Otão. Nem traziam João Miguel entre os homens.

Santo Otão, o nome, era em homenagem a um frei martirizado por muçulmanos no Marrocos, por volta de 1220 e canonizado pela igreja. A carraca, um barco de 1600 toneladas. Com grandes porões para carregar maiores volumes de mercadorias.

Substituía as caravelas na carreira das Índias. Também se impunha aos hindus e muçulmanos pelos grandes castelos de proa e popa e pelos seus 140 canhões de tiro rápido.

De cabeça baixa, Maria Vitória lamentava.

— Tenho rezado com fervor todos os dias, pedindo por seu retorno. Já está em tempo de voltar, mas ele não chega.

Era a vez de Alonso olhar para o vazio.

— Tenha Paciência Maria. João Miguel embarcou em um barco poderoso e capaz de enriquecer seus proprietários. João receberá boa paga. Com mais o dote, vocês poderão finalmente se casar. Poderia ter acabado com tudo isso há muito tempo. Não é mesmo Vitória?

— Eu sei, meu pai, eu sei. Mas preciso que volte, só isso. Preciso que volte, pois já é tempo.

— Por que não se casou de uma vez quando ele estava aqui? Teria sido muito melhor, você bem o sabe.

— Meu pai, sabes que não vou me entregar só preocupada com o nome e a família dele. Quero que ele volte, só isso.

— Estás perto de completar 28 anos. A beleza e a mocidade não duram a vida inteira. Lembre-se de Diogo. Já se vão dez anos e você era só uma menina. Linda, alegre e cheia de vida.

— Ele não voltou meu pai.

— Sim, minha filha, nem Lopo d’Almeida. Que também não voltou.

Maria Vitória olhava para a janela, para as nuvens lá fora. Lembrava de episódios amargos de espera.

— Eu sei, meu pai. Lopo ingressou na carreira das Índias aos 21 anos. Diogo, gentil e sonhador, aos 22. Mendo Vicente, o melhor espadachim da freguesia, aos 20 anos.

Por mais que amasse sua filha e não desejasse magoá-la, Alonso não pôde deixar de expressar suas preocupações.

— Nunca mais se soube de nenhum deles, seus pretendentes. Se sabe apenas que Mendo morreu em combate. Agora temos João Miguel. Partiu aos 18 anos, esperançoso de casar-se com uma mulher nove anos mais velha que ele. Tão rapazola, quanto você era uma menina há dez anos passados. João teria se casado com você de muito bom grado e teria hoje, quem sabe, um filho. O filho de João Miguel e Maria Vitória.

Entrementes, uma grande carraca, repleta de especiarias, seguia lentamente para noroeste, fazendo o Mar Largo. Caminho para escapar do trecho raso, pedregoso e perigoso do Cabo Bojador, no Marrocos. Avançava lentamente até alcançar os Açores. De lá, era aproar para Portugal e chegar em casa. Era a Santo Otão.

O mar é caprichoso e um sem número de armadilhas parecem espreitar em cada vaga, em cada balanço. O organismo humano, às vezes não suporta e cede. Nem só de riqueza vivia a Santo Otão. Era preciso o sacrifício dos homens. A exemplo do nome ilustre que conduzia.

Ao cruzar o oceano Índico, a Santo Otão se viu sem víveres frescos. Atacada que foi por uma frota conjunta de hindus e muçulmanos, a carraca não pôde abastecer-se adequadamente e seguiu viagem procurando se afastar dos inimigos.

Sobreveio uma crise de escorbuto que debilitou a tripulação. Os homens começaram a adoecer por falta de vegetais frescos e verdes. A morte perseguiria a carraca até os Açores, onde poderiam fundear e receber água potável e alimentos. Os homens morriam com a língua totalmente inchada e posta para fora. Como a fazer careta da própria sorte.

O contramestre se dirigia ao comandante da Santo Otão.

— Capitão, de ontem para hoje tivemos mais quatro mortes. Vamos aguardar para enterrá-los nos Açores?

— Não, não vamos. Ainda estamos longe. Melhor lançá-los ao mar.

— Mesmo o corpo do tenente João Miguel?

— Sim, mesmo o corpo do tenente João Miguel.

— Sim, senhor capitão, vou providenciar.

— Outra coisa.

— Sim senhor.

— Que ninguém saiba que João Miguel morreu dessa forma terrível e humilhante. Escreva para sua família e para a família de sua noiva, Maria Vitória. Diga que João Miguel morreu bravamente, combatendo com destemor os infiéis muçulmanos, de espada em punho. Entendeu bem?

— Sim senhor. Eu mesmo farei e entregarei as cartas.

Para as mulheres, a angústia, a espera e a viuvez. Para os homens, a aventura e as ilusões da carreira das Índias.

 

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