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histórias, crônicas e contos

Na noite dos tempos

                                                                              

                                                                                                                                                      Foto: wikimedia.org

Por: Antonio Mata

O grupo se ocultava por entre os arbustos, se aproximando lentamente e contra o vento; buscando um movimento de ferradura para fechar ao máximo o espaço e as chances de fuga.

O animal era grande o suficiente para alimentar a todos. Só era preciso cuidado para não o espantar. Não permitir que sentisse o cheiro dos homens.

Torcer para que o vento não mudasse de direção rapidamente, o que denunciaria o grupo. Também não se podia permitir que corresse para o rio próximo, o que acabaria em fuga.

Em troca, muita carne, além de couro, gordura, tendões e ossos para utensílios e adornos. Mulheres, idosos e crianças ficariam satisfeitos com a caçada daquele dia.

Ao comando do líder, lanças e flechas são lançadas no animal, que tenta escapar, mas, já não é mais possível. Os caçadores foram eficientes na espreita, no cerco e no ataque.

A caçada foi um sucesso. Competentes, sabiam controlar e dominar os animais que viviam por aquelas bandas.

Os homens festejam, dão gritos e fazem muita algazarra. O lugar era rico de animais para a caça. Eram mamíferos diversos, comumente herbívoros desde pacas, capivaras, cervos e as grandes antas; como a que haviam caçado.

Carnívoros como a onça, impunham muito respeito. Havia ainda aves diversas, inclusive as grandes emas; também ofereciam muita carne.

Já se aproximando de casa são recebidos com muita alegria. A caçada era promessa de uma noite de muitos festejos. O sucesso era compartilhado com todos, comendo e bebendo muito.

Também havia participado da caçada, estava muito satisfeito com o resultado. Desta vez não foi preciso perder um amigo na empreitada, não pela natureza da caça; mais exatamente pelo ambiente inóspito.

Jacarés, onças e serpentes diversas, exigiam conhecimento e experiência para sobreviver. Às vezes o resultado era bem trágico. Principalmente para com aqueles que não tiveram tempo de aprender.

Lembrou de guardar aquele dia para poder mostrar a todos, homens, mulheres e crianças. Aqueles que já estavam no lugar; mas também aqueles que viriam depois.

Adentrou uma gruta para desenhar a cena; registrando a vitória daquele dia. Havia adquirido uma habilidade incomum, algo que deixava a todos admirados.

Colocou em uma cuia um pouco de sangue do animal, juntou gordura, argila vermelha e misturou tudo pacientemente, até produzir uma mistura pastosa, própria para fazer os seus registros naqueles murais de pedra.

Utilizando os dedos, as formas foram aos poucos surgindo sobre a rocha, representativas das ações do dia. Os animais volumosos, e os homens, um tanto quanto magros, se comparados com as suas caças.

Fez primeiro o felino, uma onça, bem grande, assustador e muito forte. Depois, mais afastado, colocou a anta, enorme, capturada naquela manhã.

Pintou tanto a onça, como a anta de vermelho; porém, a forma era diferente. A onça, traiçoeira e silenciosa, era mantida sozinha. Tudo pelo respeito que o animal inspirava.

Do tamanho de mais ou menos um palmo, começou a colocar os companheiros participantes da caçada; um de cada vez em volta da presa. O líder, o mais experiente era fácil de identificar, pois colocou um grande cocar sobre sua cabeça.

Teve o cuidado de desenhar as armas. Os arcos e flechas, e as lanças utilizadas para dominar o animal. As flechas voando no ar; outras atingindo a presa.

Era o final da história; estava tudo registrado para que todos soubessem como se conduz uma caçada. Como se vence a luta pela vida.

Empolgado e orgulhoso, colocou ao redor outros animais que faziam parte da fauna da região. Conheciam desde as pacas, até veados e lhamas. A floresta completava o belo cenário do seu pequeno paraíso na Terra.

Por isso colocou as árvores que, junto a outras plantas, ofereciam o restante da alimentação sob a forma de frutas, raízes e grãos. Desenhou poucas árvores então. Porque eram poucas, ou seriam representativas de muitas?

Só sua mente poderia dizer. Aproveitou para mostrar as mulheres retalhando a caça, utilizando lascas de pedras cortantes. Apareciam trabalhando na coleta de frutas também.

Ao desenhar um animal, às vezes achava de mostrar a quantidade destes que havia encontrado pelo caminho. Por isso, colocava traços junto do animal, mostrando as quantidades de animais que viu naquele dia.

Agora estava tudo pronto, nos diversos desenhos da gruta, por conta daquela caçada. Levou um dia para fazer, dois , três; quem sabe? Afastou-se para apreciar o conjunto de sua obra. Considerou o resultado magnífico.

Era a história da vida da sua gente, um fazer construído todos os dias. Estava feliz, e contava isto. Faria outros desenhos, bastando apenas que o evento do dia, assim se justificasse.

Podia ser um dia festivo, como aquele por conta da boa caçada. Também podia ser o nascimento de uma criança; outro bom evento para se registrar. O crescimento da população.

Agora era só esperar tudo aquilo secar. Antes do anoitecer, traria o xamã para apreciar a obra e logo; ele mesmo poderia trazer os demais, na noite seguinte.

Quando então poderiam, iluminadas pelas tochas, observar o efeito de cor, luz e sombras, produzindo grande comoção nos demais. Tal é o valor e o poder da caçada e dos caçadores. Mas também, daqueles que ficavam em casa, e que era por eles servidos.

Era considerado em alta conta junto aos demais. Não só assistia as caçadas, mas era também caçador. Registrava o ocorrido sob a forma de desenhos, eternizando o grande feito dos homens.

Fazia isto para que ninguém esquecesse. Havia criado rabiscos, cores e desenhos. O xamã os colocou em movimento, nas luzes de fogo; nas noites dentro da gruta.

Com o avanço dos dias, e ao chamado do caçador mais velho, outra vez se preparava para sair em busca de outras caças e aventuras para desenhar e perpetuar o feito.

Dessa vez levaria sua lança. Reuniu-se aos demais homens e deixaram a segurança e a tranquilidade do aldeamento.

Seguindo o caçador mais experiente, decidiu-se por procurar as trilhas deixadas pelos cervos, na entrada da floresta. Se colocariam a postos como de costume para aguardar a saída dos cervos rumo às pastagens nas proximidades.

Como sempre, silêncio e paciência para aguardar o momento certo. Às vezes podia levar horas, às vezes o dia inteiro.

Havia se posicionado do lado mais próximo da mata, para fechar o retorno do bicho, quando ele avançasse para pastar.

Assim o pequeno grupo estava à direita da trilha que sai da floresta, com a pastagem se abrindo à esquerda.

Já haviam notado as marcas de chifre nas árvores, indicação de que a trilha estava em uso.

O tempo avançava sem se obter a presa que esperavam. Ao se aproximar o final da tarde, todos entenderam fácil que o encerramento da caçada do dia estava em vias de acontecer.

Por exigente que fosse caçar antas, capivaras e veados de dia, era muito mais efetivo e seguro do que querer adentrar a mata, na busca de carnívoros. Em breve o grupo iria se recolher.

Continuava agachado, atento aos movimentos na saída da trilha. Ainda esperava obter seu prêmio ao final do dia, quando os animais aparecem para pastar antes de escurecer.

Estava por demais absorto nestes pensamentos e não pôde, ou não deu tempo para entender de imediato a sequência de eventos que viria a seguir, de modo rápido e assustador.

O golpe certeiro o atingiu no pescoço e em parte do ombro direito. Presas potentes não só perfuraram a carne, como também partiram as vértebras do pescoço e o osso hioide.

Foi puxado para trás como um filhote de macaco nas mãos de uma criança; e arrastado de costas na direção da mata.

Foi apenas o som de ossos se quebrando e o corpo sendo arrastado e nada mais. Nenhum grito, gemido, aceno ou qualquer outra reação.

Além dos ossos partidos, a garganta pressionada a sufocá-lo, a jugular cortada, e o peso do homem sendo puxado; eram mais que suficientes para a vida se esvair de seu corpo.

Levantou-se do chão e olhou para trás, ainda a tempo de ver seu corpo, filhote de macaco; sendo arrastado mais adiante. Voltou para próximo da trilha.

Os caçadores ainda esperavam a chegada da caça, quando de repente todos se levantaram e se deram conta de que o grupo estava incompleto.

Quis falar com os demais, mas não conseguia, insistiu uma, duas, dez vezes; sem que lhe dessem atenção. Estava ficando assustado com aquela situação e começou a gritar.

Acordou completamente tomado de suor, gritando alucinado. A fronha do travesseiro, o lençol junto ao pescoço; tudo ensopado. Olhou ao redor, na semiescuridão do quarto.

Verificou o pescoço e a cabeça com as duas mãos; ainda estavam no mesmo lugar. Parou por um instante, depois achou graça; virou na cama e voltou a dormir. 

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