Por: Antonio Mata
Em princípio planava suavemente, o que tranquilizava bastante. Bom sinal, valeu a pena ter vindo mais vezes e conhecer melhor este lugar. Tudo correto, como de costume.
O ar rarefeito e de aspecto azulado, encorpava lentamente, visto que se aproximava do solo. Chegava a sua mente as imagens daquelas manadas enormes de incontáveis animais, de início, preguiçosos. Depois correndo assustados. Estavam sobre suas cabeças. Tudo não passava de uma brincadeira. Só para tirar o sossego dos bichos.
Não obstante, apesar de ser apenas mais um pouso de mais uma viagem a um mundo repleto de animais, esta seria de tal forma diferente, distinta e catastrófica que nunca mais lhe seria dado esquecer. Até virar fragmento de lembrança.
Embicou repentinamente e sem nenhuma potência para oferecer sustentação. Começou a cair. Um cheiro de fumaça e de coisa queimada invadiu a nave. Enquanto o comandante se preparava para o inevitável, buscando aliviar o choque, como fosse possível. Os demais, encolhidos em seus lugares, aguardavam.
Coisa estúpida, já que tudo era previsto e verificado com grande antecedência. Não poderia haver erros. Pois, estariam sozinhos em algum ponto do cosmos. Sem recurso nem apelação. Sabiam disso, desde o começo.
Ainda veloz e perdendo altura muito rápido. O bólido, expelindo uma trilha de fogo e fumaça, chocou-se fortemente com o solo. Sentiu a coluna impactar sobre o acento e depois desacordou. Lá dentro, só labaredas e fumaça. Um pequeno estoque de oxigênio, extraído dali mesmo, sustentava um fiapo de vida.
Algum ar, possibilidades de salvar-se, fogo sob o sistema de autoextinção. Lá fora, carne a vontade. Já comera daqueles bichos antes. , carne boa. Mas, era só mais um fiapo. Ainda estavam trancados do lado de dentro. O tempo passava.
Escureceu no mundo de céu estrelado. Virou o dia e a noite. Lá dentro, ninguém sequer se mexia. Abriu os grandes olhos negros e a névoa fétida, havia parado de crescer. Dava até para ver ao redor. Nada, nada para se ver. Bobagem querer se enganar, acreditar em coisas que os olhos não confiam. Estava só, toda a tripulação havia perecido com a queda. Era o único sobrevivente.
Esforçou-se por levantar e chegar até uma escotilha, uma saída de emergência. Projetou-se para fora, até o peito. Ao seu redor um bando de bichos infelizes, estúpidos e ignorantes. Grandes, com suas panças cheias de grama.
O que se faz vagando sozinhos, sem contato, sem apoio. Percorrendo lugares ignorados, com os porões vazios e sem o conhecimento de terceiros?
Oficial, não oficial, isto pouco importa. Quem embarca em uma nave desse tipo, sabe o que está fazendo. Poderá ser, acima de tudo, um solitário, trabalhando por algum tipo de remuneração. Aconteça o que for, precisa estar sempre pronto. Até porque, nenhum dos sistemas da nave funcionava mais. Estava totalmente isolado. Em um mundo tão belo e perigoso.
Mesmo assim, adorava bananas. Se encontrasse bananeiras, teria valido a pena, pensava. Mas, nem isso o teria ajudado. Sobreviver foi muito importante. Só não era tudo.
Estranho, diferente, sem poder falar. Nunca havia se interessado pela fala de ninguém. O tradutor simultâneo resolvia isso, mas era apenas um detalhe. Os anos, estes, sim, passavam rápido. Sempre escondido viu a terra se tornar cada vez mais perigosa. Até entender que o maior perigo, era ele mesmo.
Vivo, teve de cruzar seus dias. Assistiu as pequenas aldeias se tornarem cidades. Depois, de forma discreta e sorrateira, pôde se aproximar e desenvolver formas para poder comer e se esconder rapidamente. Foi assim que surgiram as lendas. Comumente ruins e enfatizando seu gosto por sangue e pequenos animais. Ninguém se importou em saber se gostava de bananas.
De lixeira em lixeira, até os lixões. Eram ótimos esconderijos, assim como os montes de entulho. Onde podia se disfarçar com facilidade. Com sua pele que não era pele e sua cor pouco comum. Não era, sequer, a cor de um burro fugido.
Ano, após ano, século após século. Só a dor profunda e angustiante, aquela que não tinha cura. Que nunca passava, por mais que o tempo avançasse. A dor da solidão. Nunca o abandonou, onipresente em cada passo na Terra.
Quando se foi, não fez sentido querer saber de quem era aquela fantasia. Cinza, horrorosa e fedida ao redor de um corpo esquálido, que alguém deixou no monte de entulho. Apenas, em algum momento, alguém soterrou.
Permaneceu, tal assombração, percorrendo os caminhos de outros tempos. Assustou, perturbou e escravizou as mentes mais débeis. Já que não sabiam o que era aquilo. Mortos como ele, perturbados como ele. Um dia se frustrou, mais do que de costume e os pôs para correr. Só havia uma vaga de estúpido e esta, já estava ocupada.
Vagou sozinho muito tempo. Não conseguia se livrar daquela vida, nem daquela morte onde nada parecia ter fim. Exausto e mentalmente doente, caiu no chão desejoso que um demônio maior o levasse dali. Só por caridade.
Tempos depois, em meio a escuridão, não sabe por quanto tempo. Mas, uma luz se projetava por sobre seu corpo, já a muito deformado. Abriu os olhos negros. Pouco interessado no que pudesse vir depois.
— Conseguiu o que queria?
— O quê..., o quê?
— Perguntei se conseguiu. Se encontrou o que queria.
Nunca mais voltou a pensar em tais coisas. A pirataria genética era uma prática por demais antiga. Reprovada por uns. Extremamente cobiçada por outros. Bastava encontrar o grupo certo. Aquele mundo, cheio de gente estúpida, em altas rodas era muito apreciado. Estudando os seus corpos, buscavam desbravar os segredos de suas existências terrestres. Assim, fez-se de tudo com eles. Não havia centímetro quadrado que não conhecessem.
— Já que encontrou o que buscava, o que o atormenta?
— Estou sozinho, vivo sozinho. Mendigando os corpos dos mortos, atrás de algo que signifique vida. Restos de vida.
— Como veio parar aqui?
— A nave, ela caiu. Ela se chocou com força no solo. Os demais morreram. Só ficou eu mesmo.
De forma chorosa, contou brevemente a sua história.
— Então, venha conosco. Veremos o que se pode fazer por um pirata fora de casa.
— Quem são vocês?
— Somos socorristas. Aqui, servimos a Jesus de Nazaré.
A nave havia sido soterrada pelo tempo. O acidente, ocorrido há vinte e dois mil anos passados. Quando vieram à Terra buscar outra leva de seres humanos, pela última vez.