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histórias, crônicas e contos

Nuvens negras sob o céu

                                                                             

                                                                                                                                            Foto: Nathalia Segato

Por: Antonio Mata

 

Do alto do monte dois homens apenas observavam ao longe a situação singular da cidade daqueles dias. Buscavam esmiuçar as pessoas que apareciam à distância, muito pequeninas rumo aos seus afazeres e obrigações.

Edifícios, áreas comerciais, moradias; a lógica urbana estabelece a sua ordem aparente. Somente na aparência, uma vez que questões fundamentais, originadas na fragilidade da própria humanidade não lhe permitiam maior ampliação e mais humanização da sua lógica.

Os povos que não desmataram eram aqueles que não possuíam matas. Os que não acumularam lixo eram aqueles que não usufruíram as vantagens das sociedades tecnológicas.

Povos que não poluíram o ar eram aqueles que não cumpriram a fase da industrialização. Os que não poluíram as águas e os mananciais eram aqueles que não possuíam parques industriais.

Aqueles que não poluíram os solos eram aqueles que não buscaram a produção intensiva de alimentos. Muitos buscaram a mesma coisa, todos cometeram os mesmos erros.

Os dois observadores no alto do monte relembravam o surgimento e o avanço de tais cenários por sobre as sociedades do mundo. Uma demanda reprimida, uma carência de recursos; a sede pela invenção humana.

Em um dado momento, bastaria folhear um de seus livros, fosse um livro de atualidades, ou mesmo um de história. Todos acreditavam fazer a coisa certa; era a marcha da humanidade. Quem não conseguiu adentrar a marcha, lamentava muito por ter ficado de fora.

Degradação, explotação, assoreamento, desertificação. Estas palavras, entre outras, não estavam nos livros do passado recente. Não estavam no rol das preocupações humanas.

Havia grandes ideias, em um tempo em que o mundo era grande. Estas grandes ideias empurraram adiante soberbas iniciativas em extraordinários volumes de trabalho que absorviam gigantescos contingentes humanos.

Assegurava-se assim a participação; e muitos, pelo grande mundo afora queriam participar. Acreditava-se piamente que se fazia a coisa mais certa.

Com o tempo as mudanças se tornaram bem evidentes, fosse no comportamento das pessoas, fosse nas condições ambientais. A degradação havia assumido proporções alarmantes.

O mundo enorme, apoiado em grandes ideias havia entrado em colapso. Pesquisadores retornaram à análise da vida passada dos homens, e descobriram que outras sociedades no passado remoto, cresceram,  chegaram ao seu apogeu, depois adentraram um ponto sem retorno, e sobreveio o colapso.

Descobriu-se que muitos povos adentraram os limites da explotação. A exploração da Terra, para além da sua capacidade de reposição. Outro “demônio”, até então pouco compreendido, havia atormentado outros povos em diversos pontos do mundo. Possuía um nome incomum, mudança climática.

Os observadores sabiam da onda de livros e pesquisas focalizando esta nova e perigosa realidade. Da busca por soluções no nível das leis e dos acordos internacionais e ações locais.

Sabiam também que, em outro nível, anomalias eram identificadas fora da Terra, no Sistema Solar, o que trazia um fato novo, tão pouco compreendido, que os demais fatores já identificados.

O sol se punha por sobre a cidade, com a noite trazendo outros cenários e afazeres. Observando as luzes que se apresentavam, perceberam um feixe luminoso verticalmente voltado para o céu. Um grupo de homens, mulheres e jovens orava aos céus.

Amparados nas lições simples que lhes orientavam as ações, pediam por sua gente, por sua terra, pelo seu mundo. Reconheciam que a inventiva humana era fruto da inteligência oferecida pelo Divino Pai Celestial.

Entendiam também que os desatinos cometidos eram frutos, da invigilância, do orgulho e do egoísmo. Compreendiam que os homens haviam se lançado ao progresso, sem compreenderem que o progresso deve servir a todos e não a grupos.

Oravam e pediam o amparo do Mestre Divino, não como quem nega o progresso e o desenvolvimento obtidos; mas como quem compreende que as chagas morais se estabeleceram, buscando subterfúgios à sua palavra, e às suas lições.

As bases que deveriam sustentar o grande volume de conhecimentos que seria oferecido aos homens, foi apresentado com pelo menos 1500 anos de antecedência. Gradativamente foram esquecidas e deixadas dentro das igrejas, debaixo do alqueire, ao invés de subir à candeia, onde todos pudessem ver e iluminar o mundo.

Desprovidos de bases morais, e de sentimentos fraternos que fossem capazes de sustentar a gigantesca empreitada civilizadora; o pensamento do Cristo foi sendo substituído pelo pensamento dos homens falíveis da Terra.

Idealizaram filosofias, sistemas, ideologias. Pensamentos que deveriam promover a retomada do movimento civilizatório. Ainda que a escravização dos povos falassem de outra coisa. Falavam da continuidade do desamor e da falta de moral.

O conhecimento de leis universais, por isso Divinas. O entendimento do trabalho feito, sob a inspiração de Deus, daí não se poder servir a dois senhores, foi substituído pelas ideias superficiais e limitadas dos homens.

Perdidas, corrompidas e alucinadas, as sociedades dos tempos atuais repetem os erros de um passado milenar. Os homens, sem enxergar prosseguem na sustentação de seus próprios erros.

A despeito disso, no anonimato que a mídia e muitas mentes humanas não alcançam, o exército silencioso do Cristo avança. Assume ao seu Criador, e a seu mensageiro Divino, independente das religiões dos homens, e faz o que se tem de fazer. É o exército do amor ao próximo que eleva, e do trabalho amparado na fraternidade que enobrece.

Se a assepsia planetária chega no momento devido. Estes outros tantos, anônimos que são, se preparam para a renovação necessária. Renovar, modificar, sacudir, destruir para recomeçar. Tudo começa com o clima, o primeiro a se manifestar.

Buscam se engajar na última oferta da última hora, pois acreditam piamente na herança das Bem-aventuranças. A reconstrução de seu próprio mundo, ficar para reconstruir. Viver em uma Nova Terra, sem a presença de mentes corrompidas e sem maldade, pois ainda há tempo. E você, o que vai fazer?

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