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O barco

                                                                                   

                                                                                Foto: Viagem a Amazônia - O rio Purus. Por Líbero Luxardo.

Por: Antonio Mata.

Prosseguiu pela rua caminhando calmo e sem pressa, até porque, a idade já não lhe permitia movimentos mais acelerados. Por insistência de seus filhos preocupados com a sua idade avançada, deveria permanecer mais tempo em casa.

Por teimosia de si mesmo, preferia levantar com o sol raiando e se dirigir ao porto. Já houve quem chamasse o lugar de porto de lenha. Mesmo este tempo; já ficou para trás.

Fazia parte do hábito, do tempo em que precisava chegar antes do sol raiar para cuidar do barco e aguardar a chegada dos passageiros e da carga do dia. Este tempo, também foi outro que também já passou.

Em que pese a idade, ainda guardava o desejo de trabalhar, e se inspirava com o cenário da beira do rio. Já não estava mais embarcado, mas seu coração permanecia próximo das águas.  

Quando se vive muito, muita coisa acontece diante dos olhos, que se acostumam a ver tudo passar. As pessoas passam, passa a carga, passam os barcos; passa o tempo.

Quando se deu conta, e do quanto apreciava aquele tipo de vida, já estava na hora de parar. Sempre aquela impressão de algo que se deu muito rápido. O velho corpo já não suportava mais.

Chegou à área portuária da pequena cidade, desceu a rampa lentamente, chegando ao cais flutuante. Havia poucas pessoas. Foi até a outra extremidade do pequeno terminal de passageiros.

Queria vislumbrar, mais exatamente, contemplar o grande rio, tão velho quanto ele, pensava. O nascer do sol era particularmente bonito.

O rio foi sua vida e navegar seu ofício; era seu afã. Sua forma pessoal de enxergar a Deus, antes que o povo chegasse e estragasse tudo com a sua algazarra.

Prestava atenção no grande espelho d’água; formado pelo rio. Passava das seis horas da manhã de um dia de poucas nuvens, prometendo bom tempo. O ar fresco soprado pelo rio se juntava à paisagem, a ponto de se permitir esquecer que o barco estava enchendo rapidamente.

Lá pelas sete e trinta deveria zarpar, assim desde às seis horas o barco receberia mais de uma centena de passageiros que se acomodariam no primeiro e no segundo convés.

O vão aberto, com acesso dos dois lados do barco possui pontos com alças onde os viajantes podem fixar suas redes; quando não existe uma espécie de tubo metálico onde são amarradas.

É muito usual na Amazônia, cada passageiro precisa levar, com a sua bagagem, a sua própria  rede.

Preferia que fosse assim, dessa forma. Viajou pelas localidades ribeirinhas desde a mocidade. Lembrava de um tempo em que se fazia necessário parar para catar e rachar lenha.

Para alimentar a fornalha do barco movido a vapor, uma chata. Um serviço extenuante para um deslocamento mínimo, se comparado com os dias de hoje.

Onde o nível das águas era muito baixo, era preciso descer e ajudar a empurrar. A chata “Niterói”, possuía um calado muito pequeno, mesmo assim podia encalhar; o rio secava mesmo.

Só muito tempo depois é que Ambrósio descobriu, por conta de conversas, quando de passagem por Manaus ou por Belém, que as chatas e outros barcos a vapor, como o gaiola, eram tipos de embarcação fabricados no estrangeiro; na Inglaterra e Estados Unidos.

Eram barcos de ferro, como lhe contaram entre goles de cerveja com cachaça. Acabaram servindo de inspiração para a construção de novos barcos na região, só que por conta do empobrecimento geral, passaram a ser feitos de madeira.

Com o tempo, se tornaram tão grandes quanto os barcos de ferro. Foi esse tipo de embarcação que suportou, e de certo modo ainda suporta, boa parte do transporte fluvial da região.

Ainda que no limite entre a sobriedade e a embriaguez, Ambrósio se fazia capaz de comentários que salientavam a estirpe de sua gente.

— Mas olha só, os homens aqui do lugar fizeram uma coisa que não foi pouca não. Pois, exigiu muita inteligência de quem fez. Porque podia ter dado tudo errado. Opinava, muito sério.

— Abandonar o ferro, porque o barco se acabou de velho. Sabendo  que o ferro era caro, ou que não tinha; e ainda sabendo que o ferro era melhor.

Prosseguia Ambrósio enquanto sua plateia, oferecendo toda a atenção que ainda lhes era disponível, ouvia tudo. Tudo mesmo; até tudo aquilo que estaria esquecido quando a manhã logo chegasse, trazendo outro dia de trabalho.

Assim ninguém lembraria de mais nada, nem daquele aparte de um nortista orgulhoso, muito menos de quem era Ambrósio.

— Ainda assim fizeram barcos de madeira, que são mais baratos e meteram motor. Foram tateando no escuro até aprender. Até fazer barcos grandes de madeira. Explicava.

— Então, o barco motor, de madeira, e o recreio de viagem mais curta; tomaram conta dessa imensidão de rios. É preciso querer aprender. Arrematou Ambrósio junto a sua plateia, sem lá grandes qualificações.

Na "Niterói", semiparalisada pela estiagem. Uma reminiscência de sua juventude; era tudo meio bizarro. Descer para catar lenha sendo que você pagou pela passagem. Empurrar um barco encalhado porque o motor a vapor não consegue mais deslocá-lo rio acima.

Na sua segunda viagem na chata, como passageiro, certa vez quis saber do capitão por que razão tinha que empurrar o barco já que havia pago passagem. O capitão argumentou, e muito cheio de razão:

— Sempre se pode ficar parado no meio do rio, no meio do caminho; mesmo pagando passagem.

Não ficou muito satisfeito com aquela resposta, mas entendeu. No fundo, em que pese o serviço pesado, e as poucas alternativas de trabalho,  sonhava poder participar daquele tipo de vida.

Em menos de dois anos voltaria à chata, só que então no seu primeiro emprego, como tripulante, fazendo serviços de carregador e limpeza. Considerou melhor do que ser pescador. O que queria mesmo, era ter contato com o resto do mundo; queria se expandir.

Agora com o compromisso, entre outras coisas, de ajudar os demais a fazê-lo navegar, mesmo que para isso tivesse que ser empurrando.

O tempo pode ter passado, mas dependendo do tamanho do barco, ou mesmo em ônibus, que chegaram depois com a Transamazônica, ainda nos dias de hoje, talvez se torne necessário descer para empurrar.

Aí o passageiro apenas escolhia, se era para empurrar no meio da lama; como atualmente. Se era para empurrar dentro d’água, como antigamente; e em alguns casos também nos dias de hoje. Seja pela época de chuva, ou pela estiagem dos rios, as coisas não mudaram tanto.

Já velho pensava nos barcos de outros idos, e intimamente achava graça daqueles que apareciam reclamando da lentidão; do frio da noite; do barulho do motor; do cheiro de fumaça; das pessoas tagarelando; da música tocando.

Tinha também aqueles para reclamar dos ambulantes que invadiam o barco antes de sua saída. Oferecendo toda sorte de artigos; da fila para usar o banheiro; dos passageiros se amontoando com suas redes cada vez mais próximas.

Da comida que não estava boa. A lista é praticamente interminável. Tem reclamação para tudo.

Achava graça porque em oitenta e dois anos havia sobrevivido a todos os barcos; a todas as situações e a todas as reclamações.

Já havia a disponibilidade de transportes mais rápidos, como as chamadas “lanchas à jato”. Algumas localidades também contavam com ônibus, e com transporte aéreo regular.

Não se importava com tais mudanças, gostava da visão das horas passadas lentamente, singrando os rios entre um pensamento e outro.

Entendia as viagens como momentos de sossego da mente; coisa que muito apreciava. Já se planejava dessa forma, para não ter de estar correndo atrás das coisas.

Estava embarcado tempo o suficiente para assistir de tudo um pouco. Estava no barco quando o mesmo teve pane no motor e passou o dia à deriva, parado no meio do rio, aguardando o reparo.

Era passageiro quando seu barco foi a pique ao desequilibrar por excesso de passageiros e possivelmente, excesso de carga e mal distribuída. Erro comum nos barcos dos rios da região.

Barcos que deixam o porto, carregados, e que à noite quando se afastam da cidade ainda recebem mais carga; é um mau sinal.

Até um mínimo erro de cálculo, pode significar peso extra em um barco que já estava cheio.

Entre outras coisas, isto significa também, energia potencial maior, no caso de o casco de madeira colidir com bancos de areia próximos às extremidades do rio, pois o barco não navega no meio do canal, mas na extremidade.

Por segurança, é comum nas noites muito  escuras, o barco avançar lentamente, com o comandante da embarcação se valendo de um farol móvel para identificar o caminho à frente.

Baixar a velocidade, redobrar a atenção e iluminar adiante; é o que se podia fazer. A opção seria parar.

Foi durante a madrugada que sobreveio o pesadelo. Ouviu-se um ruído, uma pancada surda. Em um primeiro momento, não parecia nada que preocupasse.

Só que não era bem assim; o impacto da embarcação em um banco de areia foi suficientemente violento para romper o casco de madeira. Porém, a embarcação não encalhou; prosseguiu preguiçoso na escuridão.

Lentamente o barco principiou a inundar o porão. Tão logo se deu conta do que acontecia, acionou-se a bomba d’água.

Enquanto isso, os tripulantes procuravam meter trapos, estopa, tecidos; qualquer coisa que se acomodasse na fresta e ajudasse a diminuir o aguaceiro no porão.

O esforço foi em vão, e o serviço perdeu o efeito desejado. A bomba já não dava mais vazão. O vozerio dos tripulantes e a correria dos homens na tentativa de superar o ocorrido, acordou os passageiros no meio da noite.

Tão logo alguns passageiros se deram conta e começaram a espalhar o episódio; fez com que aquilo corresse tal e qual um rastilho de pólvora; foi o caos.

O comandante principiou uma manobra, aproximando mais ainda o barco da beira do rio. Mandou soltar os poucos botes salva-vidas disponíveis.  Fazê-lo encalhar de verdade, agora era algo tão bem-vindo quanto providencial.

Estivera tentando ajudar os homens no porão a diminuir a inundação buscando tudo que se pudesse lançar mão. Com a subida da água, as máquinas foram comprometidas até parar.

O barco deslizava lentamente na busca de um encalhe salvador. Correu para soltar os botes enquanto gritava aos passageiros para colocarem os coletes. Não deu tempo. 

Os passageiros, sem nenhum tipo de orientação, começaram a se amontoar do lado direito, na direção da margem do rio. O barco principiou a adernar. Com o movimento, a carga solta começou a se deslocar para o mesmo lado, fazendo adernar mais depressa.

Desequilibrado e com o porão inundado, a água começou a entrar pela borda do barco. Era o fim. Ainda conseguiu lançar no rio o primeiro bote; não percebeu se estavam soltando os demais. A situação se precipitou rapidamente.

Tão logo o bote foi lançado, um monte de pessoas saltaram sobre ele. Logo havia um bote prestes a afundar sem conseguir se afastar do barco que adernava, jogando quase duzentas pessoas nas águas em meio a escuridão.

O farol fora deixado virado para a margem do rio. Um último recurso iluminando o caminho para aqueles que tentavam chegar na beira do rio à nado.

Estavam a poucas dezenas de metros; para quem soubesse nadar. Em cinco ou dez minutos seria apenas o silêncio. Mais de quatro quintos  de todos os presentes no naufrágio, perderiam suas vidas naquela madrugada.

Vendo o bote superlotado, o deixou de lado e atirou-se nas águas na direção indicada pelo farol. Não havia mais o que fazer.

Nadava um pouco, ao se cansar permanecia boiando, até poder recomeçar. Acabou se distanciando do acidente empurrado pela correnteza do rio. Não via mais a luz do farol; o barco havia afundado de vez. O lado irônico é que afundou em águas rasas. Por pouco o comandante não teria obtido sucesso na sua última manobra. 

Agarrou-se na vegetação que se projetava na beira do rio, para deter a ação da correnteza, enquanto procurava sair das águas. Acomodou-se na beira do rio. Era o cansaço; o frio; a escuridão; o silêncio e o medo.

Aos poucos conseguiu ouvir, aqui e ali, vozes que chamavam pelos sobreviventes. Avançou com dificuldade pela vegetação, e foi encontrando algumas pessoas no caminho, tão atônitas quanto ele.

Passaram-se mais duas ou três horas até que o sol, por entre as nuvens, abençoasse a terra com a sua luz. Os náufragos puderam então se reunir, para festejar, contar e chorar.

Não se sabia do total de passageiros; a estimativa oferecida por um tripulante, o único presente que viu a lista, estimou entre 201 e 225 pessoas à bordo.

Tomou por base o fato de cada folha se completar com 25 nomes; e havia pelo menos oito folhas. Dos sete tripulantes, dois perderam a vida. No total só havia 32 passageiros na beira do rio.

O velho gravou na memória todos os detalhes daquele dia fatídico. Parou de navegar por algum tempo. A família queria que abandonasse aquele tipo de vida.

De fato, não se sentiu capaz de fazê-lo. Se sentia por demais atraído pelas águas, paisagens e caminhos dos rios.

Com o tempo cobrando seu preço, e a idade se acumulando resolveu juntar algumas economias e montou uma pequena loja nas proximidades do porto.

Lá então, vendia desde alimentos até toda sorte de miudezas, apostando naquele tipo de viajante que deixa tudo para a última hora; e esquece um monte de coisas.

Para lembrá-los, e ganhar com isso, lá estava a loja do velho Ambrósio. Não fosse por ele lembrar; a viagem seria mais difícil. Assim o velho oferecia um serviço a mais.

Não era um homem de posses, mas o que obtinha com o pequeno comércio dava para o gasto, se somado à pequena aposentadoria.

Junto ao cais, já com a alma repleta dos ventos, das falas, e das águas que tanto amava, retornou para o seu novo ofício. Minutos depois, debruçado sobre o pequeno balcão, falava consigo mesmo, balbuciando palavras e lembrando de algo que sempre o intrigou:

— Quando consegui chegar na beira do rio, naquele dia em que o barco afundou. Estava tentando enxergar alguma coisa naquela escuridão toda; mas o que pude ver foram pessoas vestidas de branco. Estavam ajudando as pessoas que retiravam de dentro do rio e as colocando do meu lado. Pensava, revendo o passado.

— Bem do meu ladinho devia ter umas cinquenta pessoas, ou mais. Eu via muita gente; fiquei satisfeito, pois achava que teriam se salvado, e eu não estaria mais sozinho. Lembrava Ambrósio pensativo, e prosseguiu:

— Logo depois, um desses que estava socorrendo as pessoas, veio até mim e me disse que eu não iria com eles. Era para aguardar amanhecer. Então permaneci sentado e vi todo mundo se afastar; até que eles todos sumiram. Vai entender...

Assim, o rio tanto tinha seus muitos segredos, mas também seus fantasmas; dificuldades e seus perigos; prosseguia pensativo o velho. Era imensuravelmente belo na sua singularidade.

O caminho por onde se passa, sem deixar rastro.  Um lugar para quem tem olhos de ver, a força para se superar, a paciência para aprender, e os dias além para navegar.

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