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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

O cordão

Por: Antonio Mata

Escuro e de mau cheiro enorme, pestilento e permanente. O calor, só era inferior a 40 graus durante a noite ou nos dias de muita chuva. Normalmente silencioso e até mesmo de uma certa organização, se poderia dizer do lugar. 

Só havia um inconveniente, sempre a desafiar a autoridade dos mais antigos, frente à sanha dos mais novos. Cada vez mais cheios de argumentos no sentido de dar um jeito e se arranjar. A falta de espaço em meio a tanto bicho dependurado.

Os mais antigos se reuniram para expor suas mágoas, mas também sua ira. O primeiro a se exaltar foi Matusalém.

— Isso precisa acabar! Estou farto de pequenos cotovelos me cutucando as costelas. Me fazendo de escada, de passarela, falsa baiana e sei lá mais o quê. Já não se pode mais dormir em paz!

— E quando resolvem passar de um lado para o outro? Pisando por cima de todo mundo e nem sabem quem é! 

— Isso quando não fazem cocô em cima da gente. Já amanheci cheirando pior que uma latrina de botequim!

— Por tudo isso, por estas situações insultuosas, eu volto a repetir! Isso precisa acabar! Os mais novos precisam partir! Precisam desaparecer daqui com esse monte de pirralhos!

Os anciãos falavam sério e muito irritados. 

— E agora, o que vamos fazer? Está ficando cada vez mais difícil achar um lugar para se morar. É tudo muito bem fechado. Isso, quando não colocam veneno.

Filó não precisava ser nenhuma especialista para entender que estavam sob risco de despejo. Se não surgisse uma solução logo. E que aplacasse aquele bando de anciãos. O comitê mandachuva do lugar. 

Dentre os mais jovens, Mungo. Tinha fama de ser muito imaginativo, meio lunático e atrapalhado.  Mas, quase um inventor.

— Mungo, o que acha que podemos fazer? É bem verdade que estamos espremidos demais. — Era a mãe de um monte de morceguinhos quem falava.

— Pensei muito e há algo que pode muito bem nos ajudar. 

— Conta logo, o que foi que você descobriu? — Todos aguardavam a maluquice em primeira mão. Maluquice ou não era só o que eles tinham.

— Um cordão, ou melhor, dois, só isso. Compridos e resistentes, só isso, dois cordões. Vão ser suficientes.

— E como será isso? — Agora era o pai de uma penca de filhotes, querendo saber o que Mungo pretendia fazer com aqueles cordões. Os outros pais ouviam atentamente o que Mungo tinha a dizer.

— Vi certa vez uma escada de cordas. Mas não é bem isso, pois é diferente. É bem mais larga. Assim, vários filhotes poderão ficar dependurados.

— Mungo, Mungo! Lá vem você com suas ideias de girino! Só podia ser você! Quem é que vai limpar aquele monte de filhotes fazendo cocô um em cima do outro? Você, certamente, não é?

— Não irá acontecer isso. Não irão ficar um em cima do outro. Quer dizer..., não assim como você está pensando. — Outras mães, de uma tropa de assalto de morceguinhos, se aproximaram para ouvir melhor aquela história. Falaram em coro, ao mesmo tempo, igual na igreja.

— Os filhotes vão ficar como, para não se sujar?

— Em diagonal, uma grande diagonal. Vão já entender. — Mungo, então, se pôs a explicar seu plano. Tão original quanto diferente. Desenhou com o dedo por cima da poeira da laje.

— Pensem em uma escada de cordas. Só que os degraus de madeira são bem mais compridos. Cada filhote só ocupa um degrau, fazendo uma diagonal, de cima para baixo. Assim, nunca terá ninguém embaixo dele. Ninguém vai se sujar.

Então, completou seu desenho. Os presentes começaram a entender o plano e a invenção de Mungo. Que prosseguia descrevendo seu plano.

— Se a escada tiver dez degraus, abrigará dez filhotes. Os degraus serão de madeira e nunca terão que suportar muito peso. Pois cada degrau de madeira somente terá que sustentar um único filhote.

— Ora, mas isso parece um poleiro!

— Exatamente, parece, mas não é. Sem galinhas e onde todos estarão de cabeça para baixo. Mas, não era isso que vocês queriam?

— Peraí, peraí, você pensou em uma coisa? Esse seu poleiro de morcego. Isso vai ficar preso aonde?

— Ora, a resposta é óbvia. No madeirame do telhado.

— Aquele onde ficam os mais velhos fazendo cocô lá para baixo? — A pergunta de uma das mães vinha seguida de um ar acusativo. Poderia derrubar o plano de Mungo ali mesmo. Todos aguardavam a resposta.

Mungo, orgulhoso com o seu momento de glória, pelo que ainda não se fez, explicou com ar de sabichão.

— Somente irá ficar logo abaixo de onde estão os mais velhos, o ponto do meio do pau de poleiro. O degrau, onde será feita a amarração. Pois, o resto vai ficar em cruz, de cima para baixo, em relação ao madeirame onde estarão os mais velhos. Assim, todos poderão dormir em paz e ninguém terá que ir embora.

— Só com um ponto de apoio? E se isso se virar e ficar embaixo dos outros morcegos de novo? Os filhotes vão se sujar da mesma forma. — Todos os olhos se voltaram para Mungo.

— Isso não é nada, basta amarrar uma das extremidades e ele não vira mais.

Nas caras aborrecidas e desconfiadas surgiu um sorriso generalizado. Mungo havia deixado de ser maluco para ser um gênio. É bem verdade que ainda faltava o crivo da realidade. Aquele que adora derrubar as mais geniais das ideias.

O plano foi posto em execução e o poleiro de filhotes parecia mais exatamente um cabide com várias hastes. Com os filhotes colocados um abaixo do outro, sempre um pouco mais para o lado. Assim, ninguém haveria de se sujar.

O dia terminou, saíram para encher a barriga de insetos. Estavam cansados, porém alimentados e felizes. Todos se acomodaram no madeirame do telhado, tendo os filhotes sido colocados nas engenhocas de Mungo. Aquele poleiro com cara de cabide, com a ponta amarrada para não girar. Fizeram meia dúzia de engenhocas para receber 60 filhotes.

Logo todos pegaram no sono. Noite alta, aliás, para aquela época do ano, fazia um pouco de frio. Principalmente quando a madrugada chegou. Sentiu-se uma ligeira cutucada aqui, outra ali. Mais um empurrãozinho e alguém passando por cima dos demais procurando sua mãe no meio da noite.

Antes que o sol pudesse raiar lá fora, o que importa muito pouco. Já que morcegos não acordam cedo. Todos os filhotes haviam deixado o poleiro com cara de cabide e partido para perto de suas mães. Mungo havia esquecido. Junto da mãe é lugar quentinho, macio e seguro.

Aborrecido, mas também sonolento, Matusalém só pensou em uma coisa. Desceu e se ajeitou de cabeça para baixo no primeiro poleiro-cabide que encontrou. As brigas poderiam ficar para depois. A engenhoca de Mungo havia semeado a paz na Terra. Pelo menos até todos acordarem.

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