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histórias, crônicas e contos

O guardião do castelo

                                                                         

                                                                                                                                           Foto: inkflo por Pixabay

Por: Antonio Mata

O velho magro e empertigado sobre o seu cavalo baio, demonstrava altivez e autoridade dentro de sua armadura, já opaca pelo tempo. Os camponeses ao vê-lo passar, se colocavam na lateral da estrada e baixavam a cabeça, em sinal de respeito.

Enquanto se afastavam, um camponês mais atrevido, sacudia a cabeça com as mãos na cintura e repetia, imitando o som da armadura tilintando.

— Clein, clein, clein, clein...

A tropa de camponeses, se esforçando para não rir, pois alguém poderia morrer, só por causa disso, passava em silêncio.  Carregavam forcados, pedaços de paus, 14 lanças, 22 espadas, 27 elmos, e 36 escudos. O feudo pequeno, empobrecido, e submetido a inumeráveis contendas com os nobres dos feudos  vizinhos, por toda sorte de bobagens, apresentava sinais evidentes de não suportar mais tanta idiotice.

Nos escudos carregados pelos poucos soldados, estava desenhado um falcão branco sobre fundo vermelho, com as pernas abertas, segurando com suas garras, uma lança e uma alabarda. Os camponeses diziam que era uma galinha se segurando para não cair no braseiro. Alguém perdeu o pescoço, só por causa da brincadeira, mas que colou, colou.

O velho barão do bigode torto retornava de uma refrega, à frente de três cavaleiros e de pouco menos  de uma centena de camponeses famintos, recrutados às pressas, para dar uma lição no fidalgo vizinho, que havia se servido de meia dúzia de porcos, mandando assar todos e oferecendo àqueles seus bandidos e familiares.

Era como costumava chamar aquela, também meia dúzia de  cavaleiros, que mais pareciam ter saído de um asilo, e que eram na verdade, vassalos do senhor barão Sem Dente na Frente.

Este, por vez, era inimigo mortal do barão do Bigode Torto. Que detestava o barão  do Campo que Pegou Fogo. Esse tipo de coisa que a história não se deu sequer ao trabalho de registrar. Quem quiser que lembre, guarde, ou dê sumiço.

É que os porcos haviam fugido. Como não sabiam o que era um feudo, adentraram as terras do barão Sem Dente na Frente, terras estas, que eram de outro feudo. Foi isso que aconteceu.

De volta ao velho, sujo e insalubre castelo, o velho barão mandou recolher todo o equipamento à sala de armas. Uma espécie de caverna por debaixo do castelo, utilizada para guardar toda sorte de tranqueira, inclusive as armas. A maioria dos artigos era feita  principalmente em madeira, já que o ferro ainda era um luxo, e os objetos de ferro, sempre em uso. Só as armas tinham o status de arsenal de reserva.

Corria o primeiro quartel do século XVII, o que muito pouco importava. Nunca tinham visto pólvora, armas de fogo, só de ouvir falar. Monarquia nacional, saberiam se alguém avisasse, como até ali ninguém disse nada, eram senhores feudais de plenos poderes.

A imprensa de Gutenberg, esta sim chegou até lá, naqueles confins. Metade dos impressos estavam com o pároco local, e a outra metade com o velho barão do Bigode, duas bíblias. O padre nunca entendeu para que o velho queria aquele livro, já que, a exemplo de todos os habitantes do feudo, também era analfabeto.

Havia colocado sua bíblia em um suporte de madeira no salão principal do castelo. Ficava sempre aberta nos Salmos. Foi a ordem que passou. Na realidade, ficava aberta em qualquer página. Agora ficou mais fácil entender por que certos livros antigos passavam a impressão de nunca terem sido usados. Livros com mais de 400 anos, que não tinham sequer as marcas dos dedos, as marcas do manuseio.

O castelo era o símbolo do poder e da nobreza. Também um lugar de segurança, em tempos difíceis. Arquitetura onipresente dos contos de fadas, prisão de donzelas sequestradas e indefesas. A Bela Adormecida; Rapunzel em sua torre; Branca de Neve, princesa nascida em um castelo. Enquanto aparato defensivo, o castelo perdeu significado com o advento dos canhões. Porém, estavam lá, e uma nobreza falida ainda conduzia seu feudo a partir deles.

Tinham por hábito criar cães de caça, que ficavam circulando pelo castelo. A construção sombria e fria, de um lado tinha cheiro de sebo de cachorro, impregnado no canto das paredes e escadarias. Mais ao fundo havia um indisfarçável cheiro de cocô, por conta de sanitários primitivos, já que estavam restritos ao castelo, diferentemente dos camponeses, que tinham o campo ao redor de suas casas.

O empobrecimento por conta de uma série de safras ruins, havia acabado com qualquer coisa que lembrasse um clima festivo. Restavam umas poucas cabeças de gado e um punhado de cavalos. A doença completava o cenário, por sobre uma população mal alimentada e reduzida a menos de 350 pessoas, isto no feudo do Bigode, que na realidade, sempre fora pequena, porém mais reduzida ainda, por conta dos combates inúteis.  

O velho barão do Bigode comemorava a sua visão de vitória, na última batalha ocorrida, na realidade uma escaramuça, de outras tantas que já havia provocado.

— Foi duro, dessa vez foi duro. Mas acertei aquele cachorro!

— Conseguiu derrubar o barão Sem Dente?

— Não, não consegui não. Mas da próxima vez, ele não escapa.

 E assim prosseguia a vida. As escaramuças haviam deixado de ser mortais, pelo menos para a nobreza. Não para os camponeses, transformados em soldados às pressas. Para estes, escapar dos golpes desferidos com massas e espadas sobre suas cabeças, sempre era algo perigoso.

Até por uma questão de sobrevivência, haviam adotado uma estratégia de execução exigente, porém viável de ser feita. Na sua concepção, era tudo muito simples.

Tão logo recebessem ordem de atacar, ao correrem na direção dos soldados e camponeses inimigos, faziam o enfrentamento se dar, soldados armados contra soldados armados, e camponeses contra camponeses, armados com o que mais houvesse.

A parte mais interessante consistia em sair da frente dos nobres quando surgissem em seus cavalos e permitir que os cavaleiros antagônicos se cruzassem. A esperança era de que uns dessem cabo dos outros, o mais rápido possível.

O plano de fato ficava encoberto pelo pensamento militar da época, pois de qualquer modo, estavam promovendo a equivalência de forças. Talvez por isso tenha passado ao largo da análise dos historiadores, uma sutil estratégia de sobrevivência camponesa, contra uma nobreza burra, cruel e arbitrária.

A parte lamentável, era que os cavaleiros estavam ficando idosos demais. É que nenhum dos dois lados tinha filhos homens vivos. Vencidos pelo cansaço, depois de se moerem mutuamente, deixavam o campo de luta, moídos, porém vivos,  sem que não houvesse nenhum vencedor.

Seria mais fácil os anciãos briguentos morrerem em seus castelos, de uma forma mais  trivial, sem o brilho da batalha, caindo da escadaria, ou mesmo da altura do próprio corpo, algo muito comum entre idosos.

O pároco da região, estava preocupado com a sorte daquela população miserável, mas também com o desperdício de energia daquela nobreza falida. Por idiotas que fossem compunham a elite dirigente daquele mundo cinzento. Enquanto autoridade local, evocou a paz de Deus, e mais uma vez, chamou pela organização de um torneio, uma justa. O encontro era muito bem recebido, agradava a todos e evitava a proliferação inútil de cadáveres.

Definido o dia de realização da justa, cavaleiros e centenas de pessoas estavam no local da peleja para saber quem seria o vencedor. Era comum a vitória ser alcançada com apenas uma lança de diferença. Por razões sabidas, já que os cavaleiros eram poucos e a saúde também.

Justa caminhando para o final, os dois velhos barões resolvem cruzar sua lanças diante do povo. A turba grita escolhendo seu favorito naquele embate, comumente esperado. As pontas de lança, já a muito tempo haviam sido substituídas por bolas ou punhos fechados, feitos em ferro fundido.

Cavaleiros em posição, ao sinal saem em disparada para o choque corpo a corpo, símbolo do torneio. Bigode Torto levanta sua lança e se esconde por detrás do escudo, além do elmo inteiriço e fechado. Sem Dente corre a galope, e por descuido levanta demais a ponta da lança em forma de punho fechado.

No último instante, ao tentar baixar, acontece aquilo que seria lembrado como um grande feito. Na realidade foi fruto de um descuido, pois na continuação do movimento malfeito, encontraria o escudo de Bigode, e ambos poderiam voltar para casa e continuar contando mentiras que valorizassem a participação medíocre de ambos.

Só que não foi assim.

Aquele punho de ferro, ao descer, encontrou um ponto aberto entre o escudo e a parte inferior do elmo de Bigode, na altura do queixo do barão. O velho foi lançado para trás e para o chão bruscamente. Caiu de pernas e braços abertos. A pancada foi tão forte que amassou a parte inferior de seu elmo.

Uma dezena de pessoas acorreu e se colocou ao redor do velho, mais por curiosidade que por qualquer outra coisa. O velhote não era nenhuma pessoa querida, a torcida gritando no local era só uma encenação de quem não quer se comprometer. Retiraram seu elmo amassado. Alguém comentou que seu pescoço estava muito comprido.

— Barão, barão, está ouvindo, pode se levantar?

Outra pessoa observou.

— Ele quebrou o pescoço com a pancada.

Um velho e atônito cavaleiro, Dom sei lá do quê, tentava fazer alguma coisa.

— E isso mata, ou ele ainda está vivo? Não estaria só desacordado, até o pescoço sarar?

— Não sei, vamos colocá-lo sentado. Dizia outro.

Ao colocarem o velho sentado, foi fácil de se ver a posição incomum da cabeça, tombada para trás e para o lado.

— É, o barão está morto. O velho Sem Dente o matou.

A conclusão acendia antigas rixas e intrigas, por causa da água, por causa das árvores, de um javali, um cervo, ou até mesmo pombos. Os cavaleiros vassalos do barão do Bigode Torto, não pensaram duas vezes. E a velharia já se afastava para reunir e armar os camponeses mais uma vez.

Quando buscavam sair do campo de justa e tomar a estrada de volta ao castelo, se depararam com uma tropa formidável de centenas de homens. Na realidade eram mais de cinco mil. Ficaram observando aquilo meio embasbacados. Há muitas décadas que não viam uma tropa daquelas.

Um fidalgo, junto de seu ordenança, se aproximou. Sou o duque Negro. Quem são vocês?

O grupelho cochichava.

— Que história é essa de duque negro? Ele é branco igual a mim.

Outro cavaleiro respondeu.

— Deve ser por causa das roupas pretas, botas pretas, do cavalo preto e daquele escudo preto de borda dourada, igual a Lotus.

— O que é Lotus?

— Ah, sei lá. Fique quieto, vamos ouvir a conversa.

— Somos cavaleiros do barão do Bigode Torto que acabou de morrer em uma justa. Estávamos indo ao castelo, reunir as armas para vingá-lo.

— Esqueçam isso, entrem na tropa. Você velho, reúna todos os homens maiores de 15 anos e todas as armas. E prosseguiu.

— Mais algum nobre presente?

— O barão Sem Dente na Frente.

— Barão, reúna seus cavaleiros e soldados. Também todos os homens maiores de 15 anos. Ingresse na tropa e venha conosco.

— Senhor duque, e o castelo do barão do Bigode?

— Queime tudo e assumimos o feudo.

Ao ouvir aquilo, Sem Dente alegou que também tinha um feudo e um castelo para cuidar.

— Se resolver ficar no seu castelo, vamos queimá-lo com você dentro. Se nos acompanhar, terá a chance de ser mais útil.

O duque assegurou que suas ordens fossem cumpridas, e a tropa retomou a marcha.

O castelo de Bigode foi queimado e seus últimos e idosos cavaleiros, assim como os poucos soldados e camponeses ingressaram naquela tropa. O mesmo aconteceu com Sem Dente na Frente e seus homens.

Partiu em silêncio naquela tropa, sem poder comemorar sua vitória. Dessa vez seria verdadeira, e não um monte de bobagens. Tinha levado a melhor sobre o velho Bigode, e isto sim, merecia no mínimo, uma grande festa.

Logo seriam lembranças tolas de um tempo que se enterrava a si próprio. Os castelos, sem sua característica de lugar seguro, seriam abandonados, assim como os romances da cavalaria, daqueles que viveram neles.

Aqueles  que seguiam ali, por ordem do duque, em breve seriam liquidados. O barão Sem Dente na Frente e todos os demais, assim como os camponeses, mais uma vez, feitos soldados às pressas.

Ninguém fazia a menor ideia, mas aquela tropa ingressaria em uma das maiores máquinas de moer carne que os povos da Europa foram capazes de criar. Uma guerra que consumiria 8 milhões de vidas, em batalhas e matanças em nome de Deus. Que só terminaria, pelo cansaço, pela miséria e pela fome. Além de ter sido inútil e sem vencedores. A tragédia entraria para a história como a Guerra dos Trinta Anos.

Há quem diga lá pelos confins, por aquelas terras onde ficou o castelo em ruínas, que um fantasma, vez por outra, costumava ser visto fazendo a ronda nas amuradas, com sua espada, seu peitoral e seu elmo amassado. Há quem jure se tratar do velho barão do Bigode Torto. Não dizem que existem os tais castelos mal-assombrados? Pois é, algo precisa dar origem a esse tipo de coisa.

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