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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

O retorno

                                                                                 

                                                                                                                                                       Foto: Pablo Martinez

Por: Antonio Mata

Enquanto percorria a rua junto a sua mãe, pensava em como seria o pequeno animalzinho que iriam buscar. Qual seria sua cor? Seriam filhotes de várias cores? Escolheria um macho ou uma fêmea? Será que já não foram doados? Encontraria um coelhinho do jeito que procurava?

Estava feliz e satisfeita com a atitude de sua mãe que havia lhe prometido um coelhinho de estimação e finalmente cumprira com o combinado.

Saíram juntas e foram até a casa de uma conhecida de sua mãe que tinha comunicado quanto a existência de uma ninhada recém-chegada e que estava interessada em doar os animaizinhos.

Wanda pôde escolher o seu preferido e indicou à sua mãe um branquinho com uma única mancha preta no olho direito; com o qual simpatizou rapidamente.

Contente Wanda aninhou o pequenino em seu colo e retornaram para casa, onde cuidariam de acomodar o novo morador. A menina questionava qual seria o nome mais adequado para seu bichinho, aliás, o primeiro.

Mas ora, o nome lhe pareceu evidente e simpático, Olhinho. Simples e original, gostou do nome que acabara de lhe ocorrer; e assim o batizou.

Sua mãe havia esperado até que completasse dez anos para confiar na menina quanto a cuidar de um filhote; ainda que sob sua supervisão.

Um erro muito comum entre as crianças e os seus pais, é acreditar que um pequeno animal é tal e qual um brinquedo. Também sabia que seria uma experiência muito boa para Wanda naquele momento, acreditava.

Se de um lado se exercita a atenção, a disciplina e o zelo, do outro propõe o carinho; a afeição e o respeito pelos animais.

Olhinho cresceu rapidamente, e igualmente rápido incorporou em seu comportamento os hábitos da vida dentro de casa. Era um animal tão silencioso quanto esperto e adorava a companhia de Wanda; que não tirava o Olhinho de suas vistas.

Até que Luciana uma amiga de sua mãe, durante uma visita, junto a Marta sua filha adolescente, viu o Olhinho e ficou encantada com o animal. Fazia elogios e frisava suas qualidades, andando com o bichinho de um lado para outro da casa.

Em outra oportunidade, estando mais uma vez na casa da menina com seu coelho, contou à mãe de Wanda que com a ajuda de  uma vizinha, que tinha uma fêmea de pelagem branca,  poderia “cruzar” os animais para obter uma boa ninhada.

Estaria esta sua vizinha estava disposta a ajudá-la neste propósito. Expôs sua ideia à Célia, sua amiga e mãe da menina. Célia não simpatizou muito com a proposta toda, mas, ante a insistência da amiga chamou sua filha para ouvir a ideia de Célia.

A menina detestou e se opôs a emprestar seu Olhinho querido, fosse qual fosse a razão. Célia prosseguiu argumentando e oferecendo garantias de que o seu pet querido voltaria logo; são e salvo.

Não haveria demora nenhuma, não havia com o que se preocupar. Wanda olhava de cara amuada para sua mãe, como quem diz “e agora, o que é que faço mamãe?”.

Célia procurando conciliar as coisas, sugeriu que deixasse Olhinho permanecer na casa de Luciana por apenas dois dias, pois achava que seria o suficiente para que os dois animais se conhecessem.

Ainda amuada, tendo levado em conta os argumentos de sua mãe e de Luciana, concordou com a partida temporária do seu primeiro e querido mascote da casa. Sentia-se mal com tudo aquilo, mas confortada pela mãe, preparou-se para aguardar os dois dias.

Dois dias que se transformaram em três. A mãe da menina fez contato solicitando a devolução do animal. Três dias que viraram quatro.

Célia tornou a contactar a amiga indagando quanto à devolução do coelhinho de sua filha, que apresentava sinais de ansiedade e febre, salientando o valor afetivo que o animal tinha para a menina, tendo como resposta que o levaria tão logo se desocupasse de alguns afazeres.

Estranhando a atitude de Luciana, ela mesma se dirigiu à casa da amiga, pois queria saber o motivo da demora e a quebra do acordo que havia sido feito com Wanda.

Foi quando ouviu de Luciana que Olhinho havia morrido, sem que ela soubesse explicar como aconteceu. Apenas o encontrou morto logo na manhã do dia seguinte, quando trouxe o animal. Ele nem sequer chegou na casa da vizinha.

Apalermada e surpresa, Célia olhava fixamente para a amiga, com as mãos sobre o nariz e a boca, sem acreditar no que ouvia. Como iria explicar tal coisa para sua filha?

Justamente ela que havia concordado e insistido para que Wanda permitisse a saída temporária de seu pet mais precioso. Luciana observou a atitude da amiga e questionou:

— Só por causa daquele bicho, é?

Célia perplexa, deu as costas e retornou para casa transtornada com a notícia e a descoberta da desfaçatez de Luciana.

Marta, que assistiu tudo, olhou bem nos olhos da mãe e disse:

— Não vai contar a verdade?”. Ao que Luciana respondeu com o silêncio.

Marta saiu atrás de Célia com sua mãe a gritar:

— Onde você vai? Volte aqui!

Ao que Marta, de imediato retorquiu:

— Vou fazer aquilo que você me ensinou, vou dizer a verdade. Não é? E prosseguiu no encalço de Célia.

Marta saíra no dia em que trouxeram Olhinho e havia dormido na casa da avó. Luciana precisava sair e havia deixado o coelho preso dentro de uma caixa na área de serviço da casa.

— Dona Célia, juro que não foi por mal. Dizia Marta, consternada. Um gato de rua saltou o muro, invadiu o local e matou o Olhinho. Contava Marta, meio sem graça, mas honesta ao ter de assumir o ocorrido. Célia ouvia desolada.

Na manhã seguinte o sangue espalhado pelo local falava da luta de Olhinho para fugir de seu algoz, sem sucesso. Olhinho não foi vítima de um gato de rua qualquer,  mas da imprudência, da inveja  e da empáfia dos humanos.

— Sinto muito dona Célia, não queria que fosse assim. Eu também gostava do bichinho, e acreditava que em seguida ele seria devolvido, igual a minha mãe falou. Concluiu.

— Esquece isso Marta. De qualquer modo, vou dizer a ela que o Olhinho fugiu e se perdeu. Esse assunto já chega, termina aqui.

Ao saber do suposto desaparecimento do Olhinho, Wanda ficou inconsolável, e aos prantos se dirigiu à sua mãe:

— Não podia ter feito aquilo mamãe. Ele não podia ter saído de casa. Correu e se trancou no quarto para chorar o desaparecimento de seu amigo.

Célia sabia que não havia mais o que fazer, que só o tempo curaria a experiência traumática da filha. Agora era deixar o tempo passar.

Ao deixar o corpo para o outro lado da vida, na simplicidade da sua existência frágil, mas na sua condição de filho do Altíssimo, Olhinho foi socorrido por benfeitores espirituais especializados no trato com o reino animal.

Tomados de compaixão por conta dos incontáveis casos em que a vida animal é tão depauperada, observaram que o pequeno Olhinho se sentia abandonado pelo afastamento prematuro de sua amiga Wanda.

— Ele ainda sofre com a separação, mas vamos acalmá-lo e tratá-lo. Penso que podemos lhe dar o que mais precisa em breve. Tenhamos só um pouco mais de paciência. Dizia Rodrigo um dos trabalhadores que recebera Olhinho. Então prosseguiu:

— Vamos deixá-lo repousando enquanto providenciamos o seu retorno de uma forma bem auspiciosa. Nosso amigo merece, vamos trabalhar no seu caso.

Se estuda tanto na Terra. Aprendem biologia, veterinária, zootecnia. Aí, acreditam que depois é só morrer e acabou tudo. Mal se dão conta que é exatamente aí que o trabalho de fato começa.

O Divino cria, o homem destrói e depois diz que tais e tais espécies acabaram extintas. Sendo que Deus providencia e guarda as matrizes.

— Estão todos aqui fazendo o que mais gostam, evoluir e viver. Dizia Rodrigo, e concluiu:

— Ama a criação Divina, como a ti mesmo. Deus há de retribuir teus esforços permitindo que conheças a continuação daquilo que um dia lhe foi ensinado parcialmente na Terra. Todos precisamos de ajuda. Olhinho, o coelhinho querido de Wanda também.

Um ano depois, um homem idoso bate ao portão de Célia, com uma oferta inusitada. Dizia o homem:

— Bom dia, senhora. A coelha de minha neta deu cria e ainda preciso arranjar donos para os cinco filhotes restantes. Dizia mostrando uma caixa de papelão, e continuou.

— Tenho um pequenino aqui comigo. Não gostaria de vê-lo?

— Como não era todo branquinho como os demais, não quiseram ficar com ele. Ele é um filhote muito bonito.

Célia chamou Wanda e foram as duas ver o bichinho.

Quando o velho homem mostrou o animal, a surpresa da menina foi esfuziante e imediata. Wanda não acreditava; o coelhinho tinha a pelagem branca e uma única mancha preta no olho direito. Olhinho havia voltado para casa.

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