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O Salvador

                                                                          

                                                                                                                                                 Foto: geralt

Por Antonio Mata.

Apoiado em seu cajado, o andar sereno de quem já conhece o caminho por demais percorrido. Cantarolando antiga canção, quase um sussurro, atendia ao compromisso dos fins de tarde. Subia a ligeira encosta, a mesma de outros tempos, no ofício que herdara de seu pai, há bastante tempo.

Se a vida era solitária, e um tanto quanto distante da pequena cidade, porém vivia da forma que ele mesmo escolhera. Não via nisso nenhum problema. Da algazarra da passarada no início das manhãs, ao entardecer dos dias quentes, até os dias frios. Cruzar tudo, até apreciar a chegada da noite. Noites tão sucessivas quanto diferentes.

Alguém assumiria não passar tudo, mais do que uma grande mesmice. Mas, ao olhar para o céu cheio de estrelas, sabia que aquele cenário das coisas distantes estava sempre mudando. As noites claras e sem nuvens traziam a grande conjugação dos céus. Os planetas, estrelas, a lua, os cometas, os bólidos do céu mostravam sua sucessão de eventos, de forma tão discreta quanto o próprio firmamento. Até que algo diferente se manifestou no céu.

Sabia não se tratar de uma estrela cadente, ou algo parecido, da feita que estava acostumado com tais ocorrências. Dessa vez o fenômeno luminoso era por demais diferente. Na impossibilidade de poder descobrir do que se tratava, deixou de se importar com aquele feixe luminoso. Porém, a luz permanecia no mesmo lugar, tão imóvel quanto nos dias anteriores.

Preferiu cuidar de suas ovelhas a dar espaço para novas especulações, ainda que o feixe luminoso fosse ligeiramente perceptível durante o dia, se tornando radiante nas noites estreladas e sem nuvens. A necessidade de se cuidar do rebanho o deixava ocupado.

Era tempo de tosquia, depois juntar a lã em grandes fardos e amarrá-los para o transporte. A lã era um produto muito apreciado e fácil de negociar. Tempo de se obter algumas moedas a mais para a aquisição de azeite; trigo; peixe e frutas secas. Havia também carne e queijo para o consumo e para trocar por outras coisas de necessidade.

Os dias seguiam seu curso, de uma vida simples, sem luxos, mas que tinha seus méritos e vantagens. Muito raramente, algo de fato diferente acontecia para trazer as novidades do que se passava para além dos montes do lugar.

Não soube perfeitamente, porque ocorria aquilo, o que notou, porém é que de repente começaram a surgir viajantes novos pelos caminhos próximos. Foi o surgimento de caras novas nas estradas  que chamou a sua atenção.

Até que em certa ocasião, já caminhava para o crepúsculo quando aqueles viajantes chegaram. Queriam se acomodar embaixo de uma árvore, e fazer o fogo, de modo a passar a noite.

— Viemos em paz, queremos apenas um lugar para descansar e depois seguir viagem.

— Claro, se quiserem tenho um pouco de leite, pão e queijo.

Diante de pequena fogueira trocaram algum alimento disponível, por pura amabilidade. Entretanto, a melhor das ofertas, estava por começar, e estava na expectativa de todos, as conversas. As novidades da parte daqueles que viajam, quando então falaram finalmente de seus propósitos.

— Diga pastor, na cidade mais próxima, poderíamos encontrar uma sede de governo, um palácio, ou até mesmo um grande templo, talvez? Algo que nos indique alguém com grande autoridade. Na realidade, estamos procurando por esta pessoa.

O pastor respondeu com convicção.

— Lá na cidade não existe nada, nem ninguém, que se assemelhe sequer, a isto que está procurando. A cidade é pequena e pobre. Talvez algum comerciante, ou um representante itinerante do rei que, de repente esteja no local. Normalmente é apenas um cobrador de impostos. Bem, o cobrador de impostos tem muita autoridade. Duvido que tenha a ver com o que estão procurando. Também um palácio? Com certeza, não.

Um tanto quanto frustrados, os viajantes olharam uns para os outros, e o primeiro prosseguiu a comentar.

— Na realidade estamos procurando por um príncipe. Antigas histórias, passadas de pai para filho, dão conta de sua chegada. Isto seria indicado pelo sinal que viria do céu. O homem parou por um instante.

— Nós estamos seguindo a luz, que tem sido vista no céu. Acreditamos que a luz nos indicará o local onde se encontra o Salvador do mundo, o Messias.

O pastor entendeu, pelas palavras do viajante, que aqueles homens não somente tinham visto a luz no céu, como também a estavam acompanhando, buscando localizar onde a luz se dirigia sobre a terra. Pensando consigo mesmo, só não conseguia entender o que a luz teria a ver com um palácio. Sua cara meio apalermada chamou a atenção de seu interlocutor, que então procurou explicar.

— Na realidade, amigo, nós ainda não sabemos direito, mas precisamos prosseguir até onde a luz nos indica. Só assim iremos realmente saber. É esta dúvida que nos motiva a prosseguir sempre. Tudo o que temos são profecias, escritos muito antigos que falam da chegada do Salvador, o Messias, e que tudo se daria nesta nossa época.

Naquela noite, com a mente tomada por aquela história e suas possibilidades, o interesse e motivação dos viajantes, tudo isso aguçava sua curiosidade. A vontade que sentia, era de acompanhar os viajantes naquela jornada. Porém, sabia ser uma tolice, não podia se afastar demais de seu rebanho.

Foi então se deitar, prestando atenção no feixe de luz, e nas estrelas do firmamento. Não demorou muito e rapidamente adormeceu. Na mente levava as expectativas e incertezas daquele dia.

Em sono profundo, se viu caminhando na noite escura, em meio a uma multidão de pessoas que seguiam todas na mesma direção. Em dado momento detiveram o passo. Todos prestavam atenção, como quem aguarda o desenrolar dos acontecimentos.

Até que, vindo do outro lado, alguém retornava de um local tomado de muita luz, a ponto de não se reconhecer o que havia ali, as formas do lugar. Por vez, aquela luz não era de nenhum candeeiro, nem que fossem mil. Não parecia nem velas, nem tochas. Tudo claro demais, não se podia enxergar direito o que havia adiante.

O homem se aproximou da multidão, e foi envolvido por ela, todos querendo saber o que havia no meio de tanta luz e que lugar era aquele.

— E então, pôde ver alguma coisa? É lá naquela luz que fica o palácio? Pôde ver alguém, um rei, um príncipe? E aqueles viajantes que vimos na estrada puderam entrar?

O homem olhou a todos demoradamente, e antes que começassem a se exasperar, principiou a sua fala.

— Lá não tem nada. Lá dentro, não há nada que poderia responder a qualquer um de nós. É só um estábulo, não há príncipe nenhum.

Um dos demais se adiantou esbravejando.

— Como não tem nada, seu idiota? Os escritos antigos diziam que os tempos seriam estes. O Salvador, onde está o Salvador?

O homem respondeu alto para que todos ouvissem.

— Não há salvador nenhum! Nenhum rei, nenhum príncipe, nada. Lá dentro só existe um burro de carga, um homem e sua mulher gestante, deitada no palheiro. E mais nada, fomos enganados.

A multidão, que já estava ansiosa, embasbacou-se de vez.

Um outro dizia.

— Não pode ser, deve haver alguma coisa errada. Está nos escritos, a luz ainda está no céu, o lugar está todo iluminado. Você está mentindo! Você não esteve lá! E a mulher, hein? O que me diz da mulher? Você mesmo disse que ela está grávida. E então, temos uma criança, pode ser isso, pode ser a criança.

O único a ver de perto o local, respondeu calmamente.

Você diz a criança? O filho de um camponês? A mulher de um camponês, dentro de um estábulo, junto de um burro, deitada sobre o palheiro, traz na barriga um príncipe, o salvador. É assim que vocês querem? Porque é o que existe lá dentro. Não é nada, nem ninguém.

A decepção se instalou, e quase que em coro, repetiam sem parar.

— Está nos escritos antigos; nas profecias; está nos escritos; está nos escritos.

O pastor, de súbito acordou, impressionado com aquele sonho onde todos procuravam a mesma coisa, ainda que não soubessem exatamente o que era. Olhou ao redor, o dia já estava amanhecendo. Foi só o tempo de ver ao longe os viajantes que já se afastavam.

Teve o ímpeto de correr até eles e contar do sonho que tivera, e de como não haviam encontrado nada, a não ser uma mulher gestante deitada sobre o palheiro.

Deteve-se, e repensou sua atitude. Achou aquele sonho desanimador demais. Preferiu se calar, talvez por não querer frustrar os viajantes com sua arenga de pastor de ovelhas, apoiada em um sonho, meio sem pé e sem cabeça.

Havia coisas que não compreendia. E aquele monte de gente, de onde saiu? E a luz intensa na direção do que se dizia ser um estábulo? Então seria o ponto final da busca daqueles homens, motivados a encontrar o Salvador do mundo?

Ficou tudo muito confuso para um pastor. Os viajantes então, que conferissem tudo eles mesmos, lá quando chegassem no lugar. Afinal, a vida toda nunca tinha visto um príncipe, só seus animais de pastoreio e os moradores daquelas redondezas.

Então, juntou suas coisas, pegou seu cajado, e foi cuidar da lida, em mais um dia junto ao rebanho. Os palácios, príncipes, e autoridades, ficariam para quem entendesse disso melhor do que ele próprio. O que sabia era cuidar de ovelhas, cabras e carneiros. Afinal, era disso que entendia.

Saiu em direção a seu rebanho, porém atentando para mais uma coisa, “ora, ainda havia uma criança”. Olhou para o céu mais uma vez, e falou para si mesmo.

— Então, a história ainda não terminou. Ainda pode ser o Salvador.

                                                                                                    

Foi criado, na ocasião, por parte da espiritualidade superior, uma barreira de isolamento energética, para que nada nem ninguém comprometesse a chegada do Salvador.

Posteriormente, com o nascimento do Messias, a notícia ecoaria por todos os rincões do mundo; por todas as dimensões viventes; todos os céus da Terra; e por toda a Via Láctea. A descrença, a confusão e aflição descritas na história, constituem mera alusão aos cenários que estão conosco até os dias de hoje.

 

                                                                                                                              “ Bem-aventurados os que não viram, e creram!” (João 20,29).

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