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                                                                                                Foto: Léonard Cotte

Por: Antonio Mata

O sol estava se pondo e as nuvens de passarinhos que viviam no lugar faziam festivos sobrevoos, antes de se recolherem para seus ninhos nas árvores. Algumas pessoas chegavam apressadas, se dirigindo para suas casas.

Tinha chovido bastante naquele dia e o céu, ainda que o sol fosse visível, continuava nublado. Assim, se apressavam ante a possibilidade de mais uma chuvada repentina.

Na varanda de uma das casas da rua, dois cães prestavam atenção em tudo o que se passava. Pacato, um cão vira-lata, deitado como estava, comentava com Cadete, um velho cão Mastif igualmente deitado ao seu lado:

— Olha aí Cadete, aquele monte de gente já vem chegando outra vez. Tem uns que são bem confiados e se metem onde não são chamados. Ontem teve um engraçadinho que estendeu o pé para que a Lindalva tropeçasse no pé dele. Acredita nisso? Rosnando baixinho Pacato se incomodava com aquelas presenças; e prosseguiu:

— Que imprestável. Ainda vou acertar a canela dele com os meus dentes. E aquele maluco que fica cantando sozinho, e ainda fica dançando sem música? Pacato não parava de tecer opiniões sobre os visitantes da casa.

— É bem verdade que aquela mulher que fica sempre na sala, ela não atrapalha ninguém. Nunca vi se meter com ninguém da casa. Já aqueles outros três, estão sempre juntos; sempre cochichando. Parece que não têm mais nada para fazer da vida. É uma gente muito esquisita.

— O homem que estendeu a perna, está procurando pela Lindalva novamente? Perguntou Cadete, com voz de quem vive dormindo, sem se levantar do chão.

— Ainda não. Se ele fizer isso de novo, eu arranco a canela dele. Respondeu Pacato, rosnando outra vez, como quem não gostasse nada daquilo que se passava.

— E por que você não faz isso agora, logo? Vai lá e acerta ele, antes que resolva bancar o engraçadinho de novo. Dizia Cadete.

— É..., eu tô pensando nisso. Se eu tivesse o seu tamanho Cadete, eu acabava com a graça dele num instante. Mas você só pensa em ficar deitado.

— Eu penso e depois me deito. Já você fala, fala, fala, mas continua deitado. Se está tão preocupado, vai lá e acerta ele. Da minha parte, sou apenas um velho soldado. Preciso descansar; até porque me contaram que velhos soldados costumam morrer mais cedo que os outros. Estou economizando.

— Eu não acredito nisso. Você agora é um come e dorme; só serve para dar prejuízo, seu preguiçoso.

— E você, além de pacato é tolo. Estou descansando para quando um ladrão chegar. O muro está a quinze metros daqui; cem metros não, mas quinze metros eu corro. Aí eu vou querer ver a cara do ladrão, mas não vou poder. Estarei ocupado demais segurando o moço pelas calças, carne macia e ossos; coisa de soldado velho. Na hora, vê se você acorda e vem me ajudar.

Apesar da idade, Cadete era um bom vigilante, e quando o cachorro é daqueles bem grandes, é melhor pensar duas vezes antes de querer pular o muro.

Para Cadete, a experiência já havia ensinado que havia limitações evidentes entre dois cães, que viviam na matéria; e aqueles visitantes estranhos que de tempos em tempos apareciam feito fumaça e depois se retiravam.

Mas aí então, chegavam outros, como que uma segunda leva. Só a senhora de pé no canto da sala era permitido ficar temporariamente no local. Outras levas já haviam passado e ela ficava. Alguém deveria estar permitindo a presença dela, pensava. Mas, tinha ainda uma outra coisa. E Cadete, que continuava deitado, perguntou do incomodado Pacato, que não parava de rosnar:

— Aquela senhora distinta, aquela de branco que vem ver o que está acontecendo e depois vai embora, ela já chegou? Ao que Pacato respondeu:

— Ainda não. Quando ela chega, sai correndo todo mundo, menos a senhora do canto da sala. É ela quem realmente acaba com a graça desse povo. Ainda bem que de vez em quando ela aparece por aqui. Só assim tem sossego nessa casa. E prosseguiu contando:

— Você sabe de uma coisa? Da última vez que vieram aqui, eu tentei morder o calcanhar desse sujeito que fica perturbando a Lindalva. Sabe o que foi que aconteceu? Nada, não aconteceu nada. Era o mesmo que morder o vento. Essa gente é mais esquisita do que eu pensava. Disse pacato, impressionado com aquele sujeito; uma espécie de fantasma.

Cadete pensou um pouco no relato de seu amigo, e observador que era, notou que fugiam da senhora de branco por pura ignorância, pois ele mesmo tinha grande consideração por sua presença, e sabia que a partir daquele momento tudo ficaria bem de novo.

Já havia notado também, que era ela que atendia os recém-chegados e o carinho e atenção que dedicava a todos, principalmente quando trazia um grupo de pessoas vestidas igual a ela, e tão luminosos quanto ela mesma. Então, fez uma pequena sugestão ao seu companheiro de vigilância.

— Como você já entendeu, não dá para mordê-lo. Mas, há algo que você poderá fazer uma vez, talvez duas vezes. Até porque logo, logo, ele vai descobrir. Se é que já não descobriu.

Pacato levantou a cabeça, arregalou os olhos e prestou muita atenção. Enquanto Cadete prosseguia:

— Existem coisas que você não sabe Pacato, mas, está descobrindo. Esta é que é a questão fundamental. Também existem coisas que vários deles muitas vezes desconhecem. E prosseguiu:

— Da próxima vez que ele tentar se aproximar da Lindalva, se interponha, rosnando, latindo, mostrando os dentes e fazendo barulho. Se ele se assustar, ele vai se deter, pelo menos por enquanto. Mas se ele não ligar pra você, é porque já entendeu que você não pode fazer nada. E isso é tudo. Boa noite, Pacato.

Aquele cenário descrito na conversa dos cães, de fato era provocado pela própria Lindalva, médium inconsciente. Sentia dores, calafrios, formigamentos, irritações, crises de choro e outros incômodos frequentes; além de ouvir vozes e ver pessoas estranhas dentro de sua casa.

Na realidade via pessoas em qualquer lugar, só não consegue fazer a distinção entre espíritos e aqueles, que como ela, estão vivendo na matéria.

Realizava consultas e os exames médicos necessários; porém  ante a constatação de que não havia um diagnóstico médico para seu mal-estar, voltava para casa e continuava doente.

Continuava submetida às mesmas dores, vozes e visões, sem prosseguir na busca por respostas. Lhe faltava o necessário esclarecimento espiritual.

Meia hora depois, estacionava na frente de casa, Inácio, marido de Lindalva. Fechou o carro e cruzou o portão na frente da casa, com cara de quem não se agradou daquele dia. Dessa vez, Pacato observava em silêncio.

Inácio entrou na casa, pela porta da sala, costumeiramente aberta. Mas, não prestou atenção nos dois cães deitados junto à porta. O que motivou o guardião Pacato a romper com o seu silêncio.

— O Inácio já chega com essa cara de quem comeu e não gostou; e essa casa cheia de gente. Não sei não, está mesmo parecendo que hoje vai ser noite de confusão.

Até os cães da casa já entendiam a lógica de certos casais do nosso mundo. Só se entendem brigando primeiro. Ela vai querer contar os episódios do dia, e ele não vai querer saber.

Depois ele vai perguntar por coisas que já não sabe mais onde deixou, e aí quem não quer mais saber é ela. Outros, que haviam chegado antes ou já estavam na casa, mais preocupados em se meter na vida alheia, também já entendiam essa lógica. Por isso, aproveitavam para fomentar mais confusão.

Existem espíritos que gostam de brincar com isso, mesmo que isto signifique o desamor e a perturbação dos demais. Não se tratava de criar algo na cabeça de quem quer que fosse.

Era só ficar soprando a chama para que o incêndio começasse. Não precisavam criar nada. Muitas vezes, sequer sabiam do motivo pelo qual foram levados a agir daquela forma.

Mandavam fazer, e tal e qual robôs agiam dessa ou daquela maneira, na condição de mentes subordinadas desprovidas de autonomia. No fundo, viviam uma espécie de escravidão, empurrados pela violência à qual seriam submetidos, caso não concordassem.

Pacato, que continuava deitado na varanda, mas atento ao que se passava na sala, viu quando Lindalva se dirigiu à cozinha, e antes que aquele sujeito invasor se dirigisse até ela, levantou-se rápido e saiu na direção da cozinha no intuito de interceptar o invasor. De frente para o homem, fez uma cara feia, mostrou os dentes e rosnou para o intruso.

Lindalva olhou para trás, querendo saber de Pacato por que razão estava fazendo aquilo. Para a surpresa de Pacato, o homem prosseguiu, como que a ignorá-lo e passou pelo perturbado Pacato, tal e qual um fantasma. Atordoado, Pacato chamava pelo amigo Cadete.

— E agora Cadete, o que é que eu faço? O sujeito é feito de fumaça! Não quer parar e eu não posso morder. O que faço agora?

O velho Cadete, com a tranquilidade que os anos lhe ensinaram, avisava seu companheiro:

— Não faz mais nada, Pacato. Já fez o que podia fazer; esqueça isto e volte para o seu posto. Deixe que a turma de branco vai cuidar disso para você.

Sem graça, Pacato se retirou e voltou para a varanda.

Já na cozinha, o intruso buscava interceptar Lindalva no intuito de perturbá-la. Ela que já se aborrecera com a reação e os impropérios de Inácio, ao saber que teria de sair novamente para comprar uma botija de gás de cozinha, muito embora já tivesse sido avisado por ela; logo pela manhã e esquecera do aviso.

Antes que o intruso pudesse dar continuidade ao seu intento, foi detido por Ana Laura, a senhora de branco da observação feita por Cadete, que se apresentava junto com seu grupo de bem feitores espirituais, que acompanhavam há algum tempo o caso de Lindalva e Inácio.

— Qual o seu propósito aqui irmão? Não percebe que agindo assim atira no lixo um tempo precioso que você poderia estar utilizando a seu favor? Ainda não cansou de perambular pela Terra sem propósito? Como isto pode ajudá-lo a deixar a confusão mental em que você se encontra e trazer a calma e o sossego que você tem buscado, mas que não encontra? Há tanta coisa para você pensar e se organizar. Pretende mesmo perder seus dias aqui, você que nem os conhece?

Josias, o intruso, se viu desconcertado com as colocações de Ana Laura, para as quais não conseguia pensar em uma única resposta. Só sabia que havia sido arregimentado para fazer aquilo sob a ameaça de ser preso e sofrer as consequência.

Já havia esquecido de si mesmo com as cobranças que recebia, no sentido de não abandonar aquela casa e aquelas pessoas.

Sabia de antemão, que não queria mais fazer aquilo. Já não pensava mais com clareza, como Ana Laura já percebera. Não entendia direito como aquilo tudo aconteceu.

Só conseguia lembrar que passava por um cruzamento em uma motocicleta e um carro atravessou na sua frente, colidindo com ele, que acabou sendo jogado na calçada, do outro lado do cruzamento. Viu um monte de gente correndo, e foi só.

Se irritava com Lindalva, pois sentia vontade de falar com ela e lhe contar o que havia acontecido. Acreditava que ela poderia ajudá-lo. Como Lindalva não lhe dava atenção, e ainda fazia de conta que não o via, se irritava de novo.

Foi assim que resolveu ficar estendendo o pé. Descobriu que poderia derrubá-la desse modo. Não era para machucá-la, só queria chamar a sua atenção de alguma forma. É bem verdade que também queria dar o troco pelo silêncio dela.

Ana Laura e seu grupo já sabia do caso de Josias, assim como dos demais. Já haviam se apresentado no sentido de socorrê-los e retirá-los dali, para que não provocassem maiores danos.

Isto poderia estender a perturbação que traziam com eles até as mentes do casal. Era tudo fruto da desarmonia reinante; não havia como, nem por que eleger culpados.

Os invasores estavam todos muito confusos, e dessa forma se tornavam presas fáceis de espíritos mais aferrados ao mal, que dessa forma controlavam suas mentes, sob o aporte do medo, o principal instrumento de controle dos homens, dos dois lados da vida.

Instrumento este utilizado por bandidos, mas também por governantes. Não é exagero nenhum afirmar que existem governos escravocratas na Terra.

Ana Laura estendeu o convite a todos  os espíritos presentes, incluindo aí, Maria Amélia; a mesma que Pacato avistara na sala e que aparentemente não incomodava ninguém. Ao receber o convite de Ana Laura para acompanhá-la de modo a receber auxílio para suas dores morais e reflexos de dores físicas.

Maria Amélia explicou que se identificava com Lindalva por ver muitas semelhanças entre sua vida e a vida corrente de Lindalva. Por isso acreditava que poderiam se ajudar mutuamente. O que de fato, não é verdade; pois uma não tem condições de apoiar a outra; não naquele momento.

Por fim, Maria Amélia acabou concordando com Ana Laura e deixou a residência do casal junto com o grupo de socorristas e demais espíritos que se encontravam perturbando aquele lugar.

Lindalva receberia assim, um certo alívio momentâneo do quadro que vivenciava; porém era muito importante que buscasse se informar. É bem verdade que a presença de seus cães junto do casal auxiliava na assepsia do ambiente doméstico, mas nada substitui o esclarecimento.

Quando o casal adormecesse, naquela noite levariam Lindalva para um breve encontro com os trabalhadores do Bem, que se propunham a ajudá-la. Lindalva não podia abdicar do esclarecimento. Quando retornasse à vida na matéria; no dia seguinte seria intuída a buscar auxílio.

Este é o momento de buscar apoio espiritual. Esta é uma das razões da divulgação permanente da obra escrita por espíritos superiores e organizada, e feita publicar por Allan Kardec. As casas espíritas estão aptas a oferecer esse tipo de esclarecimento, além de tratamento espiritual, de tal forma que os humanos da Terra não fiquem sem o amparo necessário.

Cadete, tendo observado o desenrolar de toda a situação, voltou a se espreguiçar na varanda já preparando o próximo cochilo de sua guarda noturna, sonolenta, mas presencial.

— Viu só Pacato, eu não te falei? Hoje não teremos gritos nem discussões acaloradas por questões de pouca importância. Vamos ter sossego por mais alguns dias. Mas, é só enquanto um outro grupo não resolve aparecer mais uma vez e estragar tudo. E prosseguiu:

— Então Pacato, aproveite e relaxe; pois a vida é curta e a morte é certa. Quem vir o ladrão primeiro, acorda o outro, tá bom? Não esqueça que somos uma equipe de guarda.

Pacato e Cadete prosseguiram com o seu trabalho de vigilância e observação; mas também de amparo à Lindalva e Inácio, promovendo a assepsia do lugar e absorvendo fluídos nocivos deixados no ambiente.

E assim tem sido; experimente ter um cão por perto. Recolha um destes que abandonaram pelas ruas, vai ser bom para ele; e muito mais para você.  

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