Por: Antonio Mata
Cauteloso ao extremo, preferiu chegar com muita antecedência. De fato, ao chegar o terminal estava vazio. Sentou-se e se pôs a esperar. Em uma caderneta verificava algumas anotações, completando alguns lembretes.
Pensou estar sozinho no lugar. Até levantar a vista e ver dois homens próximos dali, de vestes claras. Algo que lhe aguçava a curiosidade é que ambos estavam com mochilas nas costas e em momento algum as retiravam. Como se fossem leves a despeito do tamanho.
Menearam a cabeça em um gesto curto quando viram que estavam sendo observados. Achou aquelas vestes meio diferentes. Contudo, os mais jovens gostam de inovar. Achou melhor não ficar observando os dois. Já que não diziam nada, melhor não dizer nada também.
Com a aproximação do horário de partida do voo, o saguão começou a encher. Percebeu facilmente que os dois mochileiros, sempre de pé, pareciam não ser notados pelo demais, que ignoravam suas presenças.
A despeito de manter distância, não resistiu à tentação de dar sempre uma espiada naqueles dois. Quando enfim, foi dado o embarque. O que lhe chamou a atenção, mais uma vez, foi o fato de não fazerem check-in igual aos demais, muito menos atenderem à chamada para o embarque.
Então, o que faziam no aeroporto chegando tão cedo?
Sem se dirigir a ninguém, com aquelas mochilas nas costas que não tiravam nunca? Não falavam uma única palavra e no final, não iriam sequer viajar? Gente estranha, gente esquisita. Tanto que depois sumiram. Pelo visto, foram embora.
Feito o embarque, em mais uns dez minutos o avião decolou. Já havia se acomodado em sua poltrona junto à janela do lado direito. Ao observar as nuvens, o que prendeu sua atenção, de fato, foi uma forma cilíndrica.
Lembrava uma cápsula de medicamento, toda prateada e que acompanhava o avião sem alterar seu movimento. Nenhum som, nenhuma mudança no seu padrão de voo.
Aproveitou para se dirigir ao passageiro ao lado.
— Olha só aquilo ali.
— Aquilo o quê?
— O objeto prateado acompanhando o avião.
— Prateado, objeto, onde?
— Bem ali. - Apontou para o objeto.
— Ora, só tem nuvens. Não vejo nada prateado, só nuvens.
— Será que só eu estou vendo isso? - O outro passageiro sorriu e indagou:
— Tem lido muito sobre ETs? Ou andou assistindo filmes desse tipo?
Com ar de decepção, respondeu encerrando a conversa.
— Não leio sobre ETs nem vejo filmes. Esqueça isso.
A cápsula prateada, do tamanho de um furgão, continuou em seu voo silencioso.
Chegou ao destino tendo rapidamente tomado um táxi. Não sem antes ver os dois mochileiros mais uma vez. Cuidou de todos os seus afazeres, sempre com os dois mochileiros nas proximidades.
Concluído o motivo de sua presença, regressou ao local de origem com a cápsula prateada lado a lado com o avião. Ao deixar o aeroporto, virou-se e saudou os dois mochileiros invisíveis, recebendo um discreto e curto sorriso de volta.
Ao ver aquilo, o motorista do táxi, que acomodava a pouca bagagem, achou que se tratava de alguma caduquice. Coisa de gente velha que gosta de falar com o vento.
Então, os mochileiros desapareceram com a mesma facilidade com que chegaram. Os médiuns sérios que se apresentam a serviço do Cristo trabalham sob proteção. A missão estava cumprida.