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Plasticidade

                                                                 

                                                                                                                         Imagem: Public Domain - Gerhard Lipold

Por: Antonio Mata

Confiava na sorte, na valentia, na força e nas armas. Seu arsenal de pensamentos nocivos, mais perigosos que a própria predisposição para o enfrentamento.

A inteligência humana, a capacidade de pensar e tomar decisões. O maior presente oferecido aos homens submetido a toda sorte de torpezas que a perdição pode criar.

Diriam tratar-se do chefe, o mandante daqueles recantos, de gente vivendo em condições sub-humanas. Foi assim que o sujeito construiu sua fama.

A mesma que levaria o seu corpo a ser encontrado no varadouro, todo perfurado de balas.

Fim da linha, diriam os tolos de todos os gêneros. Coisa nenhuma, foi mero início dos tormentos. Foi tratado com justiça infernal, na companhia de espíritos piores que ele próprio, entregue que foi àqueles que um dia ele mesmo havia assassinado.

É assim que se constrói o inferno que habita a mente dos homens.

Com torturas, sofrimentos e abusos atrozes que assumem caráter infindável, já que perdem a noção do tempo. Contudo, mesmo desprovido do corpo físico, a dor, a humilhação e a demência são absolutamente reais.

A loucura passa a ser apenas uma simples porta de fuga. Do muito que já se fez de maldade no mundo, quantos ainda se encontram nestes tribunais de justiça cumprindo suas penas infindáveis? Foram 20 anos, 50 anos, 200 anos? Eles não sabem.

O homem transformado em monstrengo apareceu em uma seção mediúnica, fétido, banhado em sangue e totalmente deformado. O corpo espiritual é de grande sensibilidade e plasticidade, não resistindo aos abalos mentais criados pelos homens, nem no plano físico e muito menos fora dele.

Trazia um pedaço de vergalhão enfiado no pescoço, logo abaixo do queixo, de um ombro a outro. Imobilizava-o a ponto de não conseguir falar.

Ficou lamurioso, tomando o tempo do médium, com o seu próprio suplício, já que ele mesmo, em outros tempos, fora o autor sádico de outros tantos.

Mediante sugestão do dialogador, o vergalhão foi retirado e o local do ferimento, medicado rapidamente. Na realidade, nas mãos de espíritos avançados, isto seria resolvido de imediato.

Contudo, é preciso que o dialogador adquira experiência no atendimento de espíritos necessitados, tanto quanto diversos trabalhadores do outro lado da vida, que também estão aprendendo a servir. Aliás, estes irmãos iluminados e mais capazes que os demais, já passaram pela mesma escola.

Assim, estes espíritos sofredores ainda contribuem para o aprendizado daqueles que os auxiliam. O trabalho no bem não se aprende somente pela leitura de livros. É preciso fazê-lo, compreender o fenômeno espiritual para poder servir melhor.

Quando finalmente conseguiu se comunicar, o ferimento já estava fechado e cicatrizado. Questão de poucos minutos.

Falou de suas dores e da maldade a que fora submetido. É comum querer dizer que também já foi um agressor. Muito bom sinal.

O tempo de atendimento é curto. Só o suficiente para poder entender que o socorro chegou. Reclamava de dor intensa em sua perna, que teria sido partida em várias partes a golpes de marreta, durante o seu suplício. Uma espécie de acerto de contas entre narcotraficantes. A droga paga e apaga tudo.

Mais uma vez sugestionado, cuidou-se primeiro da dor, depois da reconstrução da perna. O paciente pôde assistir o local ser anestesiado e sua perna ser engessada.

Em seguida viu o gesso secar e depois prepararem sua retirada, com o corte, por meio de uma serra elétrica portátil, como se já tivessem se passado muitos dias. Tudo lhe era dito, tudo lhe era sugestionado.

Retirado o gesso, pôde se levantar e acomodar-se em uma cadeira de rodas, encaminhado a uma área de repouso, externa ao hospital onde se encontrava.

De um lado, o homem estava maravilhado às lágrimas, pelo tratamento recebido. Do outro, estava contrito, por acreditar não ser merecedor. Ao seu redor, bosques, cascatas e jardins integravam o hospital. Observava tudo aquilo extasiado, chorando como uma criança.

Havia sido recebido em um dos muitos hospitais mantidos pelo Cristo Planetário, próximos do plano físico da Terra.

O corpo espiritual, submetido a toda sorte de pensamentos e vibrações de péssima qualidade, adoece e se deforma, criando criaturas horrendas.

O mesmo corpo espiritual, submetido às vibrações benéficas de amor e caridade, se recompõe rapidamente. Daí o valor da sugestão apoiada na plasticidade e na enorme sensibilidade da tecitura do perispírito. 

É evidente que espíritos superiores acompanhavam de perto todas as etapas do trabalho, para que a sugestão aplicada pelo dialogador possa ter efeito. Há de se lembrar que o dialogador também é um aprendiz.

Posteriormente, foi recolhido à enfermaria, onde passaria alguns dias. Posteriormente, seria conduzido a um alojamento temporário, enquanto fosse preciso receber orientações a respeito de sua nova condição de vida.

Todo o processo se completava com o encaminhamento e embarque em nave gigantesca, para ser conduzido a um mundo que ainda aceite seu primitivismo e seu grau de entendimento da realidade. Até que um dia, deseje mudar.

Permanecer na Terra, já não é mais possível.

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