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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Quando existe certeza

Por: Antonio Mata.

O pé já estava na estrada ao primeiro raio de sol. Hora de se recolher os poucos pertences e meter nas mochilas. Cheios de boa vontade e aquela força que vem de dentro. Vem da alma e empurra adiante. A jornada tem que começar.

Pouco dinheiro, muita decisão e uma caminhada extensa a se fazer. Daquelas de dispensar aventureiros urbanos e os mais preguiçosos. Estes, só conseguem ver a paisagem pela janela. De casa, quando muito, do ônibus. 

Jornada de aprendizado. De se ver gente, de se conhecer coisas e costumes. De se descobrir Brasis em cada sobe e desce da estrada, cada localidade, cada vila de beira de asfalto. Além de muito, muito chão e muita poeira. 

Caminhavam debaixo daquele azulão de céu. Não por muito tempo. Nuvens cobririam quase tudo logo, sem necessariamente chover. Mas, deixando aquela sensação abafada no ar.

Manhã quente de 29 de dezembro no Planalto. A noite de Natal, passada e reverenciado na presença de parentes e amigos. O plano consistia em vencer os 1959km de Brasília até Belém. O destino da dupla de andarilhos. 

A estimativa era de 65 dias a passo lento, segundo eles. Nas costas, o alimento para cumprir parte satisfatória da jornada, segundo eles mesmos. De fato, alimentos para quatro dias. 

O resto seria obtido com eventual trabalho que aparecesse. Ou mesmo frutas que surgissem pelo caminho. Logo a estrada tornou-se de pouco movimento ante a expectativa da próxima ressaca, no dia 31. De quando em vez o vento soprava poeira.

—Mas, Josué você tem certeza?

— Bom, uma certeza certa eu não tenho não. 

Otoniel, entre a conformação e a dúvida, procurava interpretar a fala do amigo.

— Mas uma certeza errada já ajuda. É melhor que nada, né? Mas quando é toda certa é melhor ainda.

Concepções de entendimento a parte, caminhavam na certeza de que um dia chegariam ao seu destino. Por hora, haviam chegado em uma localidade com dois mil habitantes. Estavam em São Gabriel de Goiás. A 91 km de Brasília, São Gabriel tinha características de cidade dormitório. A instalação de indústrias e a proximidade com o movimento da GO-118, facilitava o acesso de visitantes. Os dois não estavam interessados em hotéis ou pousadas. Dormiriam onde desse e pudesse.

Na manhã do dia seguinte, estavam de volta a estrada, mais uma vez. Reuniram os poucos pertences nos mochilões. Foi quando Otoniel observou algo que não tinha visto antes.

— Josué, tu não me falou. Tu não falou não.

— Não falou o quê Otoniel?

— Tu trouxe branquinha e nem falou nada Josué? Ia querer tomar tudo sozinho? A garrafa toda?

— Que besteira, é claro que é pra nóis. Ce tá perdido é? Não sabe que dia é hoje não?

— É claro, é dia 30. Hoje não é dia de coisa nenhuma.

— É por isso que tá guardado aí. É para amanhã. Achou que a gente ia passar o ano novo sem nada?

Otoniel, meio abobado e muito dependente das ideias do amigo, abriu um largo sorriso amarelo, com dois dentes a menos.

— Cê pensa em tudo Josué, cê pensa em tudo!

— Finalmente alcançaram Alto Paraíso de Goiás. Pequena cidade a 235 km de Brasília. Os dez mil habitantes, fosse em casa, em família, fosse em um e outro estabelecimento, todos se preparavam para a virada do ano novo.

Josué e Otoniel haviam se acomodado sob um arvoredo, pouco antes de escurecer. Foi Josué quem sugeriu começar a aquecer o sangue. Afinal, já não era mais um dia qualquer.

— Chiii, daqui pra meia-noite, a gente vai ficar é sem nada.

— Calma, calma que eu resolvo. — Ante o comentário do amigo, se dirigiu ao comércio local, adquirindo uma segunda garrafa.

O início de um novo ano tem essa capacidade de fazer aflorar nas almas dos homens, sentimentos de renovação. Sejam pobres ou ricos. Uns se reúnem alegremente e soltam fogos.

Já outros, elevam o pensamento aos céus, em oração. Além daqueles que aproveitam para festejar a chegada do novo ano, de preferência, com a cara cheia.

Pela manhã, bêbados, um recostado no outro, junto à beira da estrada. Josué ainda consegue abrir um dos olhos e vê ao longe, um caminhão se aproximando. Se lembra da longa caminhada até Belém.

— Otoniel, um caminhão! Vem um caminhão aí, Otoniel! — Otoniel, bêbado, não prestou muita atenção.

— Depressa homi, se levar a gente até Monte Alegre já serviu.

Otoniel, mais dormindo que acordado.

— Tem certeza Josué? Certeza certa mesmo?

— Vamo cimbora homi, se levanta!

Josué se levantou de vez e começou a acenar com os dois braços. Buscava chamar a atenção do caminhão. Acreditava que seria um dia de pouco movimento. Não sem razão. A caminhada tinha limites naturais ao bom senso.

Enfim, o caminhão parou. Antes que dissessem alguma coisa, o motorista foi o primeiro a falar.

— Feliz ano novo minha gente! Podem colocar tudo aí atrás. Depois, podem entrar. A gente vai por esse Brasilzão adiante. — Josué e Otoniel não pensaram duas vezes e logo já estavam acomodados na cabina do caminhão.

O caminhão tomou seu rumo. O frescor da manhã; o horizonte à frente; o balanço do veículo e a cabeça cheia da maldita. Caíram um por cima do outro, sem ao menos ver a grande placa que com o tempo surgiu na estrada. Bem vindos a Brasília.

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