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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Quarto de hospital

           

                 Foto: haway por pixabay

Por: Antonio Mata 

 

Apertava sem parar aquele botãozinho de plástico; apertava com vontade de quebrar aquele troço ordinário para ver se acontecia alguma coisa. 
 
Igual joystick dos primeiros consoles de jogos conectados na tv que pareciam ter sido feitos para quebrar com poucas semanas de uso, afinal até as engrenagens do bicho eram todas de plástico. 
 
O infeliz nem se deu conta do tempo que poderia passar sem campainha no seu quarto, até que alguma alma caridosa resolvesse fazer o reparo. Até porque já sabiam que o paciente nervosinho iria quebrar aquele troço de novo.
 
Mas como o figurão era gente conhecida, era melhor atendê-lo.
 
Janete, a enfermeira que ficou encarregada de cuidar do paciente nervosinho, valia-se de toda sua experiência e paciência possível para lidar com o sr. Rômulo. O paciente, até jovem, uma vez que não dá para chamar propriamente de velho um homem de 51 anos; numa época em que um monte de gente no mundo está cruzando os 80 anos de idade, e com relativa saúde. Mas, a idade por si só não explica o desmazelo de cada um.
 
Irritadiço, autoritário, mandão, metido, inteligente sim, e muito, mas intolerante e portador de uma insuportável soberba.
 
Rômulo, estava internado havia quase dez dias, por conta de complicações cardíacas. Como dona Gorete, sua avó, diria em outros tempos, “la piccola disgrazia è la miseria”.
 
É que submetido a uma série de exames, que poderiam ter sido realizados periodicamente; acabaram confirmando as suspeitas da equipe médica que acompanhava seu caso. 
 
Observou-se que o neto de dona Gorete, também era diabético, e portador de um linfoma, ainda que detectado a tempo. Além disso todos os indicadores para um derrame, já estavam  presentes. Igual álbum de figurinhas, “tava completo”, diria em outros tempos, um garoto pra lá de satisfeito. 
 
A avó, a quem Rômulo, de forma precipitada e injusta, intitulava como “a única pessoa que foi merecedora do meu respeito”, havia falecido quando com o menino tinha 12 anos de idade. Daí para diante, o garoto Rômulo, apoiado em sua forma errada de pensar, sentiu-se solto, mas principalmente, abandonado no mundo.
 
Filho de uma família de lavradores pobres e ainda repleta de filhos, com a morte da avó, deixou prevalecer o seu lado mais difícil e acabou sendo encaminhado para um tio, comerciante de secos e molhados em um bairro de periferia na cidade.
 
Pouco motivado para os estudos, mas apoiado na estratégia de estudar para passar, que deu certo para tanta gente, tocou em frente. 
Por que não daria certo para ele mesmo?
 
Rômulo não estava indo para estudar propriamente. Era mais exatamente para trabalhar na mercearia do tio. O compromisso do tio era mandá-lo para a escola. Se estava estudando ou não, era outra história. Seguia cedo para a escola, na volta almoçava.
 
O resto do dia era ajudando a descarregar a Kombi, completando as prateleiras, atendendo a clientela do lugar e ao final, passar pano com desinfetante e água sanitária em tudo. 
 
Enquanto isso, Romualdo seu tio, tomava conta do caixa e prestava atenção no sobrinho, que não era preguiçoso, em que pese a rotina extenuante que só terminava às 19 horas. 
 
O nome disso é exploração do trabalho infantil, mas parece que ninguém prestou muita atenção no caso. O garoto residia na casa do tio, era alimentado e vestido. 
 
Tinha seu quarto e recebia uns trocados do tio. Maria Dolores, companheira de Romualdo, não dava maior atenção ao menino, mas também não o rechaçava. Enfim, ele tinha a desatenção, mas também o seu espaço. Combinação imprópria para quem tem doze anos de idade.
 
Por outro lado, havia uma coisa que o garoto Rômulo apreciava muito, e que o prendia naquele tipo de vida, a despeito do esforço. 
 
É que seu tio, vez por outra, o levava para fazer compras nos atacadistas e supermercados da cidade.
 
Após ajudar a descarregar a Kombi, Romualdo lhe mostrava como fazia o registro da mercadoria nova que havia chegado. Era “dar entrada no estoque”. Um caderno exclusivo, e que o tio guardava com o maior zelo, recebia o registro de toda a mercadoria comprada para a mercearia. 
Depois era fixar o preço de venda, determinante do lucro do negócio.
 
Esse preço tinha que cobrir um monte de coisas, desde o transporte, passando pelo pagamento mensal do Luís, o único empregado de Romualdo, reposição da mercadoria, impostos, taxas etc. Rômulo ouvia tudo com muita atenção, e começou a se interessar por aritmética. Aquela parte da matemática que serve, entre outras coisas, para contar dinheiro.
 
Aos quinze anos pediu um salário formal ao tio, e não apenas um dinheiro para ter no bolso. O tio hesitou de início, mas acabou se convencendo ante a argumentação do sobrinho. Rômulo guardava tudo. Não havia lanche, cinema nem namoro com as meninas da escola ou do bairro.
 
Em três anos partiu para sua primeira oportunidade de iniciar-se no mundo dos pequenos negócios. Passava a pé na rua de um bairro vizinho, quando viu alguém mexendo algumas coisas em uma garagem cheia de tralhas.
 
Em uma conversa rápida descobriu que o proprietário queria jogar aquilo tudo fora. Sugeriu então, que ele mesmo daria um jeito naquela tralha, limparia e pintaria a garagem, se o proprietário concordasse em lhe alugar a mesma para montar um pequeno ponto comercial.
 
Sugeriu que seria mais útil aos moradores do lugar, ter sempre um vizinho atento ao lado, ao mesmo tempo em que melhorava um pouco o visual da  fachada sem aquele monte de coisas inúteis amontoadas no lugar.
 
O homem, já idoso apreciou a ideia, até porque ainda obteria uma fonte de renda sem ter que se preocupar com o resto. O jovem cuidou de retirar as tralhas, vendendo o que eventualmente ainda tivesse algum valor e se livrando do resto para montar sua primeira loja de secos e molhados. Colocaria em prática tudo o que aprendera com o tio. Assim começou a vida de pequeno empresário de Rômulo.
 
O pequeno negócio em poucos meses se estabeleceu, pela comodidade que oferecia aos moradores do entorno. Falante e atencioso, atento às necessidades dos moradores para toda sorte de miudezas, desde alimentos, passando por artigos de papelaria, até comprimidos antigripais, logo angariou a preferência de seus clientes.
 
Certo ou errado, o fato é que Rômulo abria todo dia. Era falante e atencioso sim, mas por razões bem comerciais, e o rapaz de fato, ficava só nisso.
Três anos depois começou a montar um mercadinho bem maior que o de seu tio, dentro da mesma estratégia de atender as pequenas necessidades locais. Mais uma vez Rômulo teve êxito. 
 
As periferias urbanas do país cresciam e Rômulo já entendera que poderia muito bem crescer junto com tudo isso. Ao invés de sonhar com um grande supermercado, valeu-se de uma estratégia diferente. Abriria um mercadinho de bairro no intervalo de 18 a 24 meses. 
 
Trabalhando sempre com lojas simples, porém espaçosas e bem supridas, antes dos 30 anos, o garoto que ajudava a descarregar a loja do tio e fazia a faxina no final do dia, já era dono de 8 lojas e se preparava para sua nona empreitada de expansão. 
 
Aos trinta e três anos, deu uma guinada na sua orientação comercial. Enveredou-se pelo mercado atacadista e de supermercado. Um tipo de loja e depósito combinados, que estava surgindo na época. A iniciativa absorvia o que havia de melhor no atacado com as facilidades do supermercado, porém diminuindo os custos.
 
A empreitada deu certo mais uma vez. Logo assumiria expressão regional, com grandes centros de vendas em vários estados. Aos 40 anos sua rede estava em franco andamento.
 
Realmente possuía o tino para os negócios, mas o assunto necessariamente precisava ser este. A sua bitola não admitia outras conversas. Na realidade, de uma forma muito sutil, estava sendo controlado; mas não sabia nem desconfiava de coisa alguma. Neste mundo não somos afetos a ouvir a nossa própria consciência, e isto possui um ônus muito elevado.
 
Sem percepção de outros entendimentos da vida, sem sensibilidade para com as pessoas, a não ser na ótica de vender algo, o resultado foi nocivo. Tornou-se por demais insensível; primeiro para com seus empregados; depois para com a sua própria vida afetiva. 
 
Com dificuldade para separar as coisas, as mulheres em sua vida deixaram de lado sua condição humana para serem pessoas oportunistas, desejosas de uma união fácil com um cara cheio de dinheiro e com um futuro promissor. Assim pensava Rômulo, o empreendedor, o self-made man.
 
Foi também no ano em que completou quarenta anos, que pela primeira vez parou para pensar em algo no qual nunca tinha pensado antes. Depois de escorraçar um funcionário por lhe pedir dez dias de férias adiantados para poder ver os pais no interior, pois não os via fazia quatro anos; começou com um discurso moralista sobre como sempre tinha trabalhado a vida toda e rispidamente mandou o funcionário se retirar. 
 
Ao se ver sozinho repassou toda a cena na mente, mas também suas palavras, e se deu conta de que nunca havia tirado férias, naqueles últimos 28 anos, desde que deixara a casa de seus pais no interior, e continuava dentro da loja todos os dias. Um misto de satisfação, mas também de pesar por si mesmo tomaram conta de Rômulo.
 
A adolescência e parte de sua juventude passara dentro de uma loja. Sua visão de mundo consistia nisso; lá fora o mundo era algo hostil e repleto de bajuladores, aproveitadores e oportunistas.
 
Rômulo não via nada, mas, acompanhado de uma legião de  entidades espirituais, tão materialistas e avaros como ele próprio, lhe ofereciam toda sorte de intuições no intuito de isolá-lo mais ainda e assegurar que não voltaria mais a pensar em ter compaixão de si mesmo, ou de quem quer que seja.
 
O plano iniciado por seu obsessor, ainda na sua adolescência, estava de vento em popa. 
Em outros tempos, passados em outra vida, Rômulo era o verdadeiro oportunista e subtraía lentamente os recursos de seu sócio em um negócio de sucesso.
 
Quando o sócio  se deu conta do que estava acontecendo já era tarde. Sobreveio pesado choque em que Heitor, o amigo e de plena confiança em seu companheiro, não suportou vindo a falecer em poucos meses, com sua família levando muitos anos para se recuperar de tão pesado revés. 
 
A casa espaçosa e arejada da família vendida às presas para pagar dívidas, enquanto procuravam um imóvel menor e barato.  Os filhos tendo de trabalhar prematuramente, quando deveriam cuidar nos estudos. E o esforço de todos para quitar notas promissórias remanescentes.
 
Heitor assistia a tudo com o olhar paralisado e impotente. A impotência acabou transformada em ódio, que agora perseguia Rômulo, sem que ele sequer percebesse o que estava acontecendo.
 
O presente e imorredouro fio de esperança, portador da real grandeza de Deus, era representado por uma velhinha, um tanto quanto triste, mas incansável no seu esforço para salvar a experiência terrena do neto egoísta.
 
Gorete, apoiada por bem feitores espirituais que acompanhavam dia após dia seus esforços em favor do neto, buscavam uma oportunidade para que pudessem intervir. 
 
Mas, o cenário negativo da rigidez mental sustentada pelo próprio Rômulo, dificultava agir de pronto, pois para todos os filhos inteligentes de Deus, o livre arbítrio é a lei. A sua vontade precisa ser respeitada. Cada espírito da Terra, deste ou do outro lado da vida, precisa ser capaz de tomar as suas próprias decisões. Deus cria seus filhos para a autonomia. E autonomia, pressupõe responsabilidade para consigo, mas também para com os demais.
 
O antídoto de Rômulo para estas ocasiões em que questionava sua própria existência e a forma como vivia, era o trabalho, e o trabalho para chegar a mais um grande centro de vendas. Seu plano seguia adiante, com Rômulo seguro e confiante de seus propósitos. 
 
Na realidade, o antídoto, sem que percebesse era também o direcionamento de espíritos obsessores controlando sua casa mental e impedindo que qualquer outro pensamento mais elevado pudesse crescer em seu íntimo, pois isto o afastaria de sua rota de enriquecimento, que era a parte visível; mas também seu desencarne prematuro que estava sendo ardilosamente preparado pelos seres sombrios.
 
Tornou-se conhecido na sociedade local, ainda que fosse retraído e desinteressado por contatos sociais, surgindo apenas esporadicamente, no seu pouco interesse por amizades. Falava de negócios, quando isto era possível.
 
Se não se motivava com o brilho da noite, por outro lado, também não era afeto à presença de bajuladores, na sua forma simples e objetiva de classificar a tudo e a todos.
 
O avançar dos anos ampliou a tão ambicionada riqueza, com Rômulo se tornando figura proeminente e respeitada. Entretanto, na condição de portador de sentimentos de baixa vibração acalentados no seu isolamento tão voluntário quanto imposto por entidades trevosas.
 
Isolamento este que impediu a presença de pessoas com uma forma de pensar mais elevada, mais tendentes ao bem, e que de muita boa fé, poderiam ter contribuído para que encarasse a riqueza de uma forma mais construtiva. Para muito mais além da simples acumulação.
 
A somatização no corpo físico tornou-se mera consequência. De um súbito mal-estar, foi conduzido às pressas a um hospital, onde teve de permanecer em UTI, para acompanhamento pormenorizado de seu estado clínico. Quando os resultados dos exames começaram a chegar as notícias não eram boas.
 
Hipertenso em estágio avançado, a chance de um AVC era real; o formigamento e dormência no braço esquerdo afirmavam isto. A doença cardíaca já havia se instalado com alta propensão para o infarto. O diabetes também se apresentava, bem caracterizado nos exames. Um linfoma havia sido detectado, porém a tempo de se obter socorro. O problema era o quadro geral; Rômulo estava com seu corpo sendo bombardeado de diversas formas.
Sem amigos ou parentes interessados, que pudessem lhe prestar o apoio sempre necessário do calor humano, independente de outros fatores, a doença o destruía rapidamente. 
 
Entre a descrença e o desespero, Rômulo entendia que os médicos poderiam lhe tirar daquela situação e por isso resolveu colaborar, o que não era do seu feitio. O esforço era mínimo, mas necessário. De qualquer forma, já na manhã do dia seguinte, o paciente teve a sua primeira parada cardíaca após a internação. Ao final do dia, a segunda. A terceira, já na manhã logo a seguir, mostrou-se fatal.
 
O empreendedor não deixou esposa nem filhos. Muito menos um testamento. Perdera contato com Romualdo e Maria Dolores há muito tempo. De fato, a família não sabia o que havia acontecido com Rômulo. 
 
Só com o tempo, o que se deu foi uma disputa judicial entre os familiares que foram se apresentando, cada um querendo assegurar sua parte na herança repentina. Romualdo e Maria não quiseram estar entre eles. O velório e sepultamento de Rômulo, tornou-se  um mero espetáculo de cinismo da parte de familiares, ali representando cada um o seu papel. Terminava assim a solitária trajetória de Rômulo.
 
Sem nenhuma pequena atitude mais voltada para o bem-estar dos demais, que pudesse lhe oferecer ao menos as orações daqueles que o conheceram, Rômulo se perdeu. Em um mundo repleto de crianças e idosos a espera de serem ao menos lembrados, o homem cerrava fileiras por entre os céticos, os egoístas e os alheios às incontáveis oportunidades de servir a Deus que sempre são postas diante dos olhos.
 
Restou-lhe as décadas de escuridão, desilusão, lama, choro e ranger de dentes, na mais absoluta solidão. A conquista fúnebre de uma humanidade doentia, em meio a tantas possibilidades de salvação e libertação. 
 
Trabalhar é bom, trabalhar com Deus é melhor ainda, pois é trabalhar para si enquanto serve aos demais de forma consciente, pois não esquece daqueles de menores possibilidades na vida.
 
As décadas avançariam antes que pudesse ser recolhido a um hospital espiritual, esclarecido e preparado para novo retorno à matéria. A grande oportunidade de se recompor com as forças do universo e consigo mesmo. Quando poderá então, valorizar os talentos oferecidos ao invés de enterrá-los.
 
                                               FIM

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