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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Realidade

Por: Antonio Mata

Ruas vazias sempre terão significado. Não importa que seja um feriado, manhã de domingo, madrugada, friagem, crise sanitária, fique em casa, toque de recolher e o que mais houver. 

Era dia e estava indo para casa. Só estranhou uma coisa de início. Estava longe, muito longe. Não pensaria em andar tanto. Isso puxou outra observação rápida. Na rua não achou vivalma. Carros passando e fazendo barulho. Lojas abertas e o burburinho habitual da cidade, nada. 

Prosseguiu caminhando despreocupadamente, a despeito do lugar estar deserto. Mas, não por muito tempo. Apareceu outro sujeito com ar de um certo cansaço. 

Parecia perdido e falava coisas pouco inteligíveis. Insistia em lhe acompanhar, muito embora não entendesse sua presença ou seu propósito. Não se tratava de um assaltante ou um agressor. Ainda que não gostasse da sua presença. 

Ficava pensando no que poderia ser, sem encontrar uma resposta. Apenas um sonho e daqueles, aparentemente desprovido de propósito, logo concluiu. Já que não encaixava aquela fala desconexa e a pessoa em coisa alguma. 

Contudo, o sonho desconexo, ao longo dos anos, apareceu pelo menos três vezes. O lugar, sempre tão conhecido quanto deserto. Foi ficando claro que o problema central estava em entender a presença daquele homem.  

Sempre esbaforido, de fala estranha, sem nada mais interessante para mostrar ou se fazer entender. Só a teimosia do homem em querer estar ali e sua repulsa em não querer sua presença.

Então, já pela manhã, pensando quando da última vez em que o sonho se repetiu, teve outra percepção do caso. De início achou que fosse asneira. Mas, teve que pensar mais um pouco.

O ar cansado daquele homem não estava ali à toa.  Nem sua fala ininteligível, nem sua presença indesejável e aparentemente sem sentido. O que só naquele momento lhe ocorreu, após vários anos, é que aquele homem era ele mesmo. 

Ou mais exatamente, um certo alguém que ele próprio já havia decidido que não desejava mais ser daquela forma. No meio espírita o chamam de homem velho

Uma alusão a tudo aquilo, toda sorte de comportamentos que foram se tornando peso morto e que já não se faziam mais necessários. Perderam a razão de ser. O homem velho então, moribundo e vazio, vagava pelas ruas desertas. 

Como quem se vai em seus últimos estertores. Cansou-se por si só. Suas ideias, suas falas, seus erros já não importavam mais. Seu tempo passou, sua existência passou. Sua civilização, confusa e doentia, também estava se acabando. 

O recado era claro. Livre-se de tudo aquilo que ainda te prende a este mundo carcomido e sem moral, pois o tempo acabou. Só leve consigo o que fez de bom, o aprendizado e o amor de Deus. 

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