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                                                                                                                                                Foto: Filipe C. Sousa

Por: Antonio Mata

O aguaceiro correndo, repleto de ondas brancas, invadindo o que estiver pela frente, moldura de céu cinzento e o vento empurrando aquele ar frio. Qual é a novidade? De vez em quando assistia esse tipo de coisa desde criança. Invadia as poucas casas da orla, invadia garagens de subsolo, naquele monte de prédios que fizeram de frente para o mar. E daí?

Sonhava com a mesma coisa pela segunda vez e achava tão sem graça e indecifrável quanto da primeira. No primeiro até que deu um friozinho na barriga. Deu até para ver o espumeio subindo o rio. Virou-se na cama e foi tratar de dormir.

Passou-se um mês, um semestre, sabe lá. Início de semana, acordar as crianças, escovar os dentes, preparar o café, encaminhar para o banho, servir a mesa enquanto colocam a farda da escola. Tudo muito comum e habitual, de certo modo todos já sabem o que fazer. É sempre tudo muito igual ao longo da semana. Pelo menos se esperava que fosse, até aquele dia.

— Não acredito que você fez isso Nice. Reclamava Edu com a xícara na mão.

— Fiz o quê, o que foi?

— Não notou? Você colocou sal no café.

— Eu coloquei o quê? Edu isso lá é hora de inventar amolação. Daqui a pouco os meninos vão achar que tem sal no café também.

Nice buscava aliviar o falatório pela manhã, antes que o incêndio de expandisse.

— Mãe, tem sal no meu café, mãe. Tem sal aqui dentro.

Nice se vira para o pequeno Augusto com cara de quem não está gostando, pois era o mesmo café com leite de todos os dias.

— Mamãe, é esse aqui. Paulinha aponta o dedinho na direção de sua xícara, avisando que tem alguma coisa errada.

— Pois bem, de quem foi a ideia? Qual o motivo desse complô, qual o motivo da brincadeira?— Com as mãos na cintura, Nice parecia não gostar daquele princípio de motim, logo tão cedo, e com a anuência do Edu.

— Calma todo mundo, vamos sossegar primeiro. Nice prove um pouco do café, você pode ter se enganado.

Já aborrecida, Nice coloca um pouco de café em sua xícara, e qual não é sua surpresa ao sentir o gosto de sal misturado com café.

— Uai, não acredito. O que é isso?

— É sal mamãe, café salgado. O meu é café com leite salgado.

Nice apanha a xícara da Paulinha e prova o café com leite. Não há mais nenhuma dúvida. Se Nice não fez nada fora do habitual,  o que parecia ser pouco provável, o fato é que o café realmente estava salgado.

— E agora essa, não estou entendendo mais nada.— Dizia Nice.

— Mãe, posso falar uma coisa? Agora era Augusto.

— Você já falou Guto, seu café também está salgado.

— Não é isso não mãe. É que quando estava escovando os dentes, eu senti gosto de sal.

Edu e Nice se entreolharam com cara de espanto. Edu levantou-se e foi até a torneira da pia da cozinha. Levou um pouco de água à mão e colocou na boca. Foi o suficiente para acabar com as dúvidas.

— Guto tem razão, Nice. A água da torneira está salgada. Parece brincadeira, mas é verdade.

— Mamãe, quando eu estava no chuveiro, também senti o gosto de água salgada. Paulinha confirmava tudo, além de assumir que estava bebendo a água do chuveiro enquanto tomava banho.

Foi até a geladeira e pegou um gole d’água. As mulheres têm mentalidade prática. Já estava querendo saber se havia alguma água potável dentro de casa, por pouca que fosse. Tinha sim.

O passo seguinte para pôr ordem nas coisas, era acionar o maridão para dar um jeito de sair, e só voltar com um garrafão de água mineral. E isso teria de ser feito logo. Nice já havia entendido que aquele seria um dia diferente dos outros.

Espera-se tanto por algo diferente, algo que quebre a monotonia dos dias. Quando a coisa diferente aparece, aí começa aquela  confusão. Aquele monte de lamentações e reclamações só porque o inusitado da segunda-feira finalmente, chegou.

— Edu corre, mas corre agora, vai no mercadinho aqui perto e compra logo um garrafão de água mineral, se não as crianças vão ficar sem água para beber, e a gente também.

— Tá, deixa comigo, sossegue, isso é passageiro. Depois que sair a água com sal, você vai ver. Vai voltar tudo ao normal.

— Pois é, só não sei quando, e nem você.

Edu era um cara bem relacionado. Morador antigo daquele prédio, conhecia todo mundo pelo nome. Herdou o hábito de seu velho pai, seu Laurindo, que morou por muitos anos, a três quadras adiante. Faleceu idoso e de bem com a vida. Aquele tipo de pessoa que faz o velório encher de gente.

De certa forma Edu o substituiu. Bastou pôr os pés na rua, e logo apareceu um conhecido, um amigo, um vizinho, a mãe do vizinho, e o tempo passando. Integrantes da turma do vôlei e da pelada, desde os tempos da adolescência. Gente do tempo da escola. E a Nice esperando o bendito do garrafão de água mineral.

Algo como três vezes o tempo normal para se fazer a mesma coisa, chegou ao mercadinho. De súbito, se deu conta do atraso, e em um movimento quase hipnótico, se dirigiu a um canto da loja, onde colocavam os garrafões, para apanhar logo o seu e dar o fora dali ávido por atender sua mulher e família. Na realidade, apenas estava incomodado com a bobagem que poderia ter feito demorando tanto no caminho.

Olha de longe, olha de perto, remexe tudo, e é isso mesmo. Só havia garrafões vazios. Edu pressentiu o perigo e saiu atrás de alguém que pudesse ajudar. Encontrou um funcionário da loja e procurou saber se não havia um ou outro garrafão cheio, guardado no depósito, que pudesse quebrar o galho.

O funcionário foi até uma segunda pessoa que olhou para o Edu, e assentiu com a cabeça. Entrou no depósito, e um ou dois minutos depois, voltava com o garrafão no ombro. Aquele garrafão, salvou o Edu de ter de inventar um monte de explicações para Nice. Só um monte de mentiras.

Satisfeito voltou para casa com a carga mais que preciosa. Ainda pensando no que poderia ter provocado aquele reboliço todo. Vamos aos fatos, ainda pelo caminho, Edu já ia entendendo que o problema não era em seu prédio. Nas conversas, era evidente que tinha mais pessoas que estavam ficando sem água potável.

Para além dos episódios ocorridos com a família de Edu e Nice, quem ligou a tv para assistir aqueles jornais que começavam bem cedo, talvez conseguisse ligar duas coisas, dois fatos simultâneos.

A narrativa dos telejornais dava conta de que os mares entraram em um processo inesperado de ressaca. De início, pensou-se que fosse apenas em determinada região do litoral. Na medida em que chegavam mais informações de outras centrais, foi-se percebendo que o problema era maior que o imaginado antes. O mar estava lentamente invadindo cidades do litoral.

Edu, que ainda não sabia de nada disso, retornou para casa. Nice tinha refeito o café com a água que estava na geladeira. Após servir a todos, como já fosse tarde, resolveu ficar em casa e não levar as crianças para a escola. Edu seguiu para o trabalho como de costume.

Para o almoço, a água salgada não seria propriamente um problema, de modo que não guardava maiores preocupações. Afinal tinha uma pequena reserva para atender a família, pelo menos por enquanto, até que tudo assumisse ares de normalidade, mais uma vez.

Ainda que atrasado, Edu já no ponto de ônibus, e muito conversador que era, tratava das trivialidades de uma manhã de segunda-feira. Contudo o assunto da água era inevitável.

— Deu na tv que o mar está com uma ressaca horrorosa. Quem mora naqueles prédios de frente para o mar, quem mora ali por perto já começa a ter problemas.— Dizia um dos presentes, enquanto aguardava seu ônibus chegar.

— Problema? Um problemão! Aqueles edifícios possuem garagens subterrâneas. Me contaram que estão enchendo d’água.— Dizia outro.

— Mas estes edifícios são equipados com bombas. Lembra quando tem enchente? Precisam acionar bombas de sucção para escoar a água de dentro das garagens.— Dizia mais um.

— Gente o que interessa mesmo é tomar cuidado com a possibilidade de isolamento de quem mora nestes edifícios. Não precisa cobrir o prédio todo. Basta uma coluna de água permanente, aí não tem bomba que resolva. A vida já se comprometeu, inclusive patrimonialmente.— Dizia outro, aguardando no ponto de ônibus.

Quando a conversa puxou para este lado, dessa vez Edu ouvia mais do que falava.  Aos poucos se dava conta de que a confusão poderia ser bem grande.

Até que um dos presentes fez o seguinte comentário:

— Olha aí gente, cuidado com os garrafões de água. Tem gente enchendo na torneira e pondo à venda como se fosse água mineral, pois já está faltando água de garrafão.

— Ah, meu amigo! A bandidagem não deixa passar a oportunidade. Nós é que precisamos tomar cuidado. Ser astuto como as serpentes e simples como as pombas. Nunca se deve esquecer o Mestre Jesus. Ele sabia o que dizia.— Comentava uma senhora, a respeito da última narrativa.

No que Edu entrou na conversa.

— Ainda bem que eu cuidei disso logo cedo e consegui o último garrafão. É verdade, estava acabando mesmo.

E assim a conversa prosseguia, até o momento, em que um a um, os ônibus foram chegando e o grupo tomou, cada um o seu rumo.

Foi logo após o horário de almoço que Edu recebeu um monte de impropérios, através de mensagens pelo celular. Edu pensava: pelo amor de Deus, o que foi que aconteceu em casa dessa vez? Eu deixei tudo certo com a Nice. Mas a pulga ficou atrás da orelha.

Deixou certo, mais ou menos. Para entender, tem que acrescentar alguns detalhes naquela manhã de segunda-feira. Justamente a parte que o Edu não sabia, mas temia.

Quando o mercadinho se abriu, e logo de cara, os primeiros compradores estavam atrás dos garrafões de água mineral. Fernandinho, acertadamente chamado “mão de vaca”, dono do mercadinho, notou que logo ficaria sem água. Tratou de pedir nova remessa em caráter de urgência.

Foi então avisado pelo distribuidor que só poderia atendê-lo no dia seguinte. Visionário e atento às oportunidades da vida, que, contudo, não passa de simples mesquinharia, enchia os garrafões com água da torneira.

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