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Se não houvesse nuvens

                                                                

                                                                                                                                                    Foto: katja por Pixabay

Por: Antonio Mata

Visualizava o céu nublado, da cadeira onde estava sentado. A tarde morna, suavizada pela ausência de insolação direta, e ainda por um vento soprando suavemente.

Do trabalho braçal, aos jogos de campo ou quadra, passando pela contemplação, reflexão, ou simples pensar sobre coisas que não  se entende, a tarde abraçava a todos, do letrado, ao analfabeto, do apressado ao preguiçoso.

Juarez, da sua varanda, junto da mulher, contemplava as árvores adiante e o céu nublado. Foi quando lhe ocorreu um raciocínio, no mínimo, diferente.

— Marieta, e se não houvesse nuvens?

A mulher, achando tratar-se de uma brincadeira, emendou:

— Juarez, e se não houvesse o sol?

— Para Marieta, isso é sério.

Juarez insiste com o seu questionamento diferente.

— Imagine que já não há nuvens. E agora, o que acontece depois?

— Tá bom Juarez, vai parar de chover. Responde Marieta, meio desacreditada das objeções do marido.

— Sim, para de chover. Então, é só isso?

— Agora você tá querendo complicar. Torna a responder Marieta, entre um balanceio e outro, sentada ao seu lado.

— Não, não é isso. Agora estou querendo pensar em um mundo sem chuva. Ainda não é só isso, mas um mundo de dias inteiros sem sombras pela falta de nuvens no céu. Além disso, a insolação é direta, não há nada que possa impedi-la.

Marieta, só para não contrariar o marido, aposentado e cientista de varanda, deu mais um pouco de corda.

— Não tem chuva, e não tem sombra das nuvens, mas tem insolação. Pronto, e agora, o que vem depois?

Juarez, pegou a corda da mulher, e prosseguiu.

 — Um mundo exposto a um cenário de muita insolação, pois não há mais como refletir de volta para o espaço o excesso de raios solares. As nuvens participam desse papel, e como também não há reposição pelas chuvas e pela neve, não há manutenção dos picos nevados, logo não há água suficiente se dirigindo aos rios. Nem pelas chuvas, nem pela neve, mas a evaporação aumentou. Juarez prosseguiu pensativo, e embasbacado com aquilo.

— Assim, o lençol freático poderia ser rebaixado, levando para mais fundo a água dos rios, lagos, poços artesianos e ainda das cacimbas. Marieta, teríamos que depender dos aquíferos, da água subterrânea. Teríamos que escavar para obter água para beber, ou retirar o sal da água do mar.

O velho, compenetrado e de mão no queixo, concluiu seu raciocínio. Era diferente e meio desprovido de sentido para se puxar conversas, costumeiramente mais amenas, enquanto o casal descansava nas cadeiras de balanço.

— Deixe disso Juarez, tá se preocupando à toa. Nesse mundão de água que existe no mundo, não vai parar de chover é nunca. Se parar por aqui, chove acolá, se parar também, chove em outro lugar. Sempre foi assim Juarez, e sempre será.

O velho, meio que descrente das palavras de Marieta, e ainda compenetrado com aquele questionamento, ainda insistiu.

— Se isto nunca aconteceu, se sempre existiram nuvens, como é que faríamos para saber?

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